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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

CARTA DO “ALÉM DO MITO...” AOS SEUS MILITANTES E AOS DEMAIS CAMARADAS

Nossa luta é pela educação

Mais humana possível:

aquela que torne crível

dentro de cada indivíduo

o poder que não existe em sua mão.

(Rafael João)


Este é um documento direcionado àqueles que fazem parte, já fizeram, pensam em fazer, ou mesmo, simpatizam com o grupo “Além do Mito...”, bem como às pessoas que atuam no movimento em um sentido que julgamos próximo ao nosso. O objetivo aqui é apenas fazer alguns apontamentos das estratégias, táticas e organização do grupo, além de desafios postos ao AdM e seus militantes. Não se trata, pois, de um texto que vise somente instigar as pessoas em sua militância no grupo, mas de traçar objetivamente um perfil que desvende algumas mediações necessárias à nossa organização e aos objetivos da luta.

Desde 2005 até hoje, o grupo estudantil “Além do Mito...” passou por várias transformações. Não só em seus quadros, fazendo constantes renovações quantitativas e qualitativas mesmo sempre tendo que lidar com a sazonalidade típica do movimento estudantil, mas mudou também em sua conotação organizativa. Tais transformações muitas vezes não vieram de nossos planos, de nossas vontades. Foram impostas pelos desafios que nos defrontamos, tendo em vista os nossos objetivos traçados. Isto quer dizer apenas que a luta cria contingenciamentos aos quais a organização e as práticas nela empregadas devem responder. Não escolhemos plenamente por qual caminho seguir, muito menos estes vão de acordo com nossas conveniências. Respondemos à luta real, e seus imperativos, com base nos princípios e táticas relativas a ela. Daí que devemos partir para pensar o que é e o que deve ser o “Além do Mito...”.

O AdM surgiu inicialmente impulsionado para se disputar a eleição do DCE, mas ao longo do processo se transubstanciou em algo mais sólido, para além de eleições de entidades ,de modo a colocar as suas pautas e concepção no cotidiano do movimento. O essencial disto é que se manteve porque vários militantes se engajaram em suprir uma necessidade do movimento estudantil que se tornou viva. O AdM tornou possível efetivar uma organização estudantil de porte dentro da UFAL, que fosse a antítese da burocratização, do peleguismo, e que pautasse a universidade pública dentro de uma perspectiva radical classista. Isto não foi pouco, muito menos tudo, apenas conseqüência da militância organizada e de uma conjuntura que propiciou as condições para tal fato.

Este breve histórico (e sua análise) não é somente para reavivarmos nossa memória. A definição do AdM hoje carrega em si este histórico e, não menos importante, junto com as expectativas cunhadas – passadas e presentes – provenientes dele. Enfim, mesmo sabendo que nosso passado não nos condena (pelo contrário), tampouco ele nos isenta de desafios e lacunas que o próprio tempo trata de evidenciar. Tal reconhecimento deve mostrar que nossos propósitos estão obviamente inconclusos, e provavelmente sempre estarão, mas nos obriga a continuar perseguindo-os.

Dos Princípios e concepções:

Defendemos um movimento feito verdadeiramente pela base, sem retórica e sem concessões, ao lado dos trabalhadores na luta de classes e por uma universidade pública, gratuita e de qualidade, que não reproduza meramente o status quo.

O que pode ser problemático é a nossa capacidade de agir com o volume e a profundidade necessários. Ter esta estratégia fixada é uma coisa, outra é dar ressonância e conseqüência maior a ela. Para tanto é preciso ter uma grande militância, que seja ao mesmo tempo: intensa, qualitativa, quantitativa e organizada. Ou seja: precisamos de um número de companheiros (as) que possa dar conta de toda a demanda do movimento; de uma organização que nos propicie agilidade e unidade; de compreensão teórica e capacidade de intervenção política; e, não menos importante, de disposição de luta, pois sabemos que esta se constrói a cada dia. O combate ao praticismo não requer somente uma práxis ideologicamente segura que engendre dialeticamente teoria e prática como meio de transformação, e sim tudo isto inexoravelmente somado a uma militância sempre presente e contínua. Para realizar de fato a concepção de um movimento feito pela base é preciso, antes de tudo, estar nela e dar conseqüência real a todos os passos. Temos que ter na mesma medida uma teoria que corresponda à prática e uma prática que corresponda à teoria. Assim deve ser o dia-a-dia do “Além do Mito...”.

