domingo, 8 de julho de 2012

Além do Mito do DCE “gestão Correnteza”




Maceió, fevereiro de 2012

"Se a aparência e a essência das coisas  coincidissem, a ciência seria desnecessária"
Karl Marx

O presente texto tem como finalidade a contribuição para melhor nortear e sustentar as lutas estudantis que estão colocadas na ordem do dia na Universidade Federal de Alagoas. A certeza advinda do entendimento de que cada luta não se limita as questões imediatas – número de Professores, salas de aula suficientes, residência, assistência estudantil, etc. – mas, faz parte de uma conjuntura social mais ampla, é o que nos impulsiona a continuar alavancando as lutas na UFAL tendo como base a nossa perspectiva de atuação.
Esta contribuição se faz necessária neste momento, pois, temos a frente do DCE UFAL um Grupo Estudantil (Correnteza) – comandado pelo Partido Comunista Revolucionário (PCR) – que se apresenta como oposição ao atual projeto educacional desenvolvido pela reitoria e pelo Governo Federal, fator este que tem levado uma série de estudantes engajados (em especial nos Campi de Arapiraca e Delmiro) à ilusão de acreditar que esta organização é de fato, o que diz ser. Nas próximas linhas demonstraremos que, nesta aparência crítica, se esconde uma essência teórico/prática que já se mostrou historicamente limitada e subsumida à lógica que fundamenta a sociedade capitalista.  
Esta análise é destinada a todos os estudantes da UFAL, em especial, aqueles que, de uma forma ou de outra, atuam, apoiam ou têm alguma simpatia pelas atividades organizadas pelo Movimento Estudantil (CA’s, DA’s e DCE), sejam estas atividades: políticas, acadêmicas e/ou culturais.



Boa leitura!








Além do Mito do DCE “gestão Correnteza”


Introdução:
A necessidade de avaliação de nossas ações:
 As possibilidades e os limites das nossas reivindicações em cada momento histórico


Nos últimos três anos, as diversas contradições existentes nas Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) se acentuaram profundamente com o processo de “expansão” destas, promovido pelo Estado. Mesmo com toda a propaganda sobre o aumento do número de Universidades e, principalmente, de alunos ingressantes, vários são os questionamentos que podemos levantar sobre a concepção e a qualidade de educação empregadas. Relatos e enumeração dos problemas de cunho estrutural e de pessoal são dispensáveis neste primeiro momento, uma vez que, aqui na UFAL (lócus para o qual este texto é dirigido), estudantes, professores e técnicos administrativos vêm sentindo cotidianamente o verdadeiro caráter desta reforma - maquiado de expansão - da Universidade.
Como não poderia ser diferente, uma série de reações aos problemas decorrentes deste processo eclodiram sob as mais diversas formas e nas mais diversas IFES do país. Centenas de mobilizações colocaram na ordem do dia uma enorme quantidade de problemas como: ineficiência da assistência estudantil, insuficiência do número de professores, carência de estrutura física, falta de verbas para pesquisa e extensão, etc. Vale ressaltar as reivindicações estudantis em curso nos Campi de Arapiraca e Delmiro Gouveia e nos seus respectivos pólos, além é claro, das lutas já existentes no Campus Maceió. Todas, tendo como pano de fundo a luta por condições básicas para o funcionamento de uma instituição de Ensino Superior. 
É justamente nesta conjuntura que o Grupo “Além do Mito...” enxerga a necessidade de uma reflexão sobre estas reivindicações; sobre o papel desempenhado pelos Centros e Diretórios Acadêmicos; e, principalmente, sobre o papel que vem cumprindo o Diretório Central dos Estudantes Quilombo dos Palmares sob a direção do movimento Correnteza desde 2010. Movimento este que - repetimos - é dirigido pelo PCR (“Partido” “Comunista” “Revolucionário”).
A justificativa desta necessidade é alicerçada numa premissa que temos bem clara: a cada passo que damos, temos que verificar detalhadamente  seus resultados: onde erramos; quais foram os nossos acertos; quais foram as possibilidades e os limites que incidiram naquele passo e as respectivas consequências geradas a partir dele.
 Estar sempre analisando nossas ações é de fundamental importância para termos bases mais sólidas nos rumos dados no presente; para não cometermos os mesmos erros do passado que nos levaram a acumular derrotas; quem são nossos aliados; para termos a clareza sobre quais os melhores meios de reivindicação das nossas causas mais imediatas - sem perder as ligações destas com a necessidade de transformação da totalidade social; etc.
Um fator decisivo para qualquer avaliação de uma determinada mobilização estudantil é sempre levarmos em conta o momento histórico no qual ela pôde surgir. Em nossa opinião, se queremos analisar um determinado objeto social (no nosso caso, o objeto em questão é o Movimento Estudantil) com o rigor necessário para nos aproximarmos ao máximo possível da sua realidade, temos que entender em qual momento histórico ele está inserido, qual sua origem e função social, quais são seus limites e possibilidades reais.
Desta forma, não iremos abordar o nosso objeto de maneira isolada e separada da totalidade social na qual ele está inserido, tal como fazem - e nos ensinam a fazer – a maioria dos professores desta Instituição. Se assim o fizéssemos, estaríamos fadados a realizar uma análise superficial e sem qualquer fundamentação sobre aquilo que estamos investigando, o que acarretaria, obrigatoriamente, em ações sobre esta realidade, também superficiais e infundadas.
Assim, o nosso estudo começará com uma breve leitura sobre as transformações que vem ocorrendo na área da educação – lócus de atuação do ME - ao longo desses últimos anos. Iremos adotar como ponto de partida, as mudanças ocorridas na esfera produtiva e suas ligações com a educação, no período neoliberal. Esta metodologia nos ajudará a entender de modo mais claro, os problemas que vivenciamos na UFAL, sobre o papel que a administração central da Universidade tem exercido na intensificação destes e, principalmente como o DCE tem “respondido” a todo este processo.





Além do Mito do DCE “gestão Correnteza”


      Capítulo 1
A subjugação da educação ao neoliberalismo
e a farsa da democratização do acesso ao ensino superior


Como afirmamos acima, para compreendermos as ações executadas pelo Movimento Estudantil da UFAL (podemos estender esta análise a todo o país, salvo as especificidades de cada estado) é de fundamental importância uma leitura sobre a esfera social na qual ele está inserido. Assim sendo, é imprescindível tecermos algumas considerações sobre as transformações em andamento no setor da educação, em especial no ensino superior. 
Todas as orientações aplicadas pelo Estado brasileiro às Universidades são melhores entendidas quando tomamos como referência o período pós anos 70, quando o capitalismo vai passar por profundas transformações (reflexos de sua crise estrutural[1]) e toma como saída a sua forma neoliberal.
         Dentre outras coisas, o neoliberalismo é caracterizado pela (re)divisão das zonas mundiais de influência política; pela desregulamentação/privatização de diversos setores que até então eram concebidos como deveres do Estado, como a educação e a saúde; e pela (re)configuração do setor produtivo.
No que diz respeito às reconfigurações no setor da produção de mercadorias, uma das características fundamentais ocorridas dentro das grandes indústrias é a readequação do fordismo (produção em massa) ao toytismo (produção de acordo com a demanda). Isto vai significar que a produção de mercadorias, irá manter o seu padrão de produção em larga escala, com a especificidade de adaptação destas às particularidades de cada mercado consumidor local. Da mesma forma, a reconfiguração do setor produtivo com que diversas mercadorias, em especial os eletrônicos, comecem a ser fabricadas para ter uma curta duração, como as TVs, geladeiras, e celulares, que já vem com seus respectivos tempos de funcionamento encurtados e prazos para quebrar predefinidos. (Ler Fordismo e Toyotismo na Civilização do Automóvel, de THOMAS GOUNET – boitempo, 1999)
Outro caminho encontrado pelos economistas neoliberais de plantão, para responder a queda da taxa de lucratividade dos grandes empresários em crise, é a desregulamentação/privatização dos serviços essenciais a população. A idéia era encontrar nos serviços oferecidos pelo Estado, novos meios para recuperar a taxa de lucratividade e dada a real impossibilidade de se criar novos mercados consumidores em virtude dos limites geográficos da Terra, as diretrizes eram a de repassar à iniciativa privada a responsabilidade sobre os serviços básicos à população e fazer das privatizações da educação, saúde, segurança e previdência uma espécie de “mercado novo” para o capital garantir suas taxas de crescimento e lucratividade.
 Esta nova lógica político-econômica será o fator essencial que irá orientar todos os projetos educacionais elaborados pelas diversas agências e organismos internacionais (FMI, BIRD)[2]. Estes por sua vez, irão lançar as diretrizes e os parâmetros que deverão nortear as políticas educacionais a serem desenvolvidas nos/pelos países do chamado Terceiro Mundo.
É neste contexto que podemos entender o grande “boom” das faculdades e universidades privadas, ocorrido no Brasil no inicio da década de 90 - período em que o Brasil adotou em definitivo o Neoliberalismo como modelo econômico a ser seguido. A educação privada passou a receber numerosos investimentos de multinacionais e do próprio governo para se proliferarem pelas esquinas das grandes cidades do país.
 Para que tais investimentos pudessem ser lucrativos, foi imprescindível à ação do Estado em duas vias. Uma, através das políticas direcionadas às universidades públicas, por meio de cortes orçamentários, intensificação do trabalho docente e o consequente rebaixamento da qualidade do ensino público. E em segundo lugar, o Estado também começou a patrocinar as privadas através da isenção de impostos e pelo pagamento de mensalidades para estudantes pobres – PROUNI. Para se ter uma ideia dessa política privatista, um levantamento feito pelo ANDES[3], em 2008, estima que o valor gasto pelo governo para bancar um estudante numa faculdade particular daria para abrir três vagas numa universidade pública!
Para ficar mais claro sobre o que estamos falando, vejamos um exemplo:
Imaginemos Carlos, filho de um casal de classe média alta com renda familiar de 25.000 reais. Ele está prestes a concluir o ensino médio e pretende fazer o curso de administração. Neste nosso exemplo, o Estado e a sociedade em geral compreendem a educação como um direito pertencente a todos os indivíduos, e que é o Estado o responsável pela garantia do acesso de todos a este direito. Sendo assim, não apenas o curso de administração, mas todos os outros cursos superiores são oferecidos gratuitamente pelo Estado. Mais ainda, toda a estrutura das universidades que abarcam estes cursos é suficiente para atender a demanda de todos os jovens do Brasil, garantindo a estes todas as condições para a apreensão e o desenvolvimento do conhecimento necessário ao atendimento das demandas sociais. Ora, se Carlos está prestes a ingressar no ensino superior e se o Estado oferece uma universidade pública e de qualidade a todos os jovens, a pergunta que fazemos ao caro leitor é consequente: existe alguma lógica ou razão para o nosso personagem - por mais grana que a família dele tenha - escolher cursar administração numa faculdade privada? E, mais ainda: seria viável a existência de uma faculdade particular nestas condições?
Podemos estender o exemplo acima para qualquer outra área que também deveria ser de responsabilidade exclusiva do Estado, como a saúde: haveria mesmo a necessidade de Carlos levar a sua avó doente a um hospital privado, uma vez que o Estado oferece hospitais com equipamentos de última geração, sem filas, funcionários bem remunerados e o consequente atendimento humano a toda população?
Como podemos ver, para que o setor privado possa existir e se desenvolver numa determinada área, é fundamental a intervenção do Estado, quer seja para desregulamentar as suas próprias obrigações, quer seja para financiar os gastos e os lucros da iniciativa privada.
Em Alagoas, vimos nitidamente algo muito parecido nos anos 70 e 80. Todos os filhos da “elite” econômica estudavam em escolas públicas, especificamente no Centro Educacional de Pesquisas Aplicadas (CEPA), pois eram estas que ofereciam o melhor ensino, a melhor estrutura e os melhores professores, por consequência, eram estas escolas que aprovavam quase todos os estudantes no vestibular da UFAL. Existiam apenas duas escolas particulares e, mesmo assim, quando seus alunos chegavam próximos ao período do vestibular, migravam para o CEPA visando se prepararem melhor.
É evidente que naquele momento eram poucas as vagas oferecidas pelo governo aos estudantes em idade escolar. Por um lado, isso significava que havia uma extrema necessidade de se estender aquele sistema educacional a toda a população. Por outro lado, significava também que a qualidade deveria ser preservada no momento desta expansão. Mas, em acordo com as transformações que acima afirmamos, não foi o que aconteceu nos anos seguintes.
Sob um discurso de que o Estado deveria dar acesso à educação a todos os jovens, houve, naquela época, uma enorme campanha publicitária colocando a necessidade de se expandir o ensino médio aos filhos oriundos das camadas sociais mais pauperizadas. Foi assim que, em poucos anos, o número de escolas estaduais de ensino médio cresceu consideravelmente. Obviamente, não é necessário aqui fazermos uma descrição sobre todo esse processo, pois o quadro atual destas escolas mostra-nos perfeitamente o caráter desta expansão. Longe de ser uma política direcionada a oferecer uma educação pública e de qualidade a todos, vimos, literalmente, a destruição da qualidade do ensino público. O aumento da jornada de trabalho dos professores e o rebaixamento dos seus salários, o não crescimento proporcional da estrutura das escolas em relação ao crescente número de alunos e a inexistência de políticas voltadas à assistência estudantil e ao acompanhamento dos novos estudantes, foram os fatores que fizeram parte desta “expansão”.
 Não por coincidência e paralelamente, o número de escolas privadas em Alagoas – em especial aqui em Maceió – teve um aumento exponencial. Desde então, em cada esquina encontramos um colégio privado. As consequências últimas deste processo foram: rebaixamento da qualidade do ensino das escolas públicas, passando estas a atender os filhos da classe trabalhadora e centros educacionais privados especializados em aprovar seus estudantes no vestibular, voltados ao atendimento dos filhos das classes mais abastadas.
O que verificamos atualmente no ensino superior - tomando como base as décadas dos anos 1990 e 2000 - é justamente um falso discurso sobre a expansão dos  IFES (Instituição Federal de Ensino Superior). O fundamento último que rege o aumento do número de vagas de estudantes é o atendimento das necessidades surgidas na esfera produtiva de uma economia em crise. Tanto em relação ao treinamento e adequação da mão de obra aos novos imperativos do mercado de trabalho – agora com as demandas neoliberais – e, como efeito, o rebaixamento da qualidade do ensino, quanto em relação à abertura na área da educação ao financiamento privado.
Foi esta conjuntura que forjou a participação de diversos estudantes, ainda em seus primeiros meses de aula, a saírem do cotidiano vivido nas salas (quando essas existiam) e irem as ruas denunciar o descaso e as irresponsabilidades em curso na UFAL. A partir daí, Centros Acadêmicos foram criados, outros, reativados e, somados aos CAs que de certa forma conseguiram se manter ativos por um período considerável de tempo, boa parte do ME da UFAL protagonizou, por diversas vezes, momentos de embates com a reitoria no sentido de cobrar desta a efetivação das condições básicas que se espera de uma universidade. Ora obtivemos vitórias, ora fomos derrotados. Na prática, o que estava sendo colocado em xeque foi o modelo de educação que estava/está sendo colocado em prática no Brasil.
É evidente que existe uma série de variáveis que exercem papeis importantes nos desdobramentos das nossas lutas e mobilizações. Por isso que julgamos necessário, antes de adentrarmos na análise sobre o papel que tem exercido o DCE, colocarmos o nosso ponto de vista sobre o contexto geral em relação à economia, a sua relação com o Estado e as políticas deste direcionadas à educação. Assim, podemos partir agora para a questão central do texto e contribuir neste balanço.


[1]  Para se entender do que se trata a tese sobre a crise estrutural do capital, defendida pelo teórico István Mészáros, recomendamos a leitura do livro “Mészáros e a incontrolabilidade do capital”, da Profª Drª Cristina Paniago – Edufal, 2007
[2]  FMI: Fundo Monetário Internacional. BIRD: Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento.
               [3]  ANDES: Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior.




Além do Mito do DCE “gestão Correnteza”


Capitulo 2
As Lutas e o DCE “Gestão Correnteza”:
Indo para além do mito da quantidade de “atos”


Ora, por que em alguns momentos fomos derrotados? Por que em outros conseguimos ser vitoriosos nestes últimos embates entre o Movimento Estudantil e a reitoria da UFAL?
Para respondermos a esta pergunta é imprescindível levarmos em conta as organizações políticas que atuam no ME, uma vez que estas acabam tendo um peso significativo nas tomadas de decisões dos CAs, DAs e DCE. Isso não significa dizer que os estudantes que não fazem parte de uma determinada organização (seja um grupo, coletivo ou partido) não tenham a capacidade de, inclusive, tomarem as decisões mais acertadas e convencerem os estudantes que são membros de organizações sobre uma determinada posição a ser tomada pelo movimento. Mas, é inegável que a ação coletiva acaba tendo bem mais possibilidades de acertar e de ter maior poder de persuasão sobre a melhor política a ser feita do que as ações individualizadas. Isto aumenta não apenas a responsabilidade de cada estudante que faz parte de uma organização política, mas, também e principalmente, desta organização para com as decisões tomadas nas entidades representativas e o movimento estudantil de uma forma geral.
Nesse sentido, este segundo capítulo analisa os acontecimentos que fizeram parte do ME da UFAL e nas respectivas respostas dadas a estes pelo movimento Correnteza durante o período em que estes estão gerindo o DCE Quilombo dos Palmares.
            Nestes poucos mais de três anos de “expansão” da UFAL, várias revoltas surgiram das mais diversas localidades e cursos. Tais revoltas foram frutos de uma série de problemas (intensificação dos já existentes e surgimento de novos) que se fizeram presentes de maneira tão aguda na vida dos estudantes, não lhes restando alternativas senão protestar e exigir da administração da Universidade as mínimas condições de seu funcionamento.
            Para expormos uma avaliação sobre a participação da Correnteza nestas revoltas estudantis, temos que ressaltar toda a luta dos setores mais combativos da UFAL contra este tipo de expansão. Vale-nos lembrar, que todos os questionamentos sobre a REAL possibilidade de termos um “boom” nos/dos problemas da UFAL foram levantados em 2007, data em que se aderiu ao decreto REUNI (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais; Instituído pelo Decreto nº 6.096, de 24 de abril de 2007).
Mesmo com estas lutas, após a realização do Conselho Universitário, no qual a empresa de serviços de segurança patrimonial bateu em estudantes e professores que se manifestavam pela construção de um plebiscito sobre o REUNI, para que toda a comunidade acadêmica pudesse opinar sobre este decreto, a reitoria da UFAL chamou outro Conselho que foi realizado no auditório do Hospital Universitário (evitando assim qualquer tentativa de manifestação em virtude do silêncio – sempre obrigatório em hospitais) e, sob a presença da Polícia Federal, aprovou, com o apoio da maioria dos diretores de centros e unidades acadêmicas, a adesão da UFAL ao decreto do REUNI.
Após esta adesão, feita no fim de 2007, o prelúdio de um colapso na concepção de educação superior empregado na UFAL, vira uma realidade.
Não nos é necessário listar todos os problemas que se intensificaram e outros tantos que surgiram com a irresponsável expansão da UFAL. E, mais ainda, também nos é dispensável fazermos uma alusão a uma das maiores bandeiras históricas do ME que reivindicamos: a expansão do ensino superior. Neste momento, apenas nos cabe deixar claro – mais uma vez – que nunca fomos contra a expansão da UFAL. Somos contra o modelo de expansão que foi adotado pela cúpula da nossa universidade que, por sua vez, vem no bojo das transformações que passam as IFES, no stricto sentido de atender as demandas oriundas do processo de adequação da esfera produtiva, as necessidades do sistema capitalista em crise estrutural, conforme mencionamos no primeiro capitulo.
            Ou seja, não existe fundamentalmente, a nosso ver, contradição entre todos os problemas que estamos passando e o projeto do REUNI. Não se trata de má gestão, ou mero acaso do destino de uma universidade locada num estado “vocacionado” a ser o pior em termos educacionais do país. Antes disto, significa dizer que fazemos parte de um todo que esta se transformando e, no nosso caso, o papel que nos oferecem, é desempenhar a função de uma universidade periférica, reprodutora do conhecimento produzido nos grandes centros – leia-se eixo Rio de Janeiro/São Paulo. Nosso trunfo, em última análise, é sermos um verdadeiro “escolão de terceiro grau” uma vez que o tripé ensino-pesquisa-extensão, há tempos sepultado para a maioria dos estudantes da UFAL, nos é negado a partir do momento em que entramos aqui. Há de se considerar neste ponto que, segundo dados da própria reitoria, 80% dos estudantes que passam por aqui, sequer fazem parte de algum projeto de pesquisa ou extensão.
            Contudo, ainda há setores que resistem e tentam retomar o caráter de universidade que estamos perdendo. Retomada esta que passa, necessariamente, por uma defesa intransigente de termos uma instituição que nos permita pesquisar e debater amplamente sobre os problemas da sociedade – em todos os níveis e instâncias; que nos conceda a histórica liberdade de cátedra[1]- conquista fundamental para um ambiente universitário; e que tenha o seu financiamento e gerenciamento exclusivamente público e gratuito.   
            Estas resistências, aliadas às condições objetivas e materiais, ainda nos permitem desenvolver, minimamente, um conhecimento crítico sobre todo este processo e, assim sendo, em vários locais e setores que faziam a defesa deste projeto de expansão - num passado recente - começaram a perceber o que realmente estava por trás de toda a propaganda deflagrada pelo Governo Federal e Reitoria sobre o “crescimento” da UFAL.
           Como afirmamos acima, revoltas e mais revoltas se propagaram pelos três Campi e seus respectivos Pólos. Chegamos ao cumulo de termos que lutar por papel higiênico!
            Da falta de professores, blocos e hospitais-escola nos Campi de Arapiraca e Delmiro Gouveia, à disputa entre turmas por salas em Maceió, o que vimos foi a concretização de uma concepção de educação voltada apenas para a quantidade, sem se ter a mínima preocupação com a qualidade e com os profissionais formados aqui.
            Em meio a tantos problemas, os estudantes começaram a se mobilizar e a perceber que só através do embate direto com a Reitoria e seus representantes, poderíamos, no mínimo, angariar algumas melhorias e expor à sociedade, as arbitrariedades em curso na UFAL.
            Foi assim, que diversos estudantes dos mais variados cursos, que sequer tinham anteriormente participado e/ou feito movimento estudantil, tomaram a iniciativa de se mobilizar frente aos problemas mais imediatos. Foi justamente neste contexto que tivemos a participação da Gestão Correnteza nestas reivindicações. Com o aparato do DCE, os membros desse grupo se fizeram presentes em boa parte destas mobilizações que surgiram neste período.
            Sempre presentes nas fotos, nas entrevistas e nas falas em público, alguns poucos membros da Correnteza – na maioria das vezes apenas um – se apresentaram enquanto “referência” e “representantes” destes novos estudantes em movimento. Não foram raros os momentos em que estes membros tentaram “direcionar” os rumos de cada mobilização e, na maioria, colocaram como estratégia última, a formação de comissões (eles dentro destas, claro!) para se alcançar “prazos” para a “resolução” de pautas reivindicativas dos estudantes.    
Além destas mobilizações originadas no dia a dia e na disposição de luta desses novos estudantes, existiram outras situações que, sob a interferência da Correnteza, acabaram se resumindo ao que poderíamos chamar de “atos em série”. Expliquemos melhor esta expressão.
            Vimos, por diversas vezes, a execução de “atos” a torto e a direito que, em linhas gerais, se encaixaram no seguinte modelo sequencial: 1) Passeata de uma ou duas horas; 2) Entrega de algum documento contendo as pautas reivindicativas à reitoria; 3) Entrada de uma comissão em algum órgão administrativo; 4) Saída deste órgão com vários prazos em mãos (dos quais, boa parte já haviam sido anteriormente acordados); e 5) Um jornal no dia seguinte chamando estas etapas anteriores de “vitória”!
            A reunião de comissões em gabinetes parece ser a razão última da Correnteza e os prazos (re) estabelecidos são o que eles têm chamado de vitórias.
            Todas as reivindicações colocadas na ordem do dia - como, por exemplo: “RU para todos” - há tempos vêm sendo pleiteadas pelo ME, sendo que prazos, em momentos anteriores (2005-2007) já haviam sidos acordados entre o movimento e a Reitoria e, durante todo este tempo, o que vimos fora esta “empurrar com a barriga” tais reivindicações. E todos os grupos e organizações políticas têm pleno conhecimento disto e, mesmo assim, a Correnteza “optou” por continuar “sentando” para “conversar” com a Reitoria. O resultado disto foi a continuação do não atendimento das pautas, apenas conversas transformadas pela Correnteza, em conquistas de jornal.     
            Como se não bastasse, o período em que estes “atos” foram organizados, foi justamente em tempos pré eleições do DCE. Tanto na primeira eleição, na qual a Correnteza se elegeu, quanto em sua “reeleição” (explicaremos as aspas da palavra reeleição no final deste capítulo), em setembro de 2011. De fato, o que vem levando a direção da Correnteza - o Partido Comunista Revolucionário/PCR - a realizar estes tipos de atos é a necessidade de se forjar a idéia de que eles estão lutando em prol dos estudantes, sob o único intuito de se perpetuarem na direção do DCE. Nesta saga para se manter na direção da entidade, aproveitam-se de qualquer situação para se encaixarem na foto – de preferência na frente e no meio – para que, no dia seguinte possam ter uma boa capa de jornal. Para sermos o mais educado possível, podemos resumir tudo isso em duas palavras: Oportunismo barato.
            Esta opção política se reflete claramente pela subjunção das ações da atual gestão do DCE frente à Reitoria. Um dos muitos exemplos típicos desta “estreita” relação foi o arquivamento feito pela gestão do DCE da proposta aprovada pelos CA’s e DA’s no CEB (Conselho de Entidades de Base) que empossou a primeira gestão da Correnteza. A saber: a ocupação de uma sala no Campus A. C. Simões para ser a Sede da Entidade (outra pauta que há tempos só temos promessas). Como bons moços que são em relação à Reitoria, até hoje esperam (em algum gabinete da vida) a concretização da promessa de uma sede no Campus Maceió feita há mais de 3 anos!
            O “fim da picada” foi a criação de um ato “do dia para a noite” no prédio da reitoria, em outubro de 2010. Servindo feijoada aos estudantes que se fizeram presentes. Eles, mais uma vez, tentaram vender a imagem de uma gestão de DCE combativa; que estava na luta por um “RU para todos”. Os problemas – além de mais uma reunião de gabinete, que por sinal, não aconteceu -- foram os seguintes detalhes que circundaram o momento em que eles fizeram este ato:
Primeiro: uma semana antes, CA’s e DA’s do Campus Maceió, ocuparam o RU e ofereceram o jantar de graça aos estudantes para denunciar os quase três anos de não cumprimento do acordo firmado em 2007, no qual a reitoria se comprometera em construir um RU para todos num prazo de um ano.
Segundo: um dia depois do “ato feijoada” a UFAL anunciou a abertura do edital de licitação do projeto de RU para todos. Coincidência, não?
Todas estas ações tomadas pela Correnteza (sempre tendo em mente que o PCR é central nas tomadas de decisões deste grupo) é resultado de uma leitura equivocada da realidade social. Baseados numa mistura de Stalinismo e Social Democracia[2], o PCR imprime na UFAL - através das ações da Correnteza - uma política de “luta de faz de contas”, ludibriando a boa vontade dos novos estudantes que se colocam para as lutas.
Infelizmente, para eles e, felizmente para o movimento estudantil como um todo, este tipo de postura política tende a desfalecer em momentos em que as lutas se apresentam de maneira mais intensa. Neste mesmo sentido, as experiências destes estudantes com estas ações políticas tendem a levá-los à percepção das incoerências produzidas e reproduzidas pela Correnteza. E os dois últimos grandes acontecimentos que envolveram o ME da UFAL só confirmam esta tendência. Vejamos:
Primeiro, vimos o desespero dos dirigentes do PCR quando os setores mais progressistas da Universidade decidiram montar uma chapa para disputar as eleições para a Reitoria: como explicar para os estudantes a não construção da campanha da Professora Valéria Correia e da chapa[3] “Outra UFAL é Possível”? A incoerência ficou tão latente que os dirigentes do partido decidiram fazer com que cada membro da Correnteza decidisse por si só qual candidato apoiar para reitor.
Os dirigentes acabaram indo para o seu único e deplorável caminho: a oposição de “faz de contas” do Professor Paulo Vanderlei. Os demais tiveram que, timidamente, votar na Professora Valéria e, outros tantos, lamentavelmente, votaram no candidato da situação: Professor Eurico Lôbo.      
Segundo, assistimos ao longo do processo eleitoral 2011/2012 para o DCE UFAL a uma verdadeira aula de antidemocracia e oportunismo dada pelo PCR. Felizmente, não fomos os únicos a assistir e, principalmente, perceber o jeito a La Correnteza de se fazer movimento estudantil. Vejamos:
Durante este processo eleitoral, tivemos a eclosão da greve dos professores da UFAL. Esta greve - que, obviamente, se tornou o centro das discussões da UFAL - acabou forçando a Correnteza a convocar uma assembleia estudantil para que os estudantes pudessem se posicionar frente à greve. Marcada a assembleia, a comissão eleitoral das eleições do DCE (com aproximadamente 75% dela, composta por membros da Correnteza) se reuniu e decidiu que, caso a greve durasse uma semana ou mais, o processo eleitoral seria suspenso.
Em assembleia, os estudantes decidem não entrar em greve. Porém, estabelecem um documento contendo uma extensa pauta reivindicativa a ser discutida com a administração da UFAL na presença do MPF (Ministério Público Federal) numa audiência pública aberta a todos os estudantes. Decidem também – a contra gosto da Correnteza – pela ida de todos os estudantes da assembleia ao gabinete da Reitoria, condicionando a saída de todos do local à execução da audiência.
Pois, bem, tínhamos agora mais outra situação no meio das eleições do DCE: a ocupação do gabinete da Reitoria, pois, como já era de se esperar, a reitora não deu nenhuma resposta concreta aos estudantes e estes decidem ficar e manter a deliberação da assembleia, de só saírem com a execução da audiência pública.
            Um dia depois do fim da greve dos professores e em plena ocupação do gabinete, tivemos mais uma reunião da comissão eleitoral para avaliar o processo de eleição. Para a nossa ‘não surpresa’, a Correnteza - mesmo com toda essa movimentação política na Universidade e, também, mesmo com a informação de que não estavam havendo aulas no Campus Sertão - decide pela manutenção das datas de votação das eleições que se tinha previsto antes da greve e antes da ocupação. Ou seja, os dias de votação para a nova diretoria do DCE – decidiram eles – iriam acontecer em uma semana. Isso sem sequer sabermos até quando iria durar a ocupação do gabinete da reitoria!
Assim sendo, as chapas inscritas teriam pouco mais de 5 dias para fazer campanha por toda a UFAL e participar dos debates (quatro no total: dois em Maceió, um em Arapiraca e um em Delmiro Gouveia) e, ao mesmo tempo, manter a ocupação, já que boa parte de seus membros são do movimento estudantil.
Resultado dessa postura: apenas um, dos quatro debates, aconteceu! Este fora realizado no ICHCA (Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes), no campus Maceió, com a participação - quase que exclusiva – de apenas membros das chapas. Por que os estudantes não apareceram? Ora, eles sequer sabiam que estava tendo eleição, debate então, nem se fala! 
Enquanto os estudantes e os demais grupos e organizações políticas garantiam a permanência e organização do espaço da Reitoria, os membros da Correnteza passavam o dia fazendo campanha para o DCE. Enquanto o Movimento estudantil passava em sala para chamar mais estudantes a se somarem à ocupação, a Correnteza passava o dia panfletando material de campanha da chapa, anunciando o inexistente fim da ocupação e reapareciam à noite, no gabinete da Reitoria, para se juntar a quem de fato estava na luta e participar das reuniões deliberativas.
            O leitor mais atento deve estar se perguntando o real interesse deles optarem por manter as eleições do DCE nestas condições. A resposta, após termos exposto várias caracterizações sobre a Correnteza é simples: medo de confrontar as idéias sobre as ações que estes fizeram enquanto estiveram à frente do DCE durante um ano e, conseqüentemente, a perda das eleições. Pois, eles sabiam que os grupos e organizações políticas sérias, não iriam hesitar na hora de priorizar a participação na ocupação da Reitoria em detrimento de uma eleição para o DCE, pois, para quem faz movimento estudantil com o mínimo de seriedade, uma luta por melhores condições na educação é bem mais importante do que uma eleição de uma entidade! Infelizmente, não é assim que pensam aqueles que hoje ocupam a maior parte dos cargos do DCE Quilombo dos Palmares.
Na semana que a UFAL voltou a ter aulas, após a greve dos professores, num processo eleitoral marcado por não haver debates nem campanha - por conta do tempo em que estivemos em greve e na ocupação; acrescentando o fato de não se estar havendo aulas no Campus de Delmiro Gouveia, o resultado foi o não atingimento do quórum (número mínimo para se validar as eleições, no caso, 30% do total de alunos regularmente matriculados). O número de votantes ficou abaixo dos números das eleições passadas, mesmo com o considerável aumento de estudantes na UFAL (ver nota do Grupo sobre as eleições em nosso Blog[4]). Não é de se surpreender que boa parte dos CA’s da UFAL Campus Maceió não reconheça como legítima a atual diretoria do DCE.
Contraditoriamente, foi a mesma Correnteza que, no primeiro semestre, fez campanha para que as eleições para reitor (a) fossem no segundo semestre, utilizando como justificativa – pasmem! – a necessidade de um tempo razoável para termos um amplo debate de ideias entre os três candidatos. Mais ainda, eles acusavam a administração central da UFAL (professora Ana Dayse e seu candidato, professor Eurico Lôbo) de antidemocráticos, ao passo que a Reitoria insistia em fazer as eleições em pouco mais de um mês.
Agora, o mesmo grupo político colocara em prática aquilo que eles mesmos combateram meses atrás. AGORA, O MESMO PCR BANCAVA AS ELEIÇÕES DO DCE EM MENOS DE UMA SEMANA!
Estes dois últimos acontecimentos, como dissemos, evidenciaram para boa parte dos novos estudantes o quanto é nocivo este tipo de concepção política. Como conseqüência imediata, a Correnteza, no fim de segundo semestre de 2011, só acumulou derrotas na maioria dos Centros Acadêmicos do Campus Maceió. Podemos citar os exemplos das vitórias de oposição do Diretório Acadêmico Freitas Neto (Comunicação social) e do Centro acadêmico de Economia, entidades que até então eram conduzidas – não apenas -- por membros da Correnteza. E, enquanto a Correnteza amargava as derrotas em quase todos os CA’s do Campus Maceió que eles atuavam, a sua posse de “reeleição” do DCE era feita pela vice-reitora da UFAL, professora Raquel Rocha. 
Neste sentido, o Grupo Além do Mito... entende que estamos num momento decisivo de aprofundamento da nossa compreensão sobre como se fazer movimento estudantil, momento este, em que precisamos de força para lutarmos em defesa da educação. O passado recente das lutas estudantis da UFAL, nos mostra que as reivindicações postas pelas contradições objetivas do atual estágio da adequação das Universidades às necessidades da esfera produtiva, só se fazem vitoriosas quando colocamos em prática uma concepção de ME para além da politicagem e do oportunismo, características estas que hoje são representadas pela Correnteza. No próximo capítulo, colocaremos nossa concepção sobre as práticas que julgamos serem as mais acertadas e os desafios que estão postos para o ME da UFAL neste próximo ano. 





[1]Liberdade de cátedra: Conquista conseguida historicamente pelas universidades, que confere o direito de se poder desenvolver dentro da academia, conhecimentos e opiniões sobre quaisquer assuntos e demandas da sociedade, sem a interferência de organismos externos, como a Igreja, as Forças Armadas, grupos políticos, empresários, etc.  

[2]Stalinismo: do stalinismo, o PCR põe em prática a antidemocracia nos espaços de discussão e deliberação do DCE, como as reuniões, CEB’s, assembléias, etc. Tal característica se reflete em um DCE que não publiciza as suas reuniões; que não realiza o seu congresso (maior espaço de discussão e deliberação da entidade e que deve acontecer de 2 em 2 anos); que toma decisões unilateralmente (às escondidas); que não realiza periodicamente os CEB’s (algo que é previsto e garantido no estatuto da entidade); e vários outros exemplos. Social democracia: desta concepção, o PCR aplica em suas práticas a luta meramente institucional (de gabinete); a busca por cargos nos aparelhos burocráticos e atrelados ao estado, como a UNE, por exemplo, etc..

[3]. Chapa que aglutinou os setores progressistas e de esquerda da UFAL, dentre professores, estudantes e técnicos, durante as eleições para reitor (a) do quadriênio 2012\2016. Nestas eleições, depois de muitos anos, tivemos na universidade uma oposição declarada à gestão da Professora Ana Dayse e ao grupo que há mais de 20 anos se mantém no poder central da UFAL. Tivemos também as candidaturas dos professores Eurico Lôbo (situação) e Paulo Vanderlei.

[4]. HTTP://grupoalemdomito.blogspot.com





Além do Mito do DCE “gestão Correnteza”


Capítulo 3
Movimento Estudantil:
um olhar real, indo além do mito
        
          
É no mesmo sentido e direção destas movimentações políticas que tomaram conta do ME Campus Maceió, que enxergamos a necessidade de aprofundarmos a superação dessas velhas práticas, pois historicamente estas se mostraram insuficientes para atender as lutas reais em defesa de uma educação efetivamente pública e de qualidade.
Neste capítulo, apontaremos os próximos passos que julgamos ser os mais acertados na construção e consolidação de uma perspectiva que nos possibilite o desenvolvimento de uma luta intransigente por uma concepção de ME efetivamente distante das velhas práticas, com métodos radicalmente democráticos, permitindo a cada estudante desenvolver, no percurso dessa ação, um pensamento crítico sobre a universidade e a sociedade como um todo.
O que nos impulsiona a combater esse tipo de movimento estudantil colocado pelo DCE “gestão Correnteza” e propor novas práticas para o ME, é a nossa clareza de que o atual estágio de precarização da universidade pede ações concretas e efetivas, para termos, de fato, possibilidades reais de conseguirmos a educação que tanto almejamos.
Para tanto, precisamos de um movimento estudantil autônomo, independente das reitorias e do Governo Federal, livre dos interesses de autoconstrução dos partidos políticos acima do próprio movimento. Enfim, precisamos acabar com todas as práticas que ainda trazem consigo estas concepções.
Isto significa, obrigatoriamente, não apenas combatermos o velho, mas principalmente desenvolvermos na base estudantil uma perspectiva que consiga colocar na ordem do dia um debate sobre novos métodos que não tolerem nos espaços estudantis atuações a La Correnteza.    
É neste momento que se faz necessário ter em mente, com a maior clareza possível, o conhecimento sobre os interesses antagônicos que estão postos na universidade. Por um lado temos os interesses de um pequeno grupo que detém quase a totalidade do poder econômico e político, sendo esse, o responsável pelo direcionamento da maior parte do conhecimento que é produzido aqui. Este pequeno grupo está na gerência das IFES e do Estado como um todo. Por outro lado, temos o clamor das massas trabalhadoras que não detém o poder político nem econômico do Estado. Tão pouco tem os seus interesses representados no conhecimento que é produzido na academia. Menos ainda suas demandas são contempladas pela ação do Estado. Isso se torna evidente quando observamos os milhões de reais investidos no melhoramento genético da cana de açúcar e em bebidas energéticas para aumentar o rendimento dos cortadores de cana-de-açúcar, ao mesmo tempo em que vemos ínfimas bolsas de 360 reais para financiar as pesquisas que investigam as relações de trabalho desumanas dos trabalhadores rurais de Alagoas. Frente a este quadro, fica notório que não temos como passar inertes diante dessa situação enquanto universitários. É aqui que os posicionamentos tirados pelo ME ganham corpo e tomam uma dimensão social que não deixam espaços para uma atuação, que tem nas reuniões de gabinetes, seu fundamento último.
É neste sentido que o movimento estudantil que defendemos tem que tomar para si a responsabilidade de se colocar ao lado dos interesses da classe trabalhadora, pois é esta que, através do seu suor, gera toda a riqueza consumida pela sociedade[1] e, conseqüentemente, financia toda a estrutura da universidade – desde a construção e manutenção de seus prédios, passando pelo pagamento do salário dos nossos professores, até o financiamento das pesquisas e do conhecimento produzidos aqui.
Dessa forma, as lutas por um restaurante universitário aberto a todos da comunidade acadêmica, a luta por residência suficiente em todos os Campi e Pólos; e a luta por bolsas de assistência estudantil voltadas para ensino, pesquisa e extensão, por exemplo, devem ter como plano de fundo os interesses dos trabalhadores, interesses estes que fazem parte não apenas do cotidiano da universidade, mas da sociedade como um todo.
É por isso a nossa crítica férrea aos atos criados do “dia para noite” e que tem como objetivo último, apenas a autopropaganda de partidos políticos que vislumbram única e exclusivamente a sua perpetuação burocrática nas entidades representativas, fato este que não aguça a criticidade dos estudantes frente às reais causas dos problemas da universidade, fazendo passar apenas a idéias de que são problemas pontuais, resultados da má administração ou de incompetência político administrativa dos governantes.
           
Proposições para além do fenômeno Correnteza no ME da UFAL
            Em meio a isto, fica evidente a importância da atuação conjunta dos CA’s e DA’s para a organização das lutas estudantis na universidade, pois as demandas específicas de cada curso, quando aglutinadas em uma pauta geral, podem fortalecer a nossa defesa do ensino público superior, tendo como base o que expomos a cima.
            Esta unificação das pautas é o que acreditamos ser o primeiro e fundamental passo para um ME verdadeiramente comprometido com as lutas que efetivamente possam gerar vitórias reais para nós estudantes. Dessa forma, precisamos criar espaços de discussão, em todos os Campi, sobre os problemas relativos à universidade, a fim de maturarmos teoricamente o debate sobre estes problemas para termos melhores condições de atuação prática em nossas reivindicações. Isso não significa que temos que ver a teoria para depois colocarmos em prática. Estamos apenas defendendo a necessidade de estarmos sempre discutido conjuntamente os problemas educacionais, ao mesmo tempo em que lutamos pela educação. 
            Além disso, entendemos que nossa participação no Fórum em Defesa da UFAL Pública, Gratuita e de Qualidade - organização criada pelos docentes que estavam à frente da última greve da universidade - é um importante instrumento para se aglutinar professores, técnicos e estudantes de toda universidade que, assim como nós, convergem com as concepções que se colocam em defesa da universidade pública e dos interesses da classe trabalhadora.
            A criação dos Campi de Arapiraca e Delmiro Gouveia e seus respectivos Pólos, colocou para o ME um novo desafio. Se até então a unificação das lutas dos cursos do Campus Maceió era uma tarefa árdua, agora se faz muito mais difícil. É evidente que as lutas travadas pelos estudantes dos novos cursos foram de fundamental importância para as vitórias parciais que estes tiveram ao longo dos últimos seis anos, como por exemplo, as lutas dos cursos de Medicina Veterinária, de Viçosa e Serviço Social, de Palmeira dos Índios. É evidente também que se houvesse uma unificação das lutas de todos os cursos da UFAL (de todos os Campi) as possibilidades de termos mais forças para maiores conquistas aumentariam consideravelmente.
            Aqui se faz necessária uma autocrítica no sentido de reconhecermos nossa parcela de responsabilidade na não concretização desta unificação desde o início. Mesmo assim, isto não nos impede de corrermos atrás do prejuízo e de nos colocarmos, neste momento, para esta tarefa, como uma das nossas principais prioridades. Afinal, como afirmamos acima, todos os problemas da UFAL, apesar das particularidades de cada curso, têm suas bases comuns nas políticas e projetos educacionais colocados de forma vertical pelo Governo Federal e pela Reitoria desta universidade.
            Não iremos nos furtar desta articulação, ou seja, pretendemos ir para além do simples apoio nas reivindicações das pautas específicas de cada curso, quer seja numa aproximação mais efetiva com o ME dos Campi e Pólos onde não atuamos, quer seja na intensificação da nossa luta nos locais onde já atuamos.
            Igualmente, enxergamos a extrema urgência em alavancarmos o debate da construção de novas perspectivas para o ME em âmbito nacional. Por isso estamos, dentro das nossas possibilidades objetivas, em contato orgânico com estudantes e organizações de outros estados (como Bahia, Paraná e São Paulo) que também vislumbram esta mesma necessidade de superação das velhas práticas ainda presentes em boa parte do movimento estudantil brasileiro.
            Estas pretensões que nos colocamos a realizar este ano somam-se às práticas que cotidianamente construímos ao longo dos sete anos de nossa existência. Isso significa reafirmarmos nossa intransigência em executarmos o trabalho de base que sempre prezamos nos cursos e nos Centros e Diretórios Acadêmicos onde atuamos, respeitando a autonomia destas entidades e as demais organizações estudantis, com seus respectivos fóruns de discussões e deliberações.
            Sabemos de nossas limitações e dos desafios que estão postos. No entanto, nos colocamos a frente de tal responsabilidade por entendermos a urgência de não nos deixarmos levar pela correnteza dos projetos neoliberais, que sucateiam a universidade pública de forma cada vez mais avassaladora. E não iremos! Vamos à luta pela construção de uma educação pública, gratuita, de qualidade, laica, socialmente referenciada e voltada para os interesses da classe trabalhadora! 

Além do Mito da Correnteza!
Além do Mito do governo Dilma!
Além do Mito que limita o infinito!



[1]  Para saber sobre quem de fato produz a riqueza material da sociedade, recomendamos o livro “introdução a filosofia de Marx”, dos professores Sério Lessa e Ivo Tonet, da editora expressão popular e livre para Download no site HTTP://sergiolessa.com. Trata-se de uma leitura fácil e didática sobre o tema.