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domingo, 8 de julho de 2012

Além do Mito do DCE “gestão Correnteza”




Maceió, fevereiro de 2012

"Se a aparência e a essência das coisas  coincidissem, a ciência seria desnecessária"
Karl Marx

O presente texto tem como finalidade a contribuição para melhor nortear e sustentar as lutas estudantis que estão colocadas na ordem do dia na Universidade Federal de Alagoas. A certeza advinda do entendimento de que cada luta não se limita as questões imediatas – número de Professores, salas de aula suficientes, residência, assistência estudantil, etc. – mas, faz parte de uma conjuntura social mais ampla, é o que nos impulsiona a continuar alavancando as lutas na UFAL tendo como base a nossa perspectiva de atuação.
Esta contribuição se faz necessária neste momento, pois, temos a frente do DCE UFAL um Grupo Estudantil (Correnteza) – comandado pelo Partido Comunista Revolucionário (PCR) – que se apresenta como oposição ao atual projeto educacional desenvolvido pela reitoria e pelo Governo Federal, fator este que tem levado uma série de estudantes engajados (em especial nos Campi de Arapiraca e Delmiro) à ilusão de acreditar que esta organização é de fato, o que diz ser. Nas próximas linhas demonstraremos que, nesta aparência crítica, se esconde uma essência teórico/prática que já se mostrou historicamente limitada e subsumida à lógica que fundamenta a sociedade capitalista.  
Esta análise é destinada a todos os estudantes da UFAL, em especial, aqueles que, de uma forma ou de outra, atuam, apoiam ou têm alguma simpatia pelas atividades organizadas pelo Movimento Estudantil (CA’s, DA’s e DCE), sejam estas atividades: políticas, acadêmicas e/ou culturais.



Boa leitura!








Além do Mito do DCE “gestão Correnteza”


Introdução:
A necessidade de avaliação de nossas ações:
 As possibilidades e os limites das nossas reivindicações em cada momento histórico


Nos últimos três anos, as diversas contradições existentes nas Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) se acentuaram profundamente com o processo de “expansão” destas, promovido pelo Estado. Mesmo com toda a propaganda sobre o aumento do número de Universidades e, principalmente, de alunos ingressantes, vários são os questionamentos que podemos levantar sobre a concepção e a qualidade de educação empregadas. Relatos e enumeração dos problemas de cunho estrutural e de pessoal são dispensáveis neste primeiro momento, uma vez que, aqui na UFAL (lócus para o qual este texto é dirigido), estudantes, professores e técnicos administrativos vêm sentindo cotidianamente o verdadeiro caráter desta reforma - maquiado de expansão - da Universidade.
Como não poderia ser diferente, uma série de reações aos problemas decorrentes deste processo eclodiram sob as mais diversas formas e nas mais diversas IFES do país. Centenas de mobilizações colocaram na ordem do dia uma enorme quantidade de problemas como: ineficiência da assistência estudantil, insuficiência do número de professores, carência de estrutura física, falta de verbas para pesquisa e extensão, etc. Vale ressaltar as reivindicações estudantis em curso nos Campi de Arapiraca e Delmiro Gouveia e nos seus respectivos pólos, além é claro, das lutas já existentes no Campus Maceió. Todas, tendo como pano de fundo a luta por condições básicas para o funcionamento de uma instituição de Ensino Superior. 
É justamente nesta conjuntura que o Grupo “Além do Mito...” enxerga a necessidade de uma reflexão sobre estas reivindicações; sobre o papel desempenhado pelos Centros e Diretórios Acadêmicos; e, principalmente, sobre o papel que vem cumprindo o Diretório Central dos Estudantes Quilombo dos Palmares sob a direção do movimento Correnteza desde 2010. Movimento este que - repetimos - é dirigido pelo PCR (“Partido” “Comunista” “Revolucionário”).
A justificativa desta necessidade é alicerçada numa premissa que temos bem clara: a cada passo que damos, temos que verificar detalhadamente  seus resultados: onde erramos; quais foram os nossos acertos; quais foram as possibilidades e os limites que incidiram naquele passo e as respectivas consequências geradas a partir dele.
 Estar sempre analisando nossas ações é de fundamental importância para termos bases mais sólidas nos rumos dados no presente; para não cometermos os mesmos erros do passado que nos levaram a acumular derrotas; quem são nossos aliados; para termos a clareza sobre quais os melhores meios de reivindicação das nossas causas mais imediatas - sem perder as ligações destas com a necessidade de transformação da totalidade social; etc.
Um fator decisivo para qualquer avaliação de uma determinada mobilização estudantil é sempre levarmos em conta o momento histórico no qual ela pôde surgir. Em nossa opinião, se queremos analisar um determinado objeto social (no nosso caso, o objeto em questão é o Movimento Estudantil) com o rigor necessário para nos aproximarmos ao máximo possível da sua realidade, temos que entender em qual momento histórico ele está inserido, qual sua origem e função social, quais são seus limites e possibilidades reais.
Desta forma, não iremos abordar o nosso objeto de maneira isolada e separada da totalidade social na qual ele está inserido, tal como fazem - e nos ensinam a fazer – a maioria dos professores desta Instituição. Se assim o fizéssemos, estaríamos fadados a realizar uma análise superficial e sem qualquer fundamentação sobre aquilo que estamos investigando, o que acarretaria, obrigatoriamente, em ações sobre esta realidade, também superficiais e infundadas.
Assim, o nosso estudo começará com uma breve leitura sobre as transformações que vem ocorrendo na área da educação – lócus de atuação do ME - ao longo desses últimos anos. Iremos adotar como ponto de partida, as mudanças ocorridas na esfera produtiva e suas ligações com a educação, no período neoliberal. Esta metodologia nos ajudará a entender de modo mais claro, os problemas que vivenciamos na UFAL, sobre o papel que a administração central da Universidade tem exercido na intensificação destes e, principalmente como o DCE tem “respondido” a todo este processo.





Além do Mito do DCE “gestão Correnteza”


      Capítulo 1
A subjugação da educação ao neoliberalismo
e a farsa da democratização do acesso ao ensino superior


Como afirmamos acima, para compreendermos as ações executadas pelo Movimento Estudantil da UFAL (podemos estender esta análise a todo o país, salvo as especificidades de cada estado) é de fundamental importância uma leitura sobre a esfera social na qual ele está inserido. Assim sendo, é imprescindível tecermos algumas considerações sobre as transformações em andamento no setor da educação, em especial no ensino superior. 
Todas as orientações aplicadas pelo Estado brasileiro às Universidades são melhores entendidas quando tomamos como referência o período pós anos 70, quando o capitalismo vai passar por profundas transformações (reflexos de sua crise estrutural[1]) e toma como saída a sua forma neoliberal.
         Dentre outras coisas, o neoliberalismo é caracterizado pela (re)divisão das zonas mundiais de influência política; pela desregulamentação/privatização de diversos setores que até então eram concebidos como deveres do Estado, como a educação e a saúde; e pela (re)configuração do setor produtivo.
No que diz respeito às reconfigurações no setor da produção de mercadorias, uma das características fundamentais ocorridas dentro das grandes indústrias é a readequação do fordismo (produção em massa) ao toytismo (produção de acordo com a demanda). Isto vai significar que a produção de mercadorias, irá manter o seu padrão de produção em larga escala, com a especificidade de adaptação destas às particularidades de cada mercado consumidor local. Da mesma forma, a reconfiguração do setor produtivo com que diversas mercadorias, em especial os eletrônicos, comecem a ser fabricadas para ter uma curta duração, como as TVs, geladeiras, e celulares, que já vem com seus respectivos tempos de funcionamento encurtados e prazos para quebrar predefinidos. (Ler Fordismo e Toyotismo na Civilização do Automóvel, de THOMAS GOUNET – boitempo, 1999)
Outro caminho encontrado pelos economistas neoliberais de plantão, para responder a queda da taxa de lucratividade dos grandes empresários em crise, é a desregulamentação/privatização dos serviços essenciais a população. A idéia era encontrar nos serviços oferecidos pelo Estado, novos meios para recuperar a taxa de lucratividade e dada a real impossibilidade de se criar novos mercados consumidores em virtude dos limites geográficos da Terra, as diretrizes eram a de repassar à iniciativa privada a responsabilidade sobre os serviços básicos à população e fazer das privatizações da educação, saúde, segurança e previdência uma espécie de “mercado novo” para o capital garantir suas taxas de crescimento e lucratividade.
 Esta nova lógica político-econômica será o fator essencial que irá orientar todos os projetos educacionais elaborados pelas diversas agências e organismos internacionais (FMI, BIRD)[2]. Estes por sua vez, irão lançar as diretrizes e os parâmetros que deverão nortear as políticas educacionais a serem desenvolvidas nos/pelos países do chamado Terceiro Mundo.
É neste contexto que podemos entender o grande “boom” das faculdades e universidades privadas, ocorrido no Brasil no inicio da década de 90 - período em que o Brasil adotou em definitivo o Neoliberalismo como modelo econômico a ser seguido. A educação privada passou a receber numerosos investimentos de multinacionais e do próprio governo para se proliferarem pelas esquinas das grandes cidades do país.
 Para que tais investimentos pudessem ser lucrativos, foi imprescindível à ação do Estado em duas vias. Uma, através das políticas direcionadas às universidades públicas, por meio de cortes orçamentários, intensificação do trabalho docente e o consequente rebaixamento da qualidade do ensino público. E em segundo lugar, o Estado também começou a patrocinar as privadas através da isenção de impostos e pelo pagamento de mensalidades para estudantes pobres – PROUNI. Para se ter uma ideia dessa política privatista, um levantamento feito pelo ANDES[3], em 2008, estima que o valor gasto pelo governo para bancar um estudante numa faculdade particular daria para abrir três vagas numa universidade pública!
Para ficar mais claro sobre o que estamos falando, vejamos um exemplo:
Imaginemos Carlos, filho de um casal de classe média alta com renda familiar de 25.000 reais. Ele está prestes a concluir o ensino médio e pretende fazer o curso de administração. Neste nosso exemplo, o Estado e a sociedade em geral compreendem a educação como um direito pertencente a todos os indivíduos, e que é o Estado o responsável pela garantia do acesso de todos a este direito. Sendo assim, não apenas o curso de administração, mas todos os outros cursos superiores são oferecidos gratuitamente pelo Estado. Mais ainda, toda a estrutura das universidades que abarcam estes cursos é suficiente para atender a demanda de todos os jovens do Brasil, garantindo a estes todas as condições para a apreensão e o desenvolvimento do conhecimento necessário ao atendimento das demandas sociais. Ora, se Carlos está prestes a ingressar no ensino superior e se o Estado oferece uma universidade pública e de qualidade a todos os jovens, a pergunta que fazemos ao caro leitor é consequente: existe alguma lógica ou razão para o nosso personagem - por mais grana que a família dele tenha - escolher cursar administração numa faculdade privada? E, mais ainda: seria viável a existência de uma faculdade particular nestas condições?
Podemos estender o exemplo acima para qualquer outra área que também deveria ser de responsabilidade exclusiva do Estado, como a saúde: haveria mesmo a necessidade de Carlos levar a sua avó doente a um hospital privado, uma vez que o Estado oferece hospitais com equipamentos de última geração, sem filas, funcionários bem remunerados e o consequente atendimento humano a toda população?
Como podemos ver, para que o setor privado possa existir e se desenvolver numa determinada área, é fundamental a intervenção do Estado, quer seja para desregulamentar as suas próprias obrigações, quer seja para financiar os gastos e os lucros da iniciativa privada.
Em Alagoas, vimos nitidamente algo muito parecido nos anos 70 e 80. Todos os filhos da “elite” econômica estudavam em escolas públicas, especificamente no Centro Educacional de Pesquisas Aplicadas (CEPA), pois eram estas que ofereciam o melhor ensino, a melhor estrutura e os melhores professores, por consequência, eram estas escolas que aprovavam quase todos os estudantes no vestibular da UFAL. Existiam apenas duas escolas particulares e, mesmo assim, quando seus alunos chegavam próximos ao período do vestibular, migravam para o CEPA visando se prepararem melhor.
É evidente que naquele momento eram poucas as vagas oferecidas pelo governo aos estudantes em idade escolar. Por um lado, isso significava que havia uma extrema necessidade de se estender aquele sistema educacional a toda a população. Por outro lado, significava também que a qualidade deveria ser preservada no momento desta expansão. Mas, em acordo com as transformações que acima afirmamos, não foi o que aconteceu nos anos seguintes.
Sob um discurso de que o Estado deveria dar acesso à educação a todos os jovens, houve, naquela época, uma enorme campanha publicitária colocando a necessidade de se expandir o ensino médio aos filhos oriundos das camadas sociais mais pauperizadas. Foi assim que, em poucos anos, o número de escolas estaduais de ensino médio cresceu consideravelmente. Obviamente, não é necessário aqui fazermos uma descrição sobre todo esse processo, pois o quadro atual destas escolas mostra-nos perfeitamente o caráter desta expansão. Longe de ser uma política direcionada a oferecer uma educação pública e de qualidade a todos, vimos, literalmente, a destruição da qualidade do ensino público. O aumento da jornada de trabalho dos professores e o rebaixamento dos seus salários, o não crescimento proporcional da estrutura das escolas em relação ao crescente número de alunos e a inexistência de políticas voltadas à assistência estudantil e ao acompanhamento dos novos estudantes, foram os fatores que fizeram parte desta “expansão”.
 Não por coincidência e paralelamente, o número de escolas privadas em Alagoas – em especial aqui em Maceió – teve um aumento exponencial. Desde então, em cada esquina encontramos um colégio privado. As consequências últimas deste processo foram: rebaixamento da qualidade do ensino das escolas públicas, passando estas a atender os filhos da classe trabalhadora e centros educacionais privados especializados em aprovar seus estudantes no vestibular, voltados ao atendimento dos filhos das classes mais abastadas.
O que verificamos atualmente no ensino superior - tomando como base as décadas dos anos 1990 e 2000 - é justamente um falso discurso sobre a expansão dos  IFES (Instituição Federal de Ensino Superior). O fundamento último que rege o aumento do número de vagas de estudantes é o atendimento das necessidades surgidas na esfera produtiva de uma economia em crise. Tanto em relação ao treinamento e adequação da mão de obra aos novos imperativos do mercado de trabalho – agora com as demandas neoliberais – e, como efeito, o rebaixamento da qualidade do ensino, quanto em relação à abertura na área da educação ao financiamento privado.
Foi esta conjuntura que forjou a participação de diversos estudantes, ainda em seus primeiros meses de aula, a saírem do cotidiano vivido nas salas (quando essas existiam) e irem as ruas denunciar o descaso e as irresponsabilidades em curso na UFAL. A partir daí, Centros Acadêmicos foram criados, outros, reativados e, somados aos CAs que de certa forma conseguiram se manter ativos por um período considerável de tempo, boa parte do ME da UFAL protagonizou, por diversas vezes, momentos de embates com a reitoria no sentido de cobrar desta a efetivação das condições básicas que se espera de uma universidade. Ora obtivemos vitórias, ora fomos derrotados. Na prática, o que estava sendo colocado em xeque foi o modelo de educação que estava/está sendo colocado em prática no Brasil.
É evidente que existe uma série de variáveis que exercem papeis importantes nos desdobramentos das nossas lutas e mobilizações. Por isso que julgamos necessário, antes de adentrarmos na análise sobre o papel que tem exercido o DCE, colocarmos o nosso ponto de vista sobre o contexto geral em relação à economia, a sua relação com o Estado e as políticas deste direcionadas à educação. Assim, podemos partir agora para a questão central do texto e contribuir neste balanço.


[1]  Para se entender do que se trata a tese sobre a crise estrutural do capital, defendida pelo teórico István Mészáros, recomendamos a leitura do livro “Mészáros e a incontrolabilidade do capital”, da Profª Drª Cristina Paniago – Edufal, 2007. 
[2]  FMI: Fundo Monetário Internacional. BIRD: Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento.
               [3]  ANDES: Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior.




Além do Mito do DCE “gestão Correnteza”


Capitulo 2
As Lutas e o DCE “Gestão Correnteza”:
Indo para além do mito da quantidade de “atos”


Ora, por que em alguns momentos fomos derrotados? Por que em outros conseguimos ser vitoriosos nestes últimos embates entre o Movimento Estudantil e a reitoria da UFAL?
Para respondermos a esta pergunta é imprescindível levarmos em conta as organizações políticas que atuam no ME, uma vez que estas acabam tendo um peso significativo nas tomadas de decisões dos CAs, DAs e DCE. Isso não significa dizer que os estudantes que não fazem parte de uma determinada organização (seja um grupo, coletivo ou partido) não tenham a capacidade de, inclusive, tomarem as decisões mais acertadas e convencerem os estudantes que são membros de organizações sobre uma determinada posição a ser tomada pelo movimento. Mas, é inegável que a ação coletiva acaba tendo bem mais possibilidades de acertar e de ter maior poder de persuasão sobre a melhor política a ser feita do que as ações individualizadas. Isto aumenta não apenas a responsabilidade de cada estudante que faz parte de uma organização política, mas, também e principalmente, desta organização para com as decisões tomadas nas entidades representativas e o movimento estudantil de uma forma geral.
Nesse sentido, este segundo capítulo analisa os acontecimentos que fizeram parte do ME da UFAL e nas respectivas respostas dadas a estes pelo movimento Correnteza durante o período em que estes estão gerindo o DCE Quilombo dos Palmares.
            Nestes poucos mais de três anos de “expansão” da UFAL, várias revoltas surgiram das mais diversas localidades e cursos. Tais revoltas foram frutos de uma série de problemas (intensificação dos já existentes e surgimento de novos) que se fizeram presentes de maneira tão aguda na vida dos estudantes, não lhes restando alternativas senão protestar e exigir da administração da Universidade as mínimas condições de seu funcionamento.
            Para expormos uma avaliação sobre a participação da Correnteza nestas revoltas estudantis, temos que ressaltar toda a luta dos setores mais combativos da UFAL contra este tipo de expansão. Vale-nos lembrar, que todos os questionamentos sobre a REAL possibilidade de termos um “boom” nos/dos problemas da UFAL foram levantados em 2007, data em que se aderiu ao decreto REUNI (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais; Instituído pelo Decreto nº 6.096, de 24 de abril de 2007).
Mesmo com estas lutas, após a realização do Conselho Universitário, no qual a empresa de serviços de segurança patrimonial bateu em estudantes e professores que se manifestavam pela construção de um plebiscito sobre o REUNI, para que toda a comunidade acadêmica pudesse opinar sobre este decreto, a reitoria da UFAL chamou outro Conselho que foi realizado no auditório do Hospital Universitário (evitando assim qualquer tentativa de manifestação em virtude do silêncio – sempre obrigatório em hospitais) e, sob a presença da Polícia Federal, aprovou, com o apoio da maioria dos diretores de centros e unidades acadêmicas, a adesão da UFAL ao decreto do REUNI.
Após esta adesão, feita no fim de 2007, o prelúdio de um colapso na concepção de educação superior empregado na UFAL, vira uma realidade.
Não nos é necessário listar todos os problemas que se intensificaram e outros tantos que surgiram com a irresponsável expansão da UFAL. E, mais ainda, também nos é dispensável fazermos uma alusão a uma das maiores bandeiras históricas do ME que reivindicamos: a expansão do ensino superior. Neste momento, apenas nos cabe deixar claro – mais uma vez – que nunca fomos contra a expansão da UFAL. Somos contra o modelo de expansão que foi adotado pela cúpula da nossa universidade que, por sua vez, vem no bojo das transformações que passam as IFES, no stricto sentido de atender as demandas oriundas do processo de adequação da esfera produtiva, as necessidades do sistema capitalista em crise estrutural, conforme mencionamos no primeiro capitulo.
            Ou seja, não existe fundamentalmente, a nosso ver, contradição entre todos os problemas que estamos passando e o projeto do REUNI. Não se trata de má gestão, ou mero acaso do destino de uma universidade locada num estado “vocacionado” a ser o pior em termos educacionais do país. Antes disto, significa dizer que fazemos parte de um todo que esta se transformando e, no nosso caso, o papel que nos oferecem, é desempenhar a função de uma universidade periférica, reprodutora do conhecimento produzido nos grandes centros – leia-se eixo Rio de Janeiro/São Paulo. Nosso trunfo, em última análise, é sermos um verdadeiro “escolão de terceiro grau” uma vez que o tripé ensino-pesquisa-extensão, há tempos sepultado para a maioria dos estudantes da UFAL, nos é negado a partir do momento em que entramos aqui. Há de se considerar neste ponto que, segundo dados da própria reitoria, 80% dos estudantes que passam por aqui, sequer fazem parte de algum projeto de pesquisa ou extensão.
            Contudo, ainda há setores que resistem e tentam retomar o caráter de universidade que estamos perdendo. Retomada esta que passa, necessariamente, por uma defesa intransigente de termos uma instituição que nos permita pesquisar e debater amplamente sobre os problemas da sociedade – em todos os níveis e instâncias; que nos conceda a histórica liberdade de cátedra[1]- conquista fundamental para um ambiente universitário; e que tenha o seu financiamento e gerenciamento exclusivamente público e gratuito.   
            Estas resistências, aliadas às condições objetivas e materiais, ainda nos permitem desenvolver, minimamente, um conhecimento crítico sobre todo este processo e, assim sendo, em vários locais e setores que faziam a defesa deste projeto de expansão - num passado recente - começaram a perceber o que realmente estava por trás de toda a propaganda deflagrada pelo Governo Federal e Reitoria sobre o “crescimento” da UFAL.
           Como afirmamos acima, revoltas e mais revoltas se propagaram pelos três Campi e seus respectivos Pólos. Chegamos ao cumulo de termos que lutar por papel higiênico!
            Da falta de professores, blocos e hospitais-escola nos Campi de Arapiraca e Delmiro Gouveia, à disputa entre turmas por salas em Maceió, o que vimos foi a concretização de uma concepção de educação voltada apenas para a quantidade, sem se ter a mínima preocupação com a qualidade e com os profissionais formados aqui.
            Em meio a tantos problemas, os estudantes começaram a se mobilizar e a perceber que só através do embate direto com a Reitoria e seus representantes, poderíamos, no mínimo, angariar algumas melhorias e expor à sociedade, as arbitrariedades em curso na UFAL.
            Foi assim, que diversos estudantes dos mais variados cursos, que sequer tinham anteriormente participado e/ou feito movimento estudantil, tomaram a iniciativa de se mobilizar frente aos problemas mais imediatos. Foi justamente neste contexto que tivemos a participação da Gestão Correnteza nestas reivindicações. Com o aparato do DCE, os membros desse grupo se fizeram presentes em boa parte destas mobilizações que surgiram neste período.
            Sempre presentes nas fotos, nas entrevistas e nas falas em público, alguns poucos membros da Correnteza – na maioria das vezes apenas um – se apresentaram enquanto “referência” e “representantes” destes novos estudantes em movimento. Não foram raros os momentos em que estes membros tentaram “direcionar” os rumos de cada mobilização e, na maioria, colocaram como estratégia última, a formação de comissões (eles dentro destas, claro!) para se alcançar “prazos” para a “resolução” de pautas reivindicativas dos estudantes.    
Além destas mobilizações originadas no dia a dia e na disposição de luta desses novos estudantes, existiram outras situações que, sob a interferência da Correnteza, acabaram se resumindo ao que poderíamos chamar de “atos em série”. Expliquemos melhor esta expressão.
            Vimos, por diversas vezes, a execução de “atos” a torto e a direito que, em linhas gerais, se encaixaram no seguinte modelo sequencial: 1) Passeata de uma ou duas horas; 2) Entrega de algum documento contendo as pautas reivindicativas à reitoria; 3) Entrada de uma comissão em algum órgão administrativo; 4) Saída deste órgão com vários prazos em mãos (dos quais, boa parte já haviam sido anteriormente acordados); e 5) Um jornal no dia seguinte chamando estas etapas anteriores de “vitória”!
            A reunião de comissões em gabinetes parece ser a razão última da Correnteza e os prazos (re) estabelecidos são o que eles têm chamado de vitórias.
            Todas as reivindicações colocadas na ordem do dia - como, por exemplo: “RU para todos” - há tempos vêm sendo pleiteadas pelo ME, sendo que prazos, em momentos anteriores (2005-2007) já haviam sidos acordados entre o movimento e a Reitoria e, durante todo este tempo, o que vimos fora esta “empurrar com a barriga” tais reivindicações. E todos os grupos e organizações políticas têm pleno conhecimento disto e, mesmo assim, a Correnteza “optou” por continuar “sentando” para “conversar” com a Reitoria. O resultado disto foi a continuação do não atendimento das pautas, apenas conversas transformadas pela Correnteza, em conquistas de jornal.     
            Como se não bastasse, o período em que estes “atos” foram organizados, foi justamente em tempos pré eleições do DCE. Tanto na primeira eleição, na qual a Correnteza se elegeu, quanto em sua “reeleição” (explicaremos as aspas da palavra reeleição no final deste capítulo), em setembro de 2011. De fato, o que vem levando a direção da Correnteza - o Partido Comunista Revolucionário/PCR - a realizar estes tipos de atos é a necessidade de se forjar a idéia de que eles estão lutando em prol dos estudantes, sob o único intuito de se perpetuarem na direção do DCE. Nesta saga para se manter na direção da entidade, aproveitam-se de qualquer situação para se encaixarem na foto – de preferência na frente e no meio – para que, no dia seguinte possam ter uma boa capa de jornal. Para sermos o mais educado possível, podemos resumir tudo isso em duas palavras: Oportunismo barato.
            Esta opção política se reflete claramente pela subjunção das ações da atual gestão do DCE frente à Reitoria. Um dos muitos exemplos típicos desta “estreita” relação foi o arquivamento feito pela gestão do DCE da proposta aprovada pelos CA’s e DA’s no CEB (Conselho de Entidades de Base) que empossou a primeira gestão da Correnteza. A saber: a ocupação de uma sala no Campus A. C. Simões para ser a Sede da Entidade (outra pauta que há tempos só temos promessas). Como bons moços que são em relação à Reitoria, até hoje esperam (em algum gabinete da vida) a concretização da promessa de uma sede no Campus Maceió feita há mais de 3 anos!
            O “fim da picada” foi a criação de um ato “do dia para a noite” no prédio da reitoria, em outubro de 2010. Servindo feijoada aos estudantes que se fizeram presentes. Eles, mais uma vez, tentaram vender a imagem de uma gestão de DCE combativa; que estava na luta por um “RU para todos”. Os problemas – além de mais uma reunião de gabinete, que por sinal, não aconteceu -- foram os seguintes detalhes que circundaram o momento em que eles fizeram este ato:
Primeiro: uma semana antes, CA’s e DA’s do Campus Maceió, ocuparam o RU e ofereceram o jantar de graça aos estudantes para denunciar os quase três anos de não cumprimento do acordo firmado em 2007, no qual a reitoria se comprometera em construir um RU para todos num prazo de um ano.
Segundo: um dia depois do “ato feijoada” a UFAL anunciou a abertura do edital de licitação do projeto de RU para todos. Coincidência, não?
Todas estas ações tomadas pela Correnteza (sempre tendo em mente que o PCR é central nas tomadas de decisões deste grupo) é resultado de uma leitura equivocada da realidade social. Baseados numa mistura de Stalinismo e Social Democracia[2], o PCR imprime na UFAL - através das ações da Correnteza - uma política de “luta de faz de contas”, ludibriando a boa vontade dos novos estudantes que se colocam para as lutas.
Infelizmente, para eles e, felizmente para o movimento estudantil como um todo, este tipo de postura política tende a desfalecer em momentos em que as lutas se apresentam de maneira mais intensa. Neste mesmo sentido, as experiências destes estudantes com estas ações políticas tendem a levá-los à percepção das incoerências produzidas e reproduzidas pela Correnteza. E os dois últimos grandes acontecimentos que envolveram o ME da UFAL só confirmam esta tendência. Vejamos:
Primeiro, vimos o desespero dos dirigentes do PCR quando os setores mais progressistas da Universidade decidiram montar uma chapa para disputar as eleições para a Reitoria: como explicar para os estudantes a não construção da campanha da Professora Valéria Correia e da chapa[3] “Outra UFAL é Possível”? A incoerência ficou tão latente que os dirigentes do partido decidiram fazer com que cada membro da Correnteza decidisse por si só qual candidato apoiar para reitor.
Os dirigentes acabaram indo para o seu único e deplorável caminho: a oposição de “faz de contas” do Professor Paulo Vanderlei. Os demais tiveram que, timidamente, votar na Professora Valéria e, outros tantos, lamentavelmente, votaram no candidato da situação: Professor Eurico Lôbo.      
Segundo, assistimos ao longo do processo eleitoral 2011/2012 para o DCE UFAL a uma verdadeira aula de antidemocracia e oportunismo dada pelo PCR. Felizmente, não fomos os únicos a assistir e, principalmente, perceber o jeito a La Correnteza de se fazer movimento estudantil. Vejamos:
Durante este processo eleitoral, tivemos a eclosão da greve dos professores da UFAL. Esta greve - que, obviamente, se tornou o centro das discussões da UFAL - acabou forçando a Correnteza a convocar uma assembleia estudantil para que os estudantes pudessem se posicionar frente à greve. Marcada a assembleia, a comissão eleitoral das eleições do DCE (com aproximadamente 75% dela, composta por membros da Correnteza) se reuniu e decidiu que, caso a greve durasse uma semana ou mais, o processo eleitoral seria suspenso.
Em assembleia, os estudantes decidem não entrar em greve. Porém, estabelecem um documento contendo uma extensa pauta reivindicativa a ser discutida com a administração da UFAL na presença do MPF (Ministério Público Federal) numa audiência pública aberta a todos os estudantes. Decidem também – a contra gosto da Correnteza – pela ida de todos os estudantes da assembleia ao gabinete da Reitoria, condicionando a saída de todos do local à execução da audiência.
Pois, bem, tínhamos agora mais outra situação no meio das eleições do DCE: a ocupação do gabinete da Reitoria, pois, como já era de se esperar, a reitora não deu nenhuma resposta concreta aos estudantes e estes decidem ficar e manter a deliberação da assembleia, de só saírem com a execução da audiência pública.
            Um dia depois do fim da greve dos professores e em plena ocupação do gabinete, tivemos mais uma reunião da comissão eleitoral para avaliar o processo de eleição. Para a nossa ‘não surpresa’, a Correnteza - mesmo com toda essa movimentação política na Universidade e, também, mesmo com a informação de que não estavam havendo aulas no Campus Sertão - decide pela manutenção das datas de votação das eleições que se tinha previsto antes da greve e antes da ocupação. Ou seja, os dias de votação para a nova diretoria do DCE – decidiram eles – iriam acontecer em uma semana. Isso sem sequer sabermos até quando iria durar a ocupação do gabinete da reitoria!
Assim sendo, as chapas inscritas teriam pouco mais de 5 dias para fazer campanha por toda a UFAL e participar dos debates (quatro no total: dois em Maceió, um em Arapiraca e um em Delmiro Gouveia) e, ao mesmo tempo, manter a ocupação, já que boa parte de seus membros são do movimento estudantil.
Resultado dessa postura: apenas um, dos quatro debates, aconteceu! Este fora realizado no ICHCA (Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes), no campus Maceió, com a participação - quase que exclusiva – de apenas membros das chapas. Por que os estudantes não apareceram? Ora, eles sequer sabiam que estava tendo eleição, debate então, nem se fala! 
Enquanto os estudantes e os demais grupos e organizações políticas garantiam a permanência e organização do espaço da Reitoria, os membros da Correnteza passavam o dia fazendo campanha para o DCE. Enquanto o Movimento estudantil passava em sala para chamar mais estudantes a se somarem à ocupação, a Correnteza passava o dia panfletando material de campanha da chapa, anunciando o inexistente fim da ocupação e reapareciam à noite, no gabinete da Reitoria, para se juntar a quem de fato estava na luta e participar das reuniões deliberativas.
            O leitor mais atento deve estar se perguntando o real interesse deles optarem por manter as eleições do DCE nestas condições. A resposta, após termos exposto várias caracterizações sobre a Correnteza é simples: medo de confrontar as idéias sobre as ações que estes fizeram enquanto estiveram à frente do DCE durante um ano e, conseqüentemente, a perda das eleições. Pois, eles sabiam que os grupos e organizações políticas sérias, não iriam hesitar na hora de priorizar a participação na ocupação da Reitoria em detrimento de uma eleição para o DCE, pois, para quem faz movimento estudantil com o mínimo de seriedade, uma luta por melhores condições na educação é bem mais importante do que uma eleição de uma entidade! Infelizmente, não é assim que pensam aqueles que hoje ocupam a maior parte dos cargos do DCE Quilombo dos Palmares.
Na semana que a UFAL voltou a ter aulas, após a greve dos professores, num processo eleitoral marcado por não haver debates nem campanha - por conta do tempo em que estivemos em greve e na ocupação; acrescentando o fato de não se estar havendo aulas no Campus de Delmiro Gouveia, o resultado foi o não atingimento do quórum (número mínimo para se validar as eleições, no caso, 30% do total de alunos regularmente matriculados). O número de votantes ficou abaixo dos números das eleições passadas, mesmo com o considerável aumento de estudantes na UFAL (ver nota do Grupo sobre as eleições em nosso Blog[4]). Não é de se surpreender que boa parte dos CA’s da UFAL Campus Maceió não reconheça como legítima a atual diretoria do DCE.
Contraditoriamente, foi a mesma Correnteza que, no primeiro semestre, fez campanha para que as eleições para reitor (a) fossem no segundo semestre, utilizando como justificativa – pasmem! – a necessidade de um tempo razoável para termos um amplo debate de ideias entre os três candidatos. Mais ainda, eles acusavam a administração central da UFAL (professora Ana Dayse e seu candidato, professor Eurico Lôbo) de antidemocráticos, ao passo que a Reitoria insistia em fazer as eleições em pouco mais de um mês.
Agora, o mesmo grupo político colocara em prática aquilo que eles mesmos combateram meses atrás. AGORA, O MESMO PCR BANCAVA AS ELEIÇÕES DO DCE EM MENOS DE UMA SEMANA!
Estes dois últimos acontecimentos, como dissemos, evidenciaram para boa parte dos novos estudantes o quanto é nocivo este tipo de concepção política. Como conseqüência imediata, a Correnteza, no fim de segundo semestre de 2011, só acumulou derrotas na maioria dos Centros Acadêmicos do Campus Maceió. Podemos citar os exemplos das vitórias de oposição do Diretório Acadêmico Freitas Neto (Comunicação social) e do Centro acadêmico de Economia, entidades que até então eram conduzidas – não apenas -- por membros da Correnteza. E, enquanto a Correnteza amargava as derrotas em quase todos os CA’s do Campus Maceió que eles atuavam, a sua posse de “reeleição” do DCE era feita pela vice-reitora da UFAL, professora Raquel Rocha. 
Neste sentido, o Grupo Além do Mito... entende que estamos num momento decisivo de aprofundamento da nossa compreensão sobre como se fazer movimento estudantil, momento este, em que precisamos de força para lutarmos em defesa da educação. O passado recente das lutas estudantis da UFAL, nos mostra que as reivindicações postas pelas contradições objetivas do atual estágio da adequação das Universidades às necessidades da esfera produtiva, só se fazem vitoriosas quando colocamos em prática uma concepção de ME para além da politicagem e do oportunismo, características estas que hoje são representadas pela Correnteza. No próximo capítulo, colocaremos nossa concepção sobre as práticas que julgamos serem as mais acertadas e os desafios que estão postos para o ME da UFAL neste próximo ano. 





[1]. Liberdade de cátedra: Conquista conseguida historicamente pelas universidades, que confere o direito de se poder desenvolver dentro da academia, conhecimentos e opiniões sobre quaisquer assuntos e demandas da sociedade, sem a interferência de organismos externos, como a Igreja, as Forças Armadas, grupos políticos, empresários, etc.  

[2]. Stalinismo: do stalinismo, o PCR põe em prática a antidemocracia nos espaços de discussão e deliberação do DCE, como as reuniões, CEB’s, assembléias, etc. Tal característica se reflete em um DCE que não publiciza as suas reuniões; que não realiza o seu congresso (maior espaço de discussão e deliberação da entidade e que deve acontecer de 2 em 2 anos); que toma decisões unilateralmente (às escondidas); que não realiza periodicamente os CEB’s (algo que é previsto e garantido no estatuto da entidade); e vários outros exemplos. Social democracia: desta concepção, o PCR aplica em suas práticas a luta meramente institucional (de gabinete); a busca por cargos nos aparelhos burocráticos e atrelados ao estado, como a UNE, por exemplo, etc..

[3]. Chapa que aglutinou os setores progressistas e de esquerda da UFAL, dentre professores, estudantes e técnicos, durante as eleições para reitor (a) do quadriênio 2012\2016. Nestas eleições, depois de muitos anos, tivemos na universidade uma oposição declarada à gestão da Professora Ana Dayse e ao grupo que há mais de 20 anos se mantém no poder central da UFAL. Tivemos também as candidaturas dos professores Eurico Lôbo (situação) e Paulo Vanderlei.

[4]. HTTP://grupoalemdomito.blogspot.com





Além do Mito do DCE “gestão Correnteza”


Capítulo 3
Movimento Estudantil:
um olhar real, indo além do mito
        
          
É no mesmo sentido e direção destas movimentações políticas que tomaram conta do ME Campus Maceió, que enxergamos a necessidade de aprofundarmos a superação dessas velhas práticas, pois historicamente estas se mostraram insuficientes para atender as lutas reais em defesa de uma educação efetivamente pública e de qualidade.
Neste capítulo, apontaremos os próximos passos que julgamos ser os mais acertados na construção e consolidação de uma perspectiva que nos possibilite o desenvolvimento de uma luta intransigente por uma concepção de ME efetivamente distante das velhas práticas, com métodos radicalmente democráticos, permitindo a cada estudante desenvolver, no percurso dessa ação, um pensamento crítico sobre a universidade e a sociedade como um todo.
O que nos impulsiona a combater esse tipo de movimento estudantil colocado pelo DCE “gestão Correnteza” e propor novas práticas para o ME, é a nossa clareza de que o atual estágio de precarização da universidade pede ações concretas e efetivas, para termos, de fato, possibilidades reais de conseguirmos a educação que tanto almejamos.
Para tanto, precisamos de um movimento estudantil autônomo, independente das reitorias e do Governo Federal, livre dos interesses de autoconstrução dos partidos políticos acima do próprio movimento. Enfim, precisamos acabar com todas as práticas que ainda trazem consigo estas concepções.
Isto significa, obrigatoriamente, não apenas combatermos o velho, mas principalmente desenvolvermos na base estudantil uma perspectiva que consiga colocar na ordem do dia um debate sobre novos métodos que não tolerem nos espaços estudantis atuações a La Correnteza.    
É neste momento que se faz necessário ter em mente, com a maior clareza possível, o conhecimento sobre os interesses antagônicos que estão postos na universidade. Por um lado temos os interesses de um pequeno grupo que detém quase a totalidade do poder econômico e político, sendo esse, o responsável pelo direcionamento da maior parte do conhecimento que é produzido aqui. Este pequeno grupo está na gerência das IFES e do Estado como um todo. Por outro lado, temos o clamor das massas trabalhadoras que não detém o poder político nem econômico do Estado. Tão pouco tem os seus interesses representados no conhecimento que é produzido na academia. Menos ainda suas demandas são contempladas pela ação do Estado. Isso se torna evidente quando observamos os milhões de reais investidos no melhoramento genético da cana de açúcar e em bebidas energéticas para aumentar o rendimento dos cortadores de cana-de-açúcar, ao mesmo tempo em que vemos ínfimas bolsas de 360 reais para financiar as pesquisas que investigam as relações de trabalho desumanas dos trabalhadores rurais de Alagoas. Frente a este quadro, fica notório que não temos como passar inertes diante dessa situação enquanto universitários. É aqui que os posicionamentos tirados pelo ME ganham corpo e tomam uma dimensão social que não deixam espaços para uma atuação, que tem nas reuniões de gabinetes, seu fundamento último.
É neste sentido que o movimento estudantil que defendemos tem que tomar para si a responsabilidade de se colocar ao lado dos interesses da classe trabalhadora, pois é esta que, através do seu suor, gera toda a riqueza consumida pela sociedade[1] e, conseqüentemente, financia toda a estrutura da universidade – desde a construção e manutenção de seus prédios, passando pelo pagamento do salário dos nossos professores, até o financiamento das pesquisas e do conhecimento produzidos aqui.
Dessa forma, as lutas por um restaurante universitário aberto a todos da comunidade acadêmica, a luta por residência suficiente em todos os Campi e Pólos; e a luta por bolsas de assistência estudantil voltadas para ensino, pesquisa e extensão, por exemplo, devem ter como plano de fundo os interesses dos trabalhadores, interesses estes que fazem parte não apenas do cotidiano da universidade, mas da sociedade como um todo.
É por isso a nossa crítica férrea aos atos criados do “dia para noite” e que tem como objetivo último, apenas a autopropaganda de partidos políticos que vislumbram única e exclusivamente a sua perpetuação burocrática nas entidades representativas, fato este que não aguça a criticidade dos estudantes frente às reais causas dos problemas da universidade, fazendo passar apenas a idéias de que são problemas pontuais, resultados da má administração ou de incompetência político administrativa dos governantes.
           
Proposições para além do fenômeno Correnteza no ME da UFAL
            Em meio a isto, fica evidente a importância da atuação conjunta dos CA’s e DA’s para a organização das lutas estudantis na universidade, pois as demandas específicas de cada curso, quando aglutinadas em uma pauta geral, podem fortalecer a nossa defesa do ensino público superior, tendo como base o que expomos a cima.
            Esta unificação das pautas é o que acreditamos ser o primeiro e fundamental passo para um ME verdadeiramente comprometido com as lutas que efetivamente possam gerar vitórias reais para nós estudantes. Dessa forma, precisamos criar espaços de discussão, em todos os Campi, sobre os problemas relativos à universidade, a fim de maturarmos teoricamente o debate sobre estes problemas para termos melhores condições de atuação prática em nossas reivindicações. Isso não significa que temos que ver a teoria para depois colocarmos em prática. Estamos apenas defendendo a necessidade de estarmos sempre discutido conjuntamente os problemas educacionais, ao mesmo tempo em que lutamos pela educação. 
            Além disso, entendemos que nossa participação no Fórum em Defesa da UFAL Pública, Gratuita e de Qualidade - organização criada pelos docentes que estavam à frente da última greve da universidade - é um importante instrumento para se aglutinar professores, técnicos e estudantes de toda universidade que, assim como nós, convergem com as concepções que se colocam em defesa da universidade pública e dos interesses da classe trabalhadora.
            A criação dos Campi de Arapiraca e Delmiro Gouveia e seus respectivos Pólos, colocou para o ME um novo desafio. Se até então a unificação das lutas dos cursos do Campus Maceió era uma tarefa árdua, agora se faz muito mais difícil. É evidente que as lutas travadas pelos estudantes dos novos cursos foram de fundamental importância para as vitórias parciais que estes tiveram ao longo dos últimos seis anos, como por exemplo, as lutas dos cursos de Medicina Veterinária, de Viçosa e Serviço Social, de Palmeira dos Índios. É evidente também que se houvesse uma unificação das lutas de todos os cursos da UFAL (de todos os Campi) as possibilidades de termos mais forças para maiores conquistas aumentariam consideravelmente.
            Aqui se faz necessária uma autocrítica no sentido de reconhecermos nossa parcela de responsabilidade na não concretização desta unificação desde o início. Mesmo assim, isto não nos impede de corrermos atrás do prejuízo e de nos colocarmos, neste momento, para esta tarefa, como uma das nossas principais prioridades. Afinal, como afirmamos acima, todos os problemas da UFAL, apesar das particularidades de cada curso, têm suas bases comuns nas políticas e projetos educacionais colocados de forma vertical pelo Governo Federal e pela Reitoria desta universidade.
            Não iremos nos furtar desta articulação, ou seja, pretendemos ir para além do simples apoio nas reivindicações das pautas específicas de cada curso, quer seja numa aproximação mais efetiva com o ME dos Campi e Pólos onde não atuamos, quer seja na intensificação da nossa luta nos locais onde já atuamos.
            Igualmente, enxergamos a extrema urgência em alavancarmos o debate da construção de novas perspectivas para o ME em âmbito nacional. Por isso estamos, dentro das nossas possibilidades objetivas, em contato orgânico com estudantes e organizações de outros estados (como Bahia, Paraná e São Paulo) que também vislumbram esta mesma necessidade de superação das velhas práticas ainda presentes em boa parte do movimento estudantil brasileiro.
            Estas pretensões que nos colocamos a realizar este ano somam-se às práticas que cotidianamente construímos ao longo dos sete anos de nossa existência. Isso significa reafirmarmos nossa intransigência em executarmos o trabalho de base que sempre prezamos nos cursos e nos Centros e Diretórios Acadêmicos onde atuamos, respeitando a autonomia destas entidades e as demais organizações estudantis, com seus respectivos fóruns de discussões e deliberações.
            Sabemos de nossas limitações e dos desafios que estão postos. No entanto, nos colocamos a frente de tal responsabilidade por entendermos a urgência de não nos deixarmos levar pela correnteza dos projetos neoliberais, que sucateiam a universidade pública de forma cada vez mais avassaladora. E não iremos! Vamos à luta pela construção de uma educação pública, gratuita, de qualidade, laica, socialmente referenciada e voltada para os interesses da classe trabalhadora! 

Além do Mito da Correnteza!
Além do Mito do governo Dilma!
Além do Mito que limita o infinito!



[1]  Para saber sobre quem de fato produz a riqueza material da sociedade, recomendamos o livro “introdução a filosofia de Marx”, dos professores Sério Lessa e Ivo Tonet, da editora expressão popular e livre para Download no site HTTP://sergiolessa.com. Trata-se de uma leitura fácil e didática sobre o tema.


terça-feira, 22 de maio de 2012

Nota de esclarecimento aos estudantes da UFAL



 Na última terça feira (15/05) houve uma assembleia dos docentes para a discussão e votação a respeito da entrada ou não em greve. Após uma discussão pífia, votou-se pela entrada em greve e o auditório da reitoria da Ufal começou a esvaziar. Ao final de tudo, a Correnteza – enquanto DCE – informou que puxava uma assembleia geral dos estudantes para o dia seguinte, com a finalidade de tirar de lá o posicionamento dos estudantes em relação a esta luta.
            Pela quase inexistente mobilização política no seio dos estudantes, atrelada a uma assembleia relâmpago, fica fácil imaginar que esta assembleia não existiu, por não ter a quantidade mínima de estudantes. Sem quórum, o que houve foi uma “reunião ampliada” – onde, na verdade, encontrava-se quase restrita a três forças políticas existentes dentro da Ufal, fora alguns poucos estudantes. Estas forças eram o "Além do Mito...", o PSTU/ANEL e a Correnteza (PCR). Nesta “reunião ampliada”, foi encaminhada a proposta de se tirar, naquele momento, nomes para compor o “comando de mobilização estudantil” para intervir e colaborar nas atividades grevistas – bem como foi encaminhada a de lançar uma nota expondo a posição daqueles estudantes ali reunidos, para ser lida no dia seguinte, 17/05, na assembleia docente que criaria o Comando de Greve. No entanto, quando fomos discutir o caráter desta nota, houve divergências.
            Nós dizíamos que o movimento grevista dos professores precisava ser apoiado, sem dúvidas – mas não sem críticas. Para apoia-los, dizíamos, temos que criticá-los nos pontos em que falham – para que melhorem. Precisávamos criticar a forma como o movimento foi construído; a ausência de professores combativos nos espaços de discussão; a falta de um debate cotidiano, em sala de aula, a respeito da situação da Universidade e o consequente agravamento da despolitização por parte dos professores e dos estudantes; etc. No entanto, o PSTU e Correnteza disseram que as críticas não cabiam neste momento, pois iria desmobilizar o movimento dos professores. Elas devem ser feitas – disseram eles – com o movimento em andamento, no meio do processo; agora, só o que nos cabe, é “apoia-los de peito aberto”, não devemos criticá-los. Esta divergência foi para votação e – por obviedade – perdemos. A “reunião ampliada” encaminhou a proposta de lançar uma nota com caráter de um apoio acrítico. É claro que não usaram este termo, e sim um termo comovente como: “apoio de peito aberto”.
            Nossa concepção de movimento não nos permite coadunar com esta posição – quer tenha sido tirada em uma “reunião ampliada” (da vanguarda do Movimento Estudantil). Entendemos que fazer as devidas críticas ao movimento dos professores é parte fundamental – e portanto imprescindível – para que possamos apoia-los. Nosso apoio precisa ser sincero e construtivo para o movimento, e ao presenciar a falta de mobilização dos professores e a falta de um debate suficiente e coerente que explique e exponha a greve para a Universidade (dentre outros erros), nossa concepção não nos permite ficar calados! Agilizamos rapidamente uma outra proposta de nota, pois achamos que esta contribuição para o movimento grevista vale mais do que uma votação entre a “vanguarda” do movimento estudantil.
            No dia seguinte, antes da assembleia dos professores do dia 17, essas três forças sentaram numa reunião rápida para fazer os ajustes finais da nota a ser lida. Lemos, então, nossa proposta de nota – que foi rapidamente negada. Explicamos o motivo pelo qual continuamos com a mesma posição, e novamente a necessidade de se ter um apoio crítico. Mas, enquanto tentávamos convencê-los através de argumentos reais e concretos de que o movimento, os professores e os alunos, precisavam receber aquela crítica – na intenção não de enfraquecer, mas de fortalecer o movimento – o que ouvimos foram tentativas de nos convencer de que o “apoio acrítico” era a posição mais correta pois foi tirada em “reunião ampliada” (repetimos: praticamente restrita às três forças) e esta é “soberana” perante os estudantes e suas posições; assim como as críticas poderiam enfraquecer a luta dos professores e alunos.
            Ao dar-nos conta de que a “burocracia estudantil” estava cega diante das reais necessidades do movimento dos professores e dos estudantes, optamos por nos retirar daquela reunião, pois estava claro que duas notas precisavam ser lidas. E o presente texto se fez na pretensão de explicar o motivo da necessidade desta segunda nota feita por nós - titulada "Vejo um museu de grandes novidades..." - em desconformidade com a “reunião ampliada”, mas em conformidade (acreditamos nós) com o movimento. Sendo assim, assumimos qualquer responsabilidade dessa decisão tomada pela coerência do movimento.
  Assinam esta nota: Grupo Além do Mito, Fernando (Filosofia), Jadson (Psicologia) e Gustavo (Comunicação Social).

Maceió, maio de 2012.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Nota sobre a greve dos docentes


“EU VEJO UM MUSEU DE GRANDES NOVIDADES...”

            Em agosto-setembro de 2011, o contexto de grave precarização do Ensino Superior impeliu aos professores da UFAL, a exemplo dos docentes de outras Universidades Federais, a deflagrarem uma greve por tempo indeterminado. Apesar de se ter um comando de greve composto por professores politicamente progressistas e bem intencionados, esta deflagração se deu, para a grande maioria dos professores, por insatisfação pessoal diante dos salários defasados e da cabal ausência de condições adequadas para o exercício da profissão que por consciência das necessidades e limites que se punha diante do movimento docente.
            Naquele momento, não obstante as deliberações de varias assembléias pelo país terem sido contrárias ao reajuste salarial de 4%, o ANDES aceitou a proposta do governo, com aval, dentre outras seções locais, da ADUFAL, o que implicava no esvaziamento da pauta da mobilização, pois os professores estavam apenas atentos à questão do seu salário; mas o problema é mais profundo, quando percebemos que estas condições salariais e de ensino, sua precarização, o aumento inconseqüente do número de alunos, desembocando no progressivo sucateamento da Universidade Pública é conseqüência de nossas ações no passado, como por exemplo a aceitação do REUNI em 2007.
                Após quase uma semana da deflagração da assembléia passada, na qual vários professores permaneceram em atividade normal - não sendo possível perceber, de fato, o clima de greve na UFAL -, houve nova assembléia onde votou-se pelo fim da greve. Ao fim, em linhas gerais, aquela mobilização serviu para mostrar que a categoria docente ainda é pouco capaz de provocar um movimento que retire a universidade dos trilhos da inércia cotidiana e a ponha no caminho da luta. A situação de agora nos relembra muito este passado recente.
                Hoje, depois de sete meses do ocorrido, o movimento docente sente novamente a necessidade de utilizar desta ferramenta de reivindicação – greve – para lutar pela garantia de suas exigências.  Os docentes da UFAL aprovaram, na última assembleia, a greve por tempo indeterminado que tem início neste dia 17 de maio de 2012. Nós estudantes, nos colocamos lado a lado nesta luta, apoiando e nos disponibilizando para construir as mobilizações, tal como fizemos nos processos anteriores, por entender que as reivindicações são legítimas e necessárias e que fazem parte da luta em defesa de uma educação pública, gratuita e de qualidade, onde é dever também do estudante tomar um posicionamento. Porém este apoio não pode ser feito de forma acrítica.
                Contudo existem algumas particularidades que esse momento de início de greve nos coloca na obrigação de apontar, por compreender a importância das pautas e a necessidade de que elas sejam atendidas. Desde que saiu o encaminhamento do ANDES de possível greve geral, não vimos acontecer em nossa universidade (tal como greve passada) atividade alguma por parte dos professores, além das assembléias tardias convocadas pela ADUFAL e das paralisações isoladas cumprindo com o calendário nacional, que viabilizasse uma ampla discussão aprofundada acerca da greve. Passamos por um momento de extrema apatia onde, salvo algumas poucas exceções, nem se chegou a debater o assunto em sala de aula. Este fato, incrementado pela forma como esta fora conduzida, se reflete na última assembléia dos docentes, onde após a votação da deflagração da greve, antecedida apenas por seis falas, houve um significativo esvaziamento do auditório, restando poucos professores para dar andamento às atividades. Deste modo, concluímos que não obtivemos um processo de avanço na politização da comunidade acadêmica, o que nos faz visualizar uma greve na qual a maioria dos professores irá para suas casas e os estudantes, por não enxergarem outra opção, também assumirão as férias forçadas, enquanto que a direção do sindicato busca negociar com o governo federal, até que seja feito um acordo e se reestabeleça a dinâmica normal da universidade.
                No fim da assembléia, o restante dos estudantes lá presentes foram convocados pela direção do DCE para uma assembléia estudantil no dia seguinte pela manhã, na intenção de tirar o posicionamento dos discentes sobre a greve e de que maneira se inserir nesse processo. A assembléia foi convocada com menos de 24 horas para mobilizar todo o campus. Implicando em sérias conseqüências para o acontecimento desta. O resultado foi uma reunião ampliada do DCE, não atingindo quórum para caracterizar uma assembléia. Estas duras críticas são para nós extremamente fundamentais para que nosso apoio seja sincero e construtivo, logo, elas não significam uma tentativa de enfraquecer, mas de fortalecer o movimento grevista, apontando os erros para que possamos avançar na luta.  
                Por isso, propomos uma mobilização comprometida, que a greve não seja sinônimo de férias e que não se reduza a uma pauta salarial. Mas, também, que reflita na prática a falta de condições adequadas de trabalho no cotidiano da universidade. Que a mobilização em conjunto com todos os outros setores da universidade – já que, todos são atingidos pela precarização – culminem no atendimento das pautas e na conscientização de todos quanto aos processos de sucateamento que estão se dando nas universidades públicas brasileiras. É necessário colocar, nesta greve, como discussão constante e como pauta, problemas referentes a este sucateamento do Ensino Superior Público, pois possibilita a unificação das categorias, fortalecendo ainda mais a luta.


Assina esse texto: Grupo Além do Mito, Gustavo (Comunicação Social), Fernando (Filosofia) e Jadson (Psicologia).

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

CARTA DO “ALÉM DO MITO...” AOS SEUS MILITANTES E AOS DEMAIS CAMARADAS

Nossa luta é pela educação

Mais humana possível:

aquela que torne crível

dentro de cada indivíduo

o poder que não existe em sua mão.

(Rafael João)


Este é um documento direcionado àqueles que fazem parte, já fizeram, pensam em fazer, ou mesmo, simpatizam com o grupo “Além do Mito...”, bem como às pessoas que atuam no movimento em um sentido que julgamos próximo ao nosso. O objetivo aqui é apenas fazer alguns apontamentos das estratégias, táticas e organização do grupo, além de desafios postos ao AdM e seus militantes. Não se trata, pois, de um texto que vise somente instigar as pessoas em sua militância no grupo, mas de traçar objetivamente um perfil que desvende algumas mediações necessárias à nossa organização e aos objetivos da luta.

Desde 2005 até hoje, o grupo estudantil “Além do Mito...” passou por várias transformações. Não só em seus quadros, fazendo constantes renovações quantitativas e qualitativas mesmo sempre tendo que lidar com a sazonalidade típica do movimento estudantil, mas mudou também em sua conotação organizativa. Tais transformações muitas vezes não vieram de nossos planos, de nossas vontades. Foram impostas pelos desafios que nos defrontamos, tendo em vista os nossos objetivos traçados. Isto quer dizer apenas que a luta cria contingenciamentos aos quais a organização e as práticas nela empregadas devem responder. Não escolhemos plenamente por qual caminho seguir, muito menos estes vão de acordo com nossas conveniências. Respondemos à luta real, e seus imperativos, com base nos princípios e táticas relativas a ela. Daí que devemos partir para pensar o que é e o que deve ser o “Além do Mito...”.

O AdM surgiu inicialmente impulsionado para se disputar a eleição do DCE, mas ao longo do processo se transubstanciou em algo mais sólido, para além de eleições de entidades ,de modo a colocar as suas pautas e concepção no cotidiano do movimento. O essencial disto é que se manteve porque vários militantes se engajaram em suprir uma necessidade do movimento estudantil que se tornou viva. O AdM tornou possível efetivar uma organização estudantil de porte dentro da UFAL, que fosse a antítese da burocratização, do peleguismo, e que pautasse a universidade pública dentro de uma perspectiva radical classista. Isto não foi pouco, muito menos tudo, apenas conseqüência da militância organizada e de uma conjuntura que propiciou as condições para tal fato.

Este breve histórico (e sua análise) não é somente para reavivarmos nossa memória. A definição do AdM hoje carrega em si este histórico e, não menos importante, junto com as expectativas cunhadas – passadas e presentes – provenientes dele. Enfim, mesmo sabendo que nosso passado não nos condena (pelo contrário), tampouco ele nos isenta de desafios e lacunas que o próprio tempo trata de evidenciar. Tal reconhecimento deve mostrar que nossos propósitos estão obviamente inconclusos, e provavelmente sempre estarão, mas nos obriga a continuar perseguindo-os.

Dos Princípios e concepções:

Defendemos um movimento feito verdadeiramente pela base, sem retórica e sem concessões, ao lado dos trabalhadores na luta de classes e por uma universidade pública, gratuita e de qualidade, que não reproduza meramente o status quo.

O que pode ser problemático é a nossa capacidade de agir com o volume e a profundidade necessários. Ter esta estratégia fixada é uma coisa, outra é dar ressonância e conseqüência maior a ela. Para tanto é preciso ter uma grande militância, que seja ao mesmo tempo: intensa, qualitativa, quantitativa e organizada. Ou seja: precisamos de um número de companheiros (as) que possa dar conta de toda a demanda do movimento; de uma organização que nos propicie agilidade e unidade; de compreensão teórica e capacidade de intervenção política; e, não menos importante, de disposição de luta, pois sabemos que esta se constrói a cada dia. O combate ao praticismo não requer somente uma práxis ideologicamente segura que engendre dialeticamente teoria e prática como meio de transformação, e sim tudo isto inexoravelmente somado a uma militância sempre presente e contínua. Para realizar de fato a concepção de um movimento feito pela base é preciso, antes de tudo, estar nela e dar conseqüência real a todos os passos. Temos que ter na mesma medida uma teoria que corresponda à prática e uma prática que corresponda à teoria. Assim deve ser o dia-a-dia do “Além do Mito...”.

O princípio básico de organização para luta, que inclusive procuramos defender intransigentemente dentro da tentativa – em curso – de reorganização do movimento estudantil deve sempre reafirmar-se: defendemos sem pestanejar um movimento estudantil radical e substancialmente democrático. Radical porque deve levar suas lutas às últimas conseqüências de sua potencialidade, sempre condizente com seu programa e ideologia. Significa também ir às causas, sem sectarismos e nunca se valendo de atalhos fantasiosos. Inerente a isso, buscamos a democracia interna, pois movimento social é para pôr a base em luta, colocando os próprios atores (no nosso caso, os estudantes) como protagonistas diretos de sua luta e organização. Ela é substantiva, pois não-ilusória, sem dicotomizar direção e base, sem se manter na mera retórica fácil.

Este princípio básico não é uma sentença moral apriorística que assumimos apenas por conveniência. Ele se relaciona diretamente aos nossos objetivos de luta norteados pela emancipação humana. Movimentos sociais só podem ser realmente transformadores ao adotarem métodos e práticas organizativas correspondentes com as transformações almejadas. Assim como movimentos de massas, são plenos quando as massas assumem o movimento, tomando consciência de suas necessidades e da luta para superá-las. O princípio de democracia interna substantiva nos movimentos deve percorrer todas as fases da luta.

Da organização interna:

Antes de explicitarmos nossa estratégia e em que sentido devemos direcionar nossas lutas, cabe fazermos uma digressão sobre a organização do grupo. Isso se faz importante principalmente para aqueles que ainda não conhecem propriamente a dinâmica do grupo, além do que a reafirmação de certas práticas é sempre bem vinda.

O “Além do Mito...”consiste em uma organização política, independente (de partidos), que congrega estudantes com uma perspectiva de transformação social e tem como base a teoria marxista. Vale ressaltar que esta relação sempre foi muito importante para dar ao grupo uma boa capacidade de mobilização e coesão. Pois, ao invés do que dizem as críticas destrutivas de nossos opositores, o sectarismo nunca foi característica do grupo. Pelo contrário, sempre pudemos agregar e conviver com as diferenças (inclusive, externamente). Entretanto, a relação entre as partes deve obedecer ao objetivo geral, bem como aos princípios previamente traçados. Ou seja, a base que une a todos no grupo é a nossa referência. Não existem conveniências “táticas” que justifiquem recuos que retorçam esta lógica.

Organizamo-nos para intervir no movimento estudantil local e nacional. Deste modo, se faz necessário que tenhamos uma periodicidade de reuniões para debater e planejar nossas intervenções de modo coerente e qualitativo. Assim, nos reunimos semanalmente para tratar das demandas cotidianas e, a cada seis meses realizamos espaços de formação teórica e organização interna do grupo que denominamos “vivência”.

O grupo é internamente horizontal, tal como busca a construção de um movimento estudantil também horizontal. Desta maneira, não há divisão hierárquica no grupo, apenas dividimos funcionalmente as tarefas quando elas surgem. Não temos os que “pensam” e os que “agem”, todos devem construir igualmente, pensando e agindo. No mais, fazer parte do grupo é, além de coadunar com os seus objetivos e princípios, se auto-reconhecer enquanto membro (inclusive como necessário ao coletivo) e participar da construção do mesmo. Não somos uma organização partidária que venha a centralizar seus militantes ou mesmo escaloná-los em ordem de importância e comprometimento. Construir o “Além do Mito...” é participar organicamentedo grupo para, enquanto tal, intervir no e junto ao ME.

As únicas diferenças existentes, não implicando em qualquer desigualdade interna, são as naturais, decorrentes da experiência pelo tempo de permanência no movimento. Em outras palavras, é normal que militantes mais antigos no movimento assumam até uma determinada proeminência, se destaquem pela experiência acumulada. Desnecessário discorrer que isto não implica em direção por parte destes, as decisões são sempre de igual responsabilidade e méritos de todos. Já os militantes mais novos, muitas vezes ainda “verdes” no movimento, tendem a ser mais passivos, daí nossa frequente preocupação em estimular o desenvolvimento desses novos militantes. Dessa forma, isso não significa que existe uma linha que demarque uma diferença substantiva entre ambos, colocando-os uns acima dos outros. Enfim, nenhum antagonismo entre “novos” e “antigos” pode ser tolerado. As diferenças existentes são assessórias, portanto a contribuição de cada um é igualmente necessária.

Das estratégias e táticas:

Em termos gerais as estratégias do grupo já foram apontadas, mas cabe aqui discutirmo-las. Tais estratégias estão, obviamente, ligadas essencialmente à gênese do grupo. No decorrer da nossa história, mudamos em ênfases e alcances, todavia os delineamentos gerais já foram dados desde início. Da mesma forma que os limites das nossas estratégias estavam traçados, neste caso não por nós mesmos, mas pela realidade em si (o que não quer dizer que o processo histórico não se reflita neles). É neste sentido que estratégias devem existir na medida do possível, do realizável historicamente. Ou seja, se propor a algo que de fato não esteja no horizonte histórico, não só é burrice, como também é um meio de fracassar nos objetivos mais imediatos e elementares. As estratégias se sustentam em uma precisa leitura da realidade.

Definindo a estratégia do AdM: a) lutar pela perspectiva do Trabalho na universidade, que na sociedade capitalista significa uma universidade pública, gratuita, de qualidade; neste sentido, lutamos contra os ataques Neoliberais à educação superior. Junto a isso, temos um objetivo político-organizativo no qual se traduz pela: b) reorganização do movimento estudantil, no caso a re-formação de um movimento estudantil de esquerda combativo, autônomo e radicalmente a favor dos trabalhadores na luta de classes. A nossa estratégia compõe uma unidade desses dois pólos que estão necessariamente juntos, apesar de não se identificarem.

Mesmo fazendo uma opção de classe pelos trabalhadores, o AdM não é, tal como o ME, revolucionário, por mais que engendremos uma luta anti-capitalista. Nós atuamos sobre a esfera da educação, a partir da qual não se revoluciona a sociedade. Seria um contrassenso imaginar, em um regime capitalista, uma universidade dos trabalhadores. Da mesma forma que uma universidade pública e gratuita não ultrapassa a sociedade de classes do capital. É precisamente por isso que a luta efetiva por uma universidade pública e gratuita atende aos objetivos do Trabalho, desde que relacionada a uma luta que exceda os muros da universidade e que vise aguçar as contradições do capital e fortalecer o Trabalho em todas as esferas sociais.

A luta contra a Reforma Universitária é uma resistência contra os ataques a universidade que temos hoje (ou que tínhamos, visto já o estágio das mudanças). Por muito tempo vivenciamos um momento defensivo do ME contra esses ataques. Apesar de vivermos em uma conjuntura brutalmente contra-revolucionaria ( ou seja, a revolução não está posta na ordem do dia), é necessário que o Movimento estudantil se articule e se fortaleça nacionalmente no intuito de uma atuação ofensiva e propositiva na construção de um projeto de universidade que queremos, sem perder nosso horizonte estratégico, ou seja a superação do Capital

Para atingir a nossa estratégia, em todas as suas dimensões, é preciso empreender táticas que nos encaminhem no seu sentido. É preciso ter claro que por mais que não seja fácil definir exatamente qual tática é mais adequada dentro da complexidade de cada momento, torna-se necessário todo o esforço e estudo para que a partir da leitura mais próxima possível da realidade, adotemos as táticas mais acertadas, visto que táticas equivocadas podem levar a erros e derrotas históricas com consequências extremamente negativas apara a luta de classes. Por mais que dois revolucionários igualmente comprometidos com a causa defendam táticas bem distintas para determinada situação, não significa que as duas são igualmente adequadas. A estratégia visada, com seus inerentes princípios, e o processo histórico circunscrevem os limites possíveis das táticas acertadas. A tática não é meramente uma construção subjetiva. Eis aí nossa principal tarefa e responsabilidade enquanto Grupo “Além do Mito...”.

Aqui seria impossível definir quais táticas visamos adotar além do nível mais abstrato que fizemos. Podemos no máximo apontar alguns modos necessários nos quais elas se inserem. Deste modo, a discussão abaixo é essencial no presente contexto, sendo fundamental para a intervenção do AdM.

As táticas só se constituem enquanto efetivas mediações para os objetivos estabelecidos quando articuladas organicamente. Do contrário, as ações parciais perdem o sentido e tendem a se neutralizar. Portanto, é preciso que encaremos o ME enquanto um todo unitário, por mais que ele tenha suas subdivisões organizativas (entidades de base, geral, de área). A sua intervenção deve se encaminhar em um sentido e para o mesmo fim, sem deixar de resguardar as especificidades próprias de cada campo de atuação. As particularidades de cada curso com seu correspondente movimento ganham dimensão real na totalidade que se inclui. Assim, deve-se direcionar a práxis que deseja apreender o geral e o específico. Não há como intervir no todo sem entender suas partes, bem como as partes são incompreensíveis excluídas da totalidade.

Estamos hoje em luta contra a Reforma Universitária Neoliberal, não apenas contra a precarização deste ou daquele curso. Se limitarmos a luta a um curso qualquer (particularidade) o resultado óbvio é o fracasso, pois implica no não reconhecimento de todo complexo que é responsável pela precarização do curso em questão. Fatalmente não atacaríamos os fatores causais e os seus respectivos agentes decisivos, colocando todo nosso empenho em um beco sem saída. Agora, se articulamos a luta no curso em particular a todo o complexo que faz parte, não só tornamos possível a não- precarização deste ou daquele curso, como ainda aumentamos nossa possibilidade real de vitória total, pois faríamos um embate que contemplaria o sentido geral com suas particularidades. Neste sentido é preciso que a militância do ME direcione sua luta.

O próprio ME deve ser uma unidade orgânica, sem a qual não haverá movimento reorganizado. O “Além do Mito...” visa justamente ser um instrumento para tal. Um instrumento que, por um lado, sozinho não é capaz de garantir estes objetivos, mas que, por outro, é indispensável para essa articulação do ME dentro da UFAL.

A experiência recente do ME da UFAL é demonstrativa, presenciamos o descompasso de interesses entre entidade geral (DCE) e entidades de base (CA´s). De um lado, CA´s e DA´s dispostos à luta, mas que eram podados pela direção do DCE e acabavam sucumbindo às suas próprias limitações. Inclusive as últimas atuações gerais do movimento que tiveram consequências reais foram baseadas em frentes de atuação por fora do Diretório Central dos Estudantes, o qual teve que vir à reboque do próprio movimento, mesmo a contragosto. O inverso, caso acontecesse, se revelaria tão prejudicial quanto, pois um DCE voltado para luta precisa de respaldo nas bases, sendo um pólo de articulação dos CA´s. Do contrário, as entidades só se voltariam para seu próprio umbigo, caminho este que leva, no mínimo, à paralisia e, no máximo, à burocratização e aparelhamento.

Sendo assim, se queremos reorganizar o ME pela base e lutar contra os ataques neoliberais à educação superior precisamos hegemonizar nossas concepções por todo o movimento, em todas as suas instâncias. Isto é, precisamos que nossa militância se faça presente e atuante em todos os níveis, participando em harmonia tanto do movimento em seu próprio curso (junto à sua base) como do movimento geral. O AdM precisa, portanto, ocupar os CA´s e DA´s e o movimento geral, para que – dentro dos princípios acima explicitados – tenha capacidade real de intervenção no ME, fortalecendo-o para a luta. Se ficássemos unicamente junto ao movimento geral acabaríamos nos afastando das bases, sendo então incoerentes com nossas concepções, do mesmo modo que, se nos restringimos aos movimentos de área sacrificaríamos todo o nosso projeto.

O momento histórico atual sempre é importantíssimo, a conjuntura vivida sempre é extraordinária, os próximos desafios sempre são difíceis e as tarefas sempre estão inconclusas. Nós do AdM não nos negamos a viver tudo isto e, se não conseguimos nos livrar da doença congênita do ME de cair regularmente em refluxos, pelo menos nos organizemos para tornar nosso ápice avassalador!

ALÉM DO MITO QUE LIMITA O INFINITO!

O “Além do Mito...” se reúne todos os sábados, na Praça Sinimbú, a partir das 14h. Participe!

Contatos: http://grupoalemdomito.blogspot.com

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Moção de solidariedade aos moradores de Pinheirinho



Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.

Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.

(Brecht)


No ano de 2003 o bairro de Pinheirinho, na cidade de São José dos Campos, foi ocupado por famílias no intuito de pressionar o governo a implementar com mais agilidade as políticas habitacionais prometidas pelo prefeito tucano Eduardo Cury durante as eleições.

A área até então pertencia a empresa Selecta que faliu em 1991 e deixou uma dívida em impostos para com o município(IPTU) em mais de 10 milhões. Com a derrocada o terreno passou para o dono da empresa, o Libanês Najis Naha, um especulador conhecido por manipular e inflar artificialmente os preços das ações no escândalo da quebra da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro em 1989 (com isso a hegemonia passou para São Paulo) e por ser preso na operação Satiagraha em 2008, junto com o prefeito de São Paulo Celso Pitta e o banqueiro Daniel Dantas.

De 2003 até o presente ano mais de 1500 famílias sem acesso à moradia instalaram-se no bairro e desde então inúmeras tentativas de negociação foram feitas com a prefeitura no intuito de legalizar juridicamente o espaço ocupado. Cabe aqui lembrar que a problemática do acesso à moradia nas cidades já foi alvo de intensos debates, em 1963 no governo de João Goulart (no contexto das reformas de base) realizou-se o Seminário de Habitação e Reforma Urbana, até os dias atuais onde a pressão da sociedade civil, dos partidos e das organizações populares culminou na criação do Estatuto da Cidade (Lei número 257, de 10 de Julho de 2001), dentre os pontos presentes no Estatuto um se destaca se analisado na conjuntura do massacre de Pinheirinho, trata-se da função social da propriedade, que significa que a propriedade terá seu uso condicionado ao bem-estar social, ao interesses coletivo (como se isso fosse possível numa sociedade dividida em classes) e não ao interesse privado. O Estado só deve proteger na esfera jurídica uma propriedade se ela estiver cumprindo sua função social, e a área de Pinheirinho é reflexo da incapacidade do Estado de resolver o antagonismo entre capital x trabalho.

A desigualdade no acesso aos bens necessários a reprodução humana é uma característica fundamental e necessária a reprodução do capital, e a organização/ocupação dos territórios acaba por reproduzir essa lógica excludente: temos no campo as melhores terras ocupadas pelo latifúndio e pela monocultura ligada ao agronegócio, e as terras restantes pobres em nutriente, ou cujos nutrientes já tenham sido sugados, ocupadas por famílias pobres. Na cidade o que podemos visualizar é o mesmo, a segregação espacial coloca de um lado belíssimos prédios, residenciais e resorts nas orlas brasileiras, enquanto que para a maioria da população resta as áreas impróprias para habitação: encostas, morros, favelas, grotas e etc. Um olhar mais profundo sobre os habitantes de Pinheirinho irá perceber que trata-se de pobres, negros, mulheres, idosos, grávidas, crianças, nordestinos e etc.

O “Grupo Além do Mito...” ao mesmo tempo em que presta solidariedade aos moradores de Pinheirinho, repudia o massacre orientado pelo governo de São Paulo, que desde o início da operação conta com helicópteros jogando gás de pimenta, bombas de gás lacrimogênio, balas de borrachas e cacetetes contra paus, pedras e palavras de ordem. Como resultado da ação temos centenas de pessoas sem moradia e a morte de 5 pessoas, entre elas uma criança atingida por uma bala de borracha na veia jugular.



Todo apoio a luta e a resistência dos trabalhadores de Pinheirinho!

Não a desocupação promovida pelo Prefeito Eduardo Cury e sua tropa de choque!

A favor da Reforma urbana e da ocupação de propriedades ociosas!

Em defesa do socialismo e da revolução!

Grupo “Além do Mito...” 24/01/2011

domingo, 31 de julho de 2011

Tese do Grupo "Além do Mito..." - UNE ou ANEL - Eis a questão?

UNE ou ANEL - Eis a questão?

Após o Congresso Nacional de Estudantes, ocorrido em 2009, no qual se fundou a Assembléia Nacional dos Estudantes Livre - ANEL, nunca tinha se apresentado, em Alagoas, a necessidade tão premente de responder à questão acerca da construção ou não dessa entidade como nos últimos quatro ou cincos meses. Identificamos que as razões do fenômeno mencionado já apontam para a resposta a ser dada a esse questionamento, ainda que ambas não se esgotem.

Entretanto, o propósito do presente texto é, antes de tudo, contribuir para a discussão acerca do processo de reorganização do movimento estudantil, sem perder de vista em nenhum momento, que atualmente a ANEL se apresenta enquanto principal experiência desse processo, por mais que com ele não se identifique por completo. Entendemos assim, pois, em primeiro lugar, que a ANEL, e o PSTU, foram responsáveis por reduzir a discussão que envolve o processo de reorganização do movimento estudantil à experiência por eles construída. Em segundo lugar, a ANEL, nesses dois anos de fundação, se mostrou incapaz de aprofundar a tendência necessária de rompimento cabal com a União Nacional dos Estudantes - UNE. Desenvolveremos esses elementos mais adiante.

Noutro documento (Para onde foi a reorganização?) já expusemos, quando fizemos uma análise circunstanciada do Congresso Nacional dos Estudantes, os passos dados pelo movimento de reorganização até a fundação da ANEL, passando pela CONLUTE, pela Frente de Luta Contra a Reforma Universitária e, pelo Encontro Nacional de Estudantes. Neste texto não iremos nos repetir, porém, é extremamente necessário que se resgate os debates sobre conjuntura nacional, concepção de movimento estudantil, entidade nacional surgida na base, entre outros que estiveram outrora na ordem do dia.

Sendo assim, nossa análise, no presente texto, não se deterá na especificidade do 1º Congresso da ANEL, mas intentará expor uma leitura desta entidade nos seus aspectos mais gerais, tendo eles sidos expressados ou não nesse espaço nacional.

Dos primeiros sinais de vida...

Não obstante o DCE da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas ter deliberado pela sua construção em meados de outubro de 2010, podemos afirmar que a ANEL somente despontou na cena política estudantil de Alagoas no dia 19 de março de 2011, quando foi realizada sua primeira Assembleia Estadual.Isso porque esta entidade não pode se afirmar enquanto não tinha sido iniciada a reestruturação regional do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado.

Ou seja, enquanto o PSTU esteve enfraquecido em sua organização no movimento estudantil, a construção e os debates acerca da ANEL não surgiam no horizonte próximo dos estudantes. Exigiu-se que uma subjetividade, mesmo que coletiva, organizada num partido, forjasse uma necessidade que não estava objetivamente posta, comprometendo, deste modo, a própria prática concreta, uma vez que os passos dessa entidade estarão seriamente limitados no que diz respeito ao atendimento dos principais objetivos reservados à entidade que deveria surgir do processo de reorganização. Aspecto, este, anunciado desde o CNE, em 2009.

No que toca aos debates, a Assembleia Estadual foi inaugurada a partir das falas de quatro membros do PSTU que tentaram traçar a linha de abordagem de quatro bandeiras. Eram elas: o apoio e a inspiração nas revoltas árabes, a luta por Assistência Estudantil e contra o Novo Enem, o combate às Organizações Sociais e, a necessidade de fazer surgir e fortalecer a ANEL enquanto alternativa a UNE.

Pois bem, diante da conjuntura geral de duas, das três universidades públicas do Estado, havia um número sensivelmente maior de pessoas presentes - vários deles estudantes secundaristas - na assembleia com a ânsia de discutir e traçar medidas concretas na luta contra o Novo Enem. Porém, a discussão mais importante do espaço se deu de maneira completamente desorganizada, tanto no que diz respeito à análise e clareza acerca do projeto, quanto na incapacidade dos companheiros do PSTU em direcionar a discussão e apontar possíveis caminhos, demonstrando, naquele momento, que a principal tarefa era apenas propagandear a ANEL.

Ademais, naquele último eixo fizemos uma intervenção para problematizar o papel da ANEL e a concepção de entidade que estava sendo defendida pelo companheiro, afirmando que era imprescindível, para que pudéssemos compreender corretamente o ser da ANEL, que compreendêssemos, antes de tudo, a dinâmica e a luta dos elementos que compuseram e compõe sua gênese. Atentando para o fato de que o exercício de análise dos elementos genéticos da ANEL não se resume à critica ao momento de sua fundação – o CNE – mas, sobretudo, é o apontamento das limitações de seu desenvolvimento a partir da compreensão de seus elementos constitutivos.

O CNE, em 2009, representava o passo mais organizativo, ainda que inseguro, do processo de reorganização do Movimento Estudantil. O que significa dizer que existia (e ainda existe) um enorme leque de temas, posicionamentos, concepções de mundo, de organização, de luta... etc. que precisavam ser remontados, ou melhor, reorganizados na consciência objetivamente posta dos estudantes. Discutir esses temas, tirar nossos posicionamentos, ou seja, redefinir nossos princípios fundamentais é – ou deveria ser – o primeiríssimo momento do primeiro passo, visto que reorganizar, na nossa concepção, é organizar de tal forma que se crie o novo. E para que o que se crie seja realmente novo – e não uma reatualização do velho – é indispensável construir novas bases, novos princípios. Ou como deixamos bem claro anteriormente: “As tarefas postas para o Congresso envolviam, pois, o debate acerca de uma gama de temas que, muito além da necessidade de uma Nova Entidade, envolviam os princípios que norteavam a reorganização, seus métodos, bandeiras políticas, concepções de mundo, de educação e mesmo de ME.” (Para onde foi a reorganização?, 2009).

Infelizmente, não foi o que aconteceu no CNE. A clara hegemonia do PSTU nos espaços do Congresso assim como na própria Comissão Organizadora, marcou claramente como o Congresso e sua organização foram fortemente influenciadas pela política tirada pelo partido. Não queremos com isso dizer que é ilegítimo estar em maioria – ou nada que flutue perto disso – queremos apontar a forte responsabilidade do partido quanto à criação e ao desenvolvimento do Congresso. Nada mais óbvio e sensato, uma vez que o Congresso é feito pelos estudantes que estavam presentes, e se a maioria dos presentes tinha no PSTU a semelhança do que há de mais avançado nas lutas – orgânicos do partido ou não – para esses, a posição do partido seria a mais acertada, a que deve guiar esse passo da reorganização.

A soma da estrutura inicial com outros acontecimentos que tornaram, no mínimo, complicado o decorrer do Congresso nos mostra o quanto a organização do CNE se afasta do objetivo que queremos atingir. Como, por exemplo, a inclusão de mesas em momentos desapropriados pela falta de tempo, enquanto que houve momentos sem nenhuma programação; supressão de GT’s, que sem dúvidas são os espaços dos mais valiosos para as discussões – inclusive para as minorias; a divisão da leitura das Teses em dois espaços, com a supressão do segundo; e tantos outros detalhes mais ricos estão expostos em nosso texto de avaliação já citado.

Na plenária final se concretiza a aparência conturbada do CNE. Iniciada com a votação dos consensos tirados dos GT’s e das Teses que puderam ser analisadas, ao invés de prosseguir, discutir e votar, depois disto, os pontos de dissenso – como conjuntura, gênero, educação e cultura – assim firmando boas bases, embora ainda imaturas, para o Novo Movimento Estudantil, o PSTU apresenta uma questão de ordem e propõe que a pauta sobre a criação ou não de uma Nova Entidade fosse adiantada e, mais uma vez, essa proposta é atendida. Ou seja, o partido propôs que fosse votada a criação de uma Nova Entidade sem antes, ao menos, discutir os novos eixos que iriam erguê-la!

Ora, se uma Entidade não pode erguer-se sem eixos, e se só foi discutido uma parte do seu conteúdo, deixando os dissensos – parte mais importante para essa composição – escancaradamente de lado, essa parte que falta só pode ser preenchida pelos velhos conteúdos, pelas velhas práticas, pelo Velho Movimento. Já nesse primeiro momento, o piso desta Nova/Velha Entidade já se apresentava liso e escorregadio.

Ademais, quando a proposta que defendia a criação da nova entidade foi aprovada, a partir da tese que era numericamente inferior, diante das demais teses, todos os demais setores, minoritários, se viram isolados da articulação nacional do processo de reorganização, enfraquecendo, assim, a própria construção deste. O fato do PSTU ser o setor majoritário deste processo implica numa maior responsabilidade sobre os rumos e os passos que esse processo venha a dar. Isso precisa ser constantemente lembrado.

ANEL no Movimento Estudantil

É certo que a avaliação que fizemos sobre o CNE em 2009 não estava petrificada e que nossa posição, inclusive a respeito da ANEL, pode sofrer alterações durante o decorrer da história. Mas, para isso, a Entidade teria que lutar arduamente na tarefa de reverter determinações que sua gênese impõe em seu desenvolvimento. Avaliamos, já em 2009, que não era frutífero para o ME se arriscar nessa tarefa, pois a possibilidade de mais uma derrota histórica se faz tão presente e tão forte que acabaria por colocar em risco os poucos avanços já conseguidos até agora, inclusive com a importante colaboração do PSTU.

Nossa posição continua a mesma unicamente pelo motivo de que a ANEL está caminhando justamente por onde sua conturbada gênese determina. Isso significa que não tem conseguido reverter por completo essas determinações, nem nos mostra indicações de uma objetiva potencialidade para tal. Ou seja, continua afastada do que pretendemos para a reorganização.

Nos dois últimos anos, desde sua fundação, nenhuma grande luta foi travada pela entidade onde não tivesse o PSTU. Aliás, ela não existe onde não há o partido, a entidade é feita quase que exclusivamente pelo partido socialista dos trabalhadores unificado, ainda que não seja a maioria de fato. A construção recente da ANEL/Alagoas representa bem isto – a necessidade da construção de uma entidade nacional vem à tona quando o partido volta a se reestruturar no estado.

Isso está mais do que claro, quando, no começo do texto, afirmamos que a necessidade premente de responder sobre construir ou não a “Nova” Entidade, dentro de Alagoas, se faz exatamente no momento em que o PSTU aqui cresce. É espantosamente confusa como a extrema urgência dessa questão surge há, no máximo, cinco meses, apesar da sua criação datar de 2009? Para nós, não.

Cabe aqui relembrarmos um dos principais argumentos do PSTU – senão o maior deles - para se fundar uma nova entidade em 2009: precisamos de uma nova entidade para potencializar as lutas que estão decorrendo do ascenso do ME nacional. Ora, parece que esta tarefa (potencializar as lutas) não foi o que se pode verificar nestes dois últimos anos.

A ANEL configura uma entidade representativa dos estudantes, em nível nacional, que depois de concebida vem buscar sua legitimação na base. Como pode, então, uma entidade que não tem seu reconhecimento no seio estudantil ser representativa? O debate de seus militantes quase sempre forja uma conjuntura não existente. Não temos uma base que reclame uma entidade de porte nacional somente porque a União Nacional dos Estudantes não serve mais para fazer luta.

Uma vez afastada da base, o que segura a Entidade em pé são as táticas tiradas dentro do partido, que faz com que seus muitos militantes cerrem os dentes e saiam para a militância com o objetivo último de anunciar a ANEL a todo custo, propagandear suas bandeiras, agitá-las o máximo possível para que todos possam ver que uma nova alternativa de direção está posta, agora só falta segui-la para conquistar as vitórias estudantis. É por isso que de 2009 até o início de 2011 não estava na pauta do dia a sua construção, não havia esse questionamento, pois a base dos estudantes não sente essa necessidade, ou não acha possível dentro da atual conjuntura. E hoje, essa questão não é colocada pela base, mas sim pelos próprios militantes do partido que exauridos de esperar o reconhecimento da base, perguntam-se, eles próprios, o motivo pelo qual todos os demais estudantes não a constroem.

Como a ANEL não tem esses posicionamentos fundamentais reconfigurados e nasce em um contexto de intensa crise de consciência, por mais que eles anunciem, levantem e balancem a bandeira mais correta possível, aquela realidade não está para os estudantes. E nem pode estar sem uma cuidadosa e gradual elevação dessa consciência. Defendendo muitas das vezes a bandeira correta, os militantes que constroem a ANEL certamente se estranham no meio do caminho: com a bandeira acertada em mãos, digna do Novo, realizam ações “dignas” do Velho; fruto de uma leitura fragmentada da realidade, não conseguem compreender a ocorrência de tal fenômeno, buscando explicações aparentemente plausíveis para justificar tais práticas, na tentativa de acalmar suas próprias mentes e dar uma resposta aos militantes mais sérios diante dessas afirmações dicotômicas produzidas pela própria Entidade. Por exemplo, quando, não raramente, atribuem grande parte da culpa da necessidade dessas práticas indignas aos setores que não constroem a ANEL e por isso enfraquecem as pernas da mesma.

Uma vez criada a Entidade que defende as bandeiras mais acertadas possíveis, o PSTU acha que o que falta é divulgar a ANEL dentro de atos, através de listas de e-mails, em falas em público e no convite para seu congresso. Como se os estudantes estivessem todos plenamente conscientes do que devem fazer, maturado todo o debate pertinente a uma reorganização e só o que falta é que alguém chegue e apresente uma Entidade nova que balança as bandeiras corretas – e nesse momento, como em um passe de mágica, os estudantes se sentiriam tão identificados que o processo de lutas em pouco tempo começaria a eclodir.

Do Congresso Nacional da ANEL

O primeiro Congresso Nacional da Entidade foi realizado na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro nos dias de 23 a 26 de junho deste ano. O Congresso contou com a participação de meados 1700 estudantes, sendo 1200 deles delegados, além de professores e trabalhadores.

O Grupo “Além do Mito...”, por entender que se tratava de um espaço nacional importante da reorganização da nossa categoria, deliberou pelo enviou de observadores ao congresso. Essa deliberação também serviria para nos fornecer uma maior riqueza de detalhe e uma maior quantidade de elementos para aprimorar nossa avaliação.

Estava muito claro para nós, porém, antes do início do Congresso, que este seria um espaço em certo sentido privilegiado, diferenciado, receptáculo de debates, mesas, e pessoas disposta a discutir e elaborar políticas para o movimento estudantil sob uma perspectiva de esquerda e combativa. Foi de fato, um momento que certamente ficará guardado na memória dos militantes lá presentes, pois toda a estrutura do Congresso e as experiências lá ocorridas estão muito longe do que acontece no nosso cotidiano da militância estudantil. O contato com pessoas desconhecidas que, mesmo aparentemente, compartilham de um mesmo objetivo, ou a contribuição de pessoas que não eram estudantes, as falas e até as discussões ocorridas, certamente emocionaram, se não a todos, a esmagadora maioria dos congressistas. E tudo isso por certo contribui na identificação do militante para com a Entidade.

Pois bem, pousando-se o olhar sob o fato com uma maior riqueza de detalhes, percebemos que titulá-lo como positivo ou negativo não é tão simples assim. Na UFAL, se ampliarmos o campo de análise, esses mesmos militantes, inclusive os delegados tirados para o Congresso, fizeram parte de um processo muito conturbado no contato com o ME.

A tiragem de delegados não foge a essa regra e, como se não bastasse a insuficiência da discussão, na UFAL existiram tristes realidades como delegados sendo eleitos no último dia antes do Congresso – no curso de Geografia – e até mesmo a espantosa notícia de estudantes delegados que mal sabiam o que iriam fazer no Rio de Janeiro, ou, que iria sem ao menos saber que sua ida ao Congresso era como delegado.

Para se ter uma idéia, Em 2009, durantes as discussões que envolveram a eleição para delegados do Congresso Nacional de Estudantes, o Centro Acadêmico de História, reconhecendo a impossibilidade de se realizar um debate adequado com a base estudantil no espaço de tempo disponível à época, deliberou por não enviar delegados, mas observadores, pois, tal postura não coadunava com a concepção de novo movimento estudantil por eles praticada.

Além disso, pudemos perceber que os GT’s reservados aos debates fundamentais acerca da nova entidade, do processo de reorganização do ME, de seu histórico e de concepção de entidade não conseguiram aprofundar a leitura do processo como um todo, na qual pudéssemos construir a partir dela, expressando a completa incompreensão do papel que um novo instrumento deveria cumprir.

É desses fatos concretos que tiramos a afirmativa exposta anteriormente de que a ANEL não consegue romper totalmente com as práticas da UNE, ou seja, não consegue reverter a determinação histórica de sua conturbada gênese, apesar de terem programas rigorosamente diferentes entre si.

Diante disso, somos forçados a concluir, no que diz respeito ao processo de reorganização do movimento estudantil, que a ANEL em nada avançou na principal tarefa posta em face desse processo, a saber, a negação/superação dos métodos e concepções que balizam a teoria e a prática da União Nacional dos Estudantes.

UNE ou ANEL: não é esta a questão

Convivendo a ANEL com a base estudantil, conseguindo delegados para seu congresso na grande maioria das vezes sem dar chances para o conhecimento da totalidade do processo que envolve a Entidade e ocultando suas falhas, o PSTU tenta forjar a realidade: cria a falsa polêmica UNE x ANEL.

Tenta, dessa maneira, forjar a realidade com ideias “mortas”, pois, ao colocar a centralidade do problema da reorganização repousada sobre essa falsa questão, o partido cria uma compreensão aparente da realidade, existente apenas nas ideias. Uma vez consolidada a superação formal da UNE, já que a superação material é ainda tarefa da reorganização, o PSTU, ao colocar dessa forma, pressupõe a superação plena da UNE e, como se não bastasse, torna sinônimo ANEL e Reorganização. Tal postura do partido é passada aos militantes da ANEL que a reproduzem em grande escala, dando certo ar de veracidade e legitimidade, pois aparentemente afasta do PSTU a responsabilidade de ter criado tal polêmica, pintando tal falsidade como “o discurso dos próprios estudantes”.

Pensando dessa forma em relação às duas entidades, os estudantes incentivados pelos problemas do seu curso, da sua Universidade e da sociedade, e que acabaram de entrar na vida universitária, ou até mesmo militantes mais antigos do ME, que não tem claro a totalidade dos acontecimentos que compõem a Entidade,logicamente passam a construir a Entidade.

Ao acreditar na veracidade dessa polêmica, junto com a metade da verdade da história referente a UNE, esses estudantes se ligam a ANEL. Acreditando, dessa forma, estarem no pico da contribuição para a reorganização e com isso colocam-se à disposição de defender a ANEL com unhas e dentes – uma atitude louvável, se não fosse baseada num equívoco. O que termina por acontecer é a manifestação cada vez mais clara das práticas do Velho Movimento. Agora, mascarado de novo, consegue convencer os estudantes com a ajuda dessa falsa polêmica. Além disso, espalham essa notícia como questão de vida ou morte, agora ou nunca, UNE ou ANEL, de maneira mais ampliada a cada novo estudante que desliza e cai na sua armadilha, comprometendo, dessa forma, toda a reorganização e o próprio Movimento Estudantil.

Antes de pedir passagem, o NOVO precisa aprender a falar...

De tudo quanto foi exposto, gostaríamos de chamar atenção para alguns pontos finais. O primeiro deles é que estamos operando uma discussão de entidade fundada em bases distintas daquela levada a cabo pelo PSTU, setor hegemônico do ANEL. Essa distinção se evidencia quando percebemos que a partir do momento no qual o partido leva a frente um projeto de reorganização materializado na ANEL, indicando a radicalidade de suas bandeiras, sua autonomia financeira e a democracia interna enquanto elementos que a distingue da UNE, compreendemos que sua análise da reorganização fundamenta-se em parte da realidade e dos sujeitos que nela atuam.

Ou seja, há uma falha metodológica realizada pelo partido quando lê a conjuntura olhando apenas as entidades que nela habitam, quando enxergam, apenas, a expressão formal da imbricação real de aspectos subjetivos e objetivos, sem levar em conta a gama de elementos articulados que dão base a essa superestrutura. Nessa linha o PSTU continuará identificando as vitórias da entidade sempre que esta ocupar um espaço que antes estava “vazio”, sempre que ela for o vetor responsável por colocar algo onde antes não existia nada. Ou melhor, sua própria criação é enxergada enquanto vitória, pois, anteriormente, não havia uma entidade de caráter nacional que defendesse a luta contra a reforma universitária, por exemplo.

Interessante perceber que sob esta perspectiva o debate perde muito de sua riqueza e acaba se reduzindo a um mero procedimento de análise quantitativa, quando precisaríamos lutar, diuturnamente, pela conquista dos elementos qualitativos. Repetimos, é positivo que estudantes antes apáticos, hoje estejam olhando para o mundo de maneira mais crítica e tentando se organizar para praticar coletivamente essa crítica. Contudo, a questão que precisa ser respondida por todos os setores que fazem parte desse processo é: quanto a experiência dos dois anos da ANEL acumulou para o movimento de negação/superação, de rompimento, não apenas com a UNE, mas com tudo que ele representa?

Disto, extrai-se a ilação que, malgrado toda a propaganda operada pelo PSTU, o novo ainda não está pedindo passagem, na verdade, ele possui sérias dificuldades para aprender a falar, seu antigo idioma continua a lhe perturbar, suas palavras, na nova língua, precisam ser traduzidas a partir da velha, quando não ocorre de serem cognatas, ele permanece incapaz de formular frases autonomamente, sob a lógica da nova língua e, por isso, não consegue superar o velho....

Indo além da falsa questão...

Desde quando existe, já dentro do processo de reorganização e rompido com a UNE, o grupo vem consolidando sua concepção de movimento, sempre voltado para a base dos estudantes. A necessidade de uma entidade que supere a UNE está pressuposta desde o momento em que a mesma não pode mais ser a nossa representação. Nega-se, deste modo, suas práticas de movimento distanciadas da base, burocráticas, institucionalizadas e é feito o debate sobre o total desmantelamento do aparelho que um dia foi o comitê de estudantes organizados com o intuito de mudar as condições de educação, bem como a sociedade em que vivem.

Sendo o grupo "Além do Mito...", de forma sucinta, um grupo de estudantes que se organizam para estudar e atuar politicamente, na Universidade Federal de Alagoas, por uma universidade realmente pública, gratuita, laica, de qualidade e socialmente referendada, com o objetivo de trazer à tona as contradições da sociedade reproduzidas dentro das Universidades, lutar contra as diversas formas de opressões, utilizando-se do processo de tomada de consciência dos estudantes, numa perspectiva classista, a ANEL não corresponde à nossa concepção de ME.

O processo de reorganização, na nossa visão, impactado negativamente pela criação da nova entidade, não estanca aí. A ANEL não é o produto final da reorganização e sim um de seus frutos. Dirigem-se a nós como se a questão fosse construir a UNE ou construir a ANEL, mas a questão correta é construir a UNE ou estar comprometido com o processo de reorganização. Não nos sentimos forçados a construir a ANEL quando esta não atende às necessidades dos estudantes, que em nossa opinião é participar e reconhecer o ME, e, através da base, fazer movimento de práticas e condutas diferenciadas daquelas que todos nós queremos combater.

Que fique bem claro, contudo, que a Assembleia Nacional dos Estudantes Livre não é nossa inimiga. Isto não poderia ser quando se constrói a reorganização. Assim, nós construiremos taticamente junto com a ANEL, quando assim for necessário, mas não podemos nos abster da crítica à mesma, por mais dura que seja, muito menos construir algo que é paradoxal à concepção do próprio grupo.

Nossa tarefa ainda é de reestruturar as bases para um Novo Movimento Estudantil, estreitar o máximo possível nossas concepções, redefinir nosso posicionamento, clarear nosso objetivo, ou seja, elevar a consciência dos estudantes para que assim torne objetivamente possível uma entidade de representação dos estudantes em âmbito nacional. Dessa maneira, teremos ideias vivas e coerentes, pois possíveis de serem colocadas em prática.

Não estamos com isso, excluindo a necessidade de uma articulação de caráter nacional. Isso sempre foi e é o horizonte do grupo. Alias, cabe relembrar nossa proposta no CNE em 2009: Criar um mecanismo que pudesse reunir nacionalmente os setores comprometidos na defesa da universidade pública brasileira. Isso -- para que fique bem claro -- exclui obrigatoriamente a UNE, pois a mesma não passa de um braço do Estado no ME.

Portanto, reafirmamos a extrema urgência em unificarmos todos os setores comprometidos neste defesa para que possamos minimamente somarmos forças neste momento de descenso do ME, tanto nacionalmente quanto em cada estado do país. Este primeiro passo é importantíssimo para este momento defensivo que estamos vivenciando na esquerda como um todo.

Grupo Além do Mito...

Julho de 2011

terça-feira, 14 de junho de 2011

Além do Mito...

Nossa luta é pela educação
mais humana possível:


aquela que torne crível
dentro de cada indivíduo
o poder que existe na sua mão.


Essa consciência, ainda
que digam que não,
é o instrumento para
escrevermos nossa história.


Lutamos não por sermos
diferentes dos demais.
Pelo contrário, nos
sentimos tão iguais
que sentimos doer
forte a dor do mundo.


A única diferença
é não acreditarmos
no mito de que não podemos
ir além do que somos hoje


É por isso que vem
do fundo um grito
forte, firme e esperançoso:


revolução!




Poema feito por Rafael João para o grupo "Além do Mito..."