O princípio básico de organização para luta, que inclusive procuramos defender intransigentemente dentro da tentativa – em curso – de reorganização do movimento estudantil deve sempre reafirmar-se: defendemos sem pestanejar um movimento estudantil radical e substancialmente democrático. Radical porque deve levar suas lutas às últimas conseqüências de sua potencialidade, sempre condizente com seu programa e ideologia. Significa também ir às causas, sem sectarismos e nunca se valendo de atalhos fantasiosos. Inerente a isso, buscamos a democracia interna, pois movimento social é para pôr a base em luta, colocando os próprios atores (no nosso caso, os estudantes) como protagonistas diretos de sua luta e organização. Ela é substantiva, pois não-ilusória, sem dicotomizar direção e base, sem se manter na mera retórica fácil.

Este princípio básico não é uma sentença moral apriorística que assumimos apenas por conveniência. Ele se relaciona diretamente aos nossos objetivos de luta norteados pela emancipação humana. Movimentos sociais só podem ser realmente transformadores ao adotarem métodos e práticas organizativas correspondentes com as transformações almejadas. Assim como movimentos de massas, são plenos quando as massas assumem o movimento, tomando consciência de suas necessidades e da luta para superá-las. O princípio de democracia interna substantiva nos movimentos deve percorrer todas as fases da luta.

Da organização interna:

Antes de explicitarmos nossa estratégia e em que sentido devemos direcionar nossas lutas, cabe fazermos uma digressão sobre a organização do grupo. Isso se faz importante principalmente para aqueles que ainda não conhecem propriamente a dinâmica do grupo, além do que a reafirmação de certas práticas é sempre bem vinda.

O “Além do Mito...”consiste em uma organização política, independente (de partidos), que congrega estudantes com uma perspectiva de transformação social e tem como base a teoria marxista. Vale ressaltar que esta relação sempre foi muito importante para dar ao grupo uma boa capacidade de mobilização e coesão. Pois, ao invés do que dizem as críticas destrutivas de nossos opositores, o sectarismo nunca foi característica do grupo. Pelo contrário, sempre pudemos agregar e conviver com as diferenças (inclusive, externamente). Entretanto, a relação entre as partes deve obedecer ao objetivo geral, bem como aos princípios previamente traçados. Ou seja, a base que une a todos no grupo é a nossa referência. Não existem conveniências “táticas” que justifiquem recuos que retorçam esta lógica.

Organizamo-nos para intervir no movimento estudantil local e nacional. Deste modo, se faz necessário que tenhamos uma periodicidade de reuniões para debater e planejar nossas intervenções de modo coerente e qualitativo. Assim, nos reunimos semanalmente para tratar das demandas cotidianas e, a cada seis meses realizamos espaços de formação teórica e organização interna do grupo que denominamos “vivência”.

O grupo é internamente horizontal, tal como busca a construção de um movimento estudantil também horizontal. Desta maneira, não há divisão hierárquica no grupo, apenas dividimos funcionalmente as tarefas quando elas surgem. Não temos os que “pensam” e os que “agem”, todos devem construir igualmente, pensando e agindo. No mais, fazer parte do grupo é, além de coadunar com os seus objetivos e princípios, se auto-reconhecer enquanto membro (inclusive como necessário ao coletivo) e participar da construção do mesmo. Não somos uma organização partidária que venha a centralizar seus militantes ou mesmo escaloná-los em ordem de importância e comprometimento. Construir o “Além do Mito...” é participar organicamentedo grupo para, enquanto tal, intervir no e junto ao ME.

As únicas diferenças existentes, não implicando em qualquer desigualdade interna, são as naturais, decorrentes da experiência pelo tempo de permanência no movimento. Em outras palavras, é normal que militantes mais antigos no movimento assumam até uma determinada proeminência, se destaquem pela experiência acumulada. Desnecessário discorrer que isto não implica em direção por parte destes, as decisões são sempre de igual responsabilidade e méritos de todos. Já os militantes mais novos, muitas vezes ainda “verdes” no movimento, tendem a ser mais passivos, daí nossa frequente preocupação em estimular o desenvolvimento desses novos militantes. Dessa forma, isso não significa que existe uma linha que demarque uma diferença substantiva entre ambos, colocando-os uns acima dos outros. Enfim, nenhum antagonismo entre “novos” e “antigos” pode ser tolerado. As diferenças existentes são assessórias, portanto a contribuição de cada um é igualmente necessária.

Das estratégias e táticas:

Em termos gerais as estratégias do grupo já foram apontadas, mas cabe aqui discutirmo-las. Tais estratégias estão, obviamente, ligadas essencialmente à gênese do grupo. No decorrer da nossa história, mudamos em ênfases e alcances, todavia os delineamentos gerais já foram dados desde início. Da mesma forma que os limites das nossas estratégias estavam traçados, neste caso não por nós mesmos, mas pela realidade em si (o que não quer dizer que o processo histórico não se reflita neles). É neste sentido que estratégias devem existir na medida do possível, do realizável historicamente. Ou seja, se propor a algo que de fato não esteja no horizonte histórico, não só é burrice, como também é um meio de fracassar nos objetivos mais imediatos e elementares. As estratégias se sustentam em uma precisa leitura da realidade.

Definindo a estratégia do AdM: a) lutar pela perspectiva do Trabalho na universidade, que na sociedade capitalista significa uma universidade pública, gratuita, de qualidade; neste sentido, lutamos contra os ataques Neoliberais à educação superior. Junto a isso, temos um objetivo político-organizativo no qual se traduz pela: b) reorganização do movimento estudantil, no caso a re-formação de um movimento estudantil de esquerda combativo, autônomo e radicalmente a favor dos trabalhadores na luta de classes. A nossa estratégia compõe uma unidade desses dois pólos que estão necessariamente juntos, apesar de não se identificarem.

Mesmo fazendo uma opção de classe pelos trabalhadores, o AdM não é, tal como o ME, revolucionário, por mais que engendremos uma luta anti-capitalista. Nós atuamos sobre a esfera da educação, a partir da qual não se revoluciona a sociedade. Seria um contrassenso imaginar, em um regime capitalista, uma universidade dos trabalhadores. Da mesma forma que uma universidade pública e gratuita não ultrapassa a sociedade de classes do capital. É precisamente por isso que a luta efetiva por uma universidade pública e gratuita atende aos objetivos do Trabalho, desde que relacionada a uma luta que exceda os muros da universidade e que vise aguçar as contradições do capital e fortalecer o Trabalho em todas as esferas sociais.

A luta contra a Reforma Universitária é uma resistência contra os ataques a universidade que temos hoje (ou que tínhamos, visto já o estágio das mudanças). Por muito tempo vivenciamos um momento defensivo do ME contra esses ataques. Apesar de vivermos em uma conjuntura brutalmente contra-revolucionaria ( ou seja, a revolução não está posta na ordem do dia), é necessário que o Movimento estudantil se articule e se fortaleça nacionalmente no intuito de uma atuação ofensiva e propositiva na construção de um projeto de universidade que queremos, sem perder nosso horizonte estratégico, ou seja a superação do Capital

Para atingir a nossa estratégia, em todas as suas dimensões, é preciso empreender táticas que nos encaminhem no seu sentido. É preciso ter claro que por mais que não seja fácil definir exatamente qual tática é mais adequada dentro da complexidade de cada momento, torna-se necessário todo o esforço e estudo para que a partir da leitura mais próxima possível da realidade, adotemos as táticas mais acertadas, visto que táticas equivocadas podem levar a erros e derrotas históricas com consequências extremamente negativas apara a luta de classes. Por mais que dois revolucionários igualmente comprometidos com a causa defendam táticas bem distintas para determinada situação, não significa que as duas são igualmente adequadas. A estratégia visada, com seus inerentes princípios, e o processo histórico circunscrevem os limites possíveis das táticas acertadas. A tática não é meramente uma construção subjetiva. Eis aí nossa principal tarefa e responsabilidade enquanto Grupo “Além do Mito...”.

Aqui seria impossível definir quais táticas visamos adotar além do nível mais abstrato que fizemos. Podemos no máximo apontar alguns modos necessários nos quais elas se inserem. Deste modo, a discussão abaixo é essencial no presente contexto, sendo fundamental para a intervenção do AdM.

As táticas só se constituem enquanto efetivas mediações para os objetivos estabelecidos quando articuladas organicamente. Do contrário, as ações parciais perdem o sentido e tendem a se neutralizar. Portanto, é preciso que encaremos o ME enquanto um todo unitário, por mais que ele tenha suas subdivisões organizativas (entidades de base, geral, de área). A sua intervenção deve se encaminhar em um sentido e para o mesmo fim, sem deixar de resguardar as especificidades próprias de cada campo de atuação. As particularidades de cada curso com seu correspondente movimento ganham dimensão real na totalidade que se inclui. Assim, deve-se direcionar a práxis que deseja apreender o geral e o específico. Não há como intervir no todo sem entender suas partes, bem como as partes são incompreensíveis excluídas da totalidade.

Estamos hoje em luta contra a Reforma Universitária Neoliberal, não apenas contra a precarização deste ou daquele curso. Se limitarmos a luta a um curso qualquer (particularidade) o resultado óbvio é o fracasso, pois implica no não reconhecimento de todo complexo que é responsável pela precarização do curso em questão. Fatalmente não atacaríamos os fatores causais e os seus respectivos agentes decisivos, colocando todo nosso empenho em um beco sem saída. Agora, se articulamos a luta no curso em particular a todo o complexo que faz parte, não só tornamos possível a não- precarização deste ou daquele curso, como ainda aumentamos nossa possibilidade real de vitória total, pois faríamos um embate que contemplaria o sentido geral com suas particularidades. Neste sentido é preciso que a militância do ME direcione sua luta.

O próprio ME deve ser uma unidade orgânica, sem a qual não haverá movimento reorganizado. O “Além do Mito...” visa justamente ser um instrumento para tal. Um instrumento que, por um lado, sozinho não é capaz de garantir estes objetivos, mas que, por outro, é indispensável para essa articulação do ME dentro da UFAL.

A experiência recente do ME da UFAL é demonstrativa, presenciamos o descompasso de interesses entre entidade geral (DCE) e entidades de base (CA´s). De um lado, CA´s e DA´s dispostos à luta, mas que eram podados pela direção do DCE e acabavam sucumbindo às suas próprias limitações. Inclusive as últimas atuações gerais do movimento que tiveram consequências reais foram baseadas em frentes de atuação por fora do Diretório Central dos Estudantes, o qual teve que vir à reboque do próprio movimento, mesmo a contragosto. O inverso, caso acontecesse, se revelaria tão prejudicial quanto, pois um DCE voltado para luta precisa de respaldo nas bases, sendo um pólo de articulação dos CA´s. Do contrário, as entidades só se voltariam para seu próprio umbigo, caminho este que leva, no mínimo, à paralisia e, no máximo, à burocratização e aparelhamento.

Sendo assim, se queremos reorganizar o ME pela base e lutar contra os ataques neoliberais à educação superior precisamos hegemonizar nossas concepções por todo o movimento, em todas as suas instâncias. Isto é, precisamos que nossa militância se faça presente e atuante em todos os níveis, participando em harmonia tanto do movimento em seu próprio curso (junto à sua base) como do movimento geral. O AdM precisa, portanto, ocupar os CA´s e DA´s e o movimento geral, para que – dentro dos princípios acima explicitados – tenha capacidade real de intervenção no ME, fortalecendo-o para a luta. Se ficássemos unicamente junto ao movimento geral acabaríamos nos afastando das bases, sendo então incoerentes com nossas concepções, do mesmo modo que, se nos restringimos aos movimentos de área sacrificaríamos todo o nosso projeto.

O momento histórico atual sempre é importantíssimo, a conjuntura vivida sempre é extraordinária, os próximos desafios sempre são difíceis e as tarefas sempre estão inconclusas. Nós do AdM não nos negamos a viver tudo isto e, se não conseguimos nos livrar da doença congênita do ME de cair regularmente em refluxos, pelo menos nos organizemos para tornar nosso ápice avassalador!

ALÉM DO MITO QUE LIMITA O INFINITO!

O “Além do Mito...” se reúne todos os sábados, na Praça Sinimbú, a partir das 14h. Participe!

Contatos: http://grupoalemdomito.blogspot.com

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Moção de solidariedade aos moradores de Pinheirinho



Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.

Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.

(Brecht)


No ano de 2003 o bairro de Pinheirinho, na cidade de São José dos Campos, foi ocupado por famílias no intuito de pressionar o governo a implementar com mais agilidade as políticas habitacionais prometidas pelo prefeito tucano Eduardo Cury durante as eleições.

A área até então pertencia a empresa Selecta que faliu em 1991 e deixou uma dívida em impostos para com o município(IPTU) em mais de 10 milhões. Com a derrocada o terreno passou para o dono da empresa, o Libanês Najis Naha, um especulador conhecido por manipular e inflar artificialmente os preços das ações no escândalo da quebra da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro em 1989 (com isso a hegemonia passou para São Paulo) e por ser preso na operação Satiagraha em 2008, junto com o prefeito de São Paulo Celso Pitta e o banqueiro Daniel Dantas.

De 2003 até o presente ano mais de 1500 famílias sem acesso à moradia instalaram-se no bairro e desde então inúmeras tentativas de negociação foram feitas com a prefeitura no intuito de legalizar juridicamente o espaço ocupado. Cabe aqui lembrar que a problemática do acesso à moradia nas cidades já foi alvo de intensos debates, em 1963 no governo de João Goulart (no contexto das reformas de base) realizou-se o Seminário de Habitação e Reforma Urbana, até os dias atuais onde a pressão da sociedade civil, dos partidos e das organizações populares culminou na criação do Estatuto da Cidade (Lei número 257, de 10 de Julho de 2001), dentre os pontos presentes no Estatuto um se destaca se analisado na conjuntura do massacre de Pinheirinho, trata-se da função social da propriedade, que significa que a propriedade terá seu uso condicionado ao bem-estar social, ao interesses coletivo (como se isso fosse possível numa sociedade dividida em classes) e não ao interesse privado. O Estado só deve proteger na esfera jurídica uma propriedade se ela estiver cumprindo sua função social, e a área de Pinheirinho é reflexo da incapacidade do Estado de resolver o antagonismo entre capital x trabalho.

A desigualdade no acesso aos bens necessários a reprodução humana é uma característica fundamental e necessária a reprodução do capital, e a organização/ocupação dos territórios acaba por reproduzir essa lógica excludente: temos no campo as melhores terras ocupadas pelo latifúndio e pela monocultura ligada ao agronegócio, e as terras restantes pobres em nutriente, ou cujos nutrientes já tenham sido sugados, ocupadas por famílias pobres. Na cidade o que podemos visualizar é o mesmo, a segregação espacial coloca de um lado belíssimos prédios, residenciais e resorts nas orlas brasileiras, enquanto que para a maioria da população resta as áreas impróprias para habitação: encostas, morros, favelas, grotas e etc. Um olhar mais profundo sobre os habitantes de Pinheirinho irá perceber que trata-se de pobres, negros, mulheres, idosos, grávidas, crianças, nordestinos e etc.

O “Grupo Além do Mito...” ao mesmo tempo em que presta solidariedade aos moradores de Pinheirinho, repudia o massacre orientado pelo governo de São Paulo, que desde o início da operação conta com helicópteros jogando gás de pimenta, bombas de gás lacrimogênio, balas de borrachas e cacetetes contra paus, pedras e palavras de ordem. Como resultado da ação temos centenas de pessoas sem moradia e a morte de 5 pessoas, entre elas uma criança atingida por uma bala de borracha na veia jugular.



Todo apoio a luta e a resistência dos trabalhadores de Pinheirinho!

Não a desocupação promovida pelo Prefeito Eduardo Cury e sua tropa de choque!

A favor da Reforma urbana e da ocupação de propriedades ociosas!

Em defesa do socialismo e da revolução!

Grupo “Além do Mito...” 24/01/2011

domingo, 31 de julho de 2011

Tese do Grupo "Além do Mito..." - UNE ou ANEL - Eis a questão?

UNE ou ANEL - Eis a questão?

Após o Congresso Nacional de Estudantes, ocorrido em 2009, no qual se fundou a Assembléia Nacional dos Estudantes Livre - ANEL, nunca tinha se apresentado, em Alagoas, a necessidade tão premente de responder à questão acerca da construção ou não dessa entidade como nos últimos quatro ou cincos meses. Identificamos que as razões do fenômeno mencionado já apontam para a resposta a ser dada a esse questionamento, ainda que ambas não se esgotem.

Entretanto, o propósito do presente texto é, antes de tudo, contribuir para a discussão acerca do processo de reorganização do movimento estudantil, sem perder de vista em nenhum momento, que atualmente a ANEL se apresenta enquanto principal experiência desse processo, por mais que com ele não se identifique por completo. Entendemos assim, pois, em primeiro lugar, que a ANEL, e o PSTU, foram responsáveis por reduzir a discussão que envolve o processo de reorganização do movimento estudantil à experiência por eles construída. Em segundo lugar, a ANEL, nesses dois anos de fundação, se mostrou incapaz de aprofundar a tendência necessária de rompimento cabal com a União Nacional dos Estudantes - UNE. Desenvolveremos esses elementos mais adiante.

Noutro documento (Para onde foi a reorganização?) já expusemos, quando fizemos uma análise circunstanciada do Congresso Nacional dos Estudantes, os passos dados pelo movimento de reorganização até a fundação da ANEL, passando pela CONLUTE, pela Frente de Luta Contra a Reforma Universitária e, pelo Encontro Nacional de Estudantes. Neste texto não iremos nos repetir, porém, é extremamente necessário que se resgate os debates sobre conjuntura nacional, concepção de movimento estudantil, entidade nacional surgida na base, entre outros que estiveram outrora na ordem do dia.

Sendo assim, nossa análise, no presente texto, não se deterá na especificidade do 1º Congresso da ANEL, mas intentará expor uma leitura desta entidade nos seus aspectos mais gerais, tendo eles sidos expressados ou não nesse espaço nacional.

Dos primeiros sinais de vida...

Não obstante o DCE da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas ter deliberado pela sua construção em meados de outubro de 2010, podemos afirmar que a ANEL somente despontou na cena política estudantil de Alagoas no dia 19 de março de 2011, quando foi realizada sua primeira Assembleia Estadual.Isso porque esta entidade não pode se afirmar enquanto não tinha sido iniciada a reestruturação regional do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado.

Ou seja, enquanto o PSTU esteve enfraquecido em sua organização no movimento estudantil, a construção e os debates acerca da ANEL não surgiam no horizonte próximo dos estudantes. Exigiu-se que uma subjetividade, mesmo que coletiva, organizada num partido, forjasse uma necessidade que não estava objetivamente posta, comprometendo, deste modo, a própria prática concreta, uma vez que os passos dessa entidade estarão seriamente limitados no que diz respeito ao atendimento dos principais objetivos reservados à entidade que deveria surgir do processo de reorganização. Aspecto, este, anunciado desde o CNE, em 2009.

No que toca aos debates, a Assembleia Estadual foi inaugurada a partir das falas de quatro membros do PSTU que tentaram traçar a linha de abordagem de quatro bandeiras. Eram elas: o apoio e a inspiração nas revoltas árabes, a luta por Assistência Estudantil e contra o Novo Enem, o combate às Organizações Sociais e, a necessidade de fazer surgir e fortalecer a ANEL enquanto alternativa a UNE.

Pois bem, diante da conjuntura geral de duas, das três universidades públicas do Estado, havia um número sensivelmente maior de pessoas presentes - vários deles estudantes secundaristas - na assembleia com a ânsia de discutir e traçar medidas concretas na luta contra o Novo Enem. Porém, a discussão mais importante do espaço se deu de maneira completamente desorganizada, tanto no que diz respeito à análise e clareza acerca do projeto, quanto na incapacidade dos companheiros do PSTU em direcionar a discussão e apontar possíveis caminhos, demonstrando, naquele momento, que a principal tarefa era apenas propagandear a ANEL.

Ademais, naquele último eixo fizemos uma intervenção para problematizar o papel da ANEL e a concepção de entidade que estava sendo defendida pelo companheiro, afirmando que era imprescindível, para que pudéssemos compreender corretamente o ser da ANEL, que compreendêssemos, antes de tudo, a dinâmica e a luta dos elementos que compuseram e compõe sua gênese. Atentando para o fato de que o exercício de análise dos elementos genéticos da ANEL não se resume à critica ao momento de sua fundação – o CNE – mas, sobretudo, é o apontamento das limitações de seu desenvolvimento a partir da compreensão de seus elementos constitutivos.

O CNE, em 2009, representava o passo mais organizativo, ainda que inseguro, do processo de reorganização do Movimento Estudantil. O que significa dizer que existia (e ainda existe) um enorme leque de temas, posicionamentos, concepções de mundo, de organização, de luta... etc. que precisavam ser remontados, ou melhor, reorganizados na consciência objetivamente posta dos estudantes. Discutir esses temas, tirar nossos posicionamentos, ou seja, redefinir nossos princípios fundamentais é – ou deveria ser – o primeiríssimo momento do primeiro passo, visto que reorganizar, na nossa concepção, é organizar de tal forma que se crie o novo. E para que o que se crie seja realmente novo – e não uma reatualização do velho – é indispensável construir novas bases, novos princípios. Ou como deixamos bem claro anteriormente: “As tarefas postas para o Congresso envolviam, pois, o debate acerca de uma gama de temas que, muito além da necessidade de uma Nova Entidade, envolviam os princípios que norteavam a reorganização, seus métodos, bandeiras políticas, concepções de mundo, de educação e mesmo de ME.” (Para onde foi a reorganização?, 2009).

Infelizmente, não foi o que aconteceu no CNE. A clara hegemonia do PSTU nos espaços do Congresso assim como na própria Comissão Organizadora, marcou claramente como o Congresso e sua organização foram fortemente influenciadas pela política tirada pelo partido. Não queremos com isso dizer que é ilegítimo estar em maioria – ou nada que flutue perto disso – queremos apontar a forte responsabilidade do partido quanto à criação e ao desenvolvimento do Congresso. Nada mais óbvio e sensato, uma vez que o Congresso é feito pelos estudantes que estavam presentes, e se a maioria dos presentes tinha no PSTU a semelhança do que há de mais avançado nas lutas – orgânicos do partido ou não – para esses, a posição do partido seria a mais acertada, a que deve guiar esse passo da reorganização.

A soma da estrutura inicial com outros acontecimentos que tornaram, no mínimo, complicado o decorrer do Congresso nos mostra o quanto a organização do CNE se afasta do objetivo que queremos atingir. Como, por exemplo, a inclusão de mesas em momentos desapropriados pela falta de tempo, enquanto que houve momentos sem nenhuma programação; supressão de GT’s, que sem dúvidas são os espaços dos mais valiosos para as discussões – inclusive para as minorias; a divisão da leitura das Teses em dois espaços, com a supressão do segundo; e tantos outros detalhes mais ricos estão expostos em nosso texto de avaliação já citado.

Na plenária final se concretiza a aparência conturbada do CNE. Iniciada com a votação dos consensos tirados dos GT’s e das Teses que puderam ser analisadas, ao invés de prosseguir, discutir e votar, depois disto, os pontos de dissenso – como conjuntura, gênero, educação e cultura – assim firmando boas bases, embora ainda imaturas, para o Novo Movimento Estudantil, o PSTU apresenta uma questão de ordem e propõe que a pauta sobre a criação ou não de uma Nova Entidade fosse adiantada e, mais uma vez, essa proposta é atendida. Ou seja, o partido propôs que fosse votada a criação de uma Nova Entidade sem antes, ao menos, discutir os novos eixos que iriam erguê-la!

Ora, se uma Entidade não pode erguer-se sem eixos, e se só foi discutido uma parte do seu conteúdo, deixando os dissensos – parte mais importante para essa composição – escancaradamente de lado, essa parte que falta só pode ser preenchida pelos velhos conteúdos, pelas velhas práticas, pelo Velho Movimento. Já nesse primeiro momento, o piso desta Nova/Velha Entidade já se apresentava liso e escorregadio.

Ademais, quando a proposta que defendia a criação da nova entidade foi aprovada, a partir da tese que era numericamente inferior, diante das demais teses, todos os demais setores, minoritários, se viram isolados da articulação nacional do processo de reorganização, enfraquecendo, assim, a própria construção deste. O fato do PSTU ser o setor majoritário deste processo implica numa maior responsabilidade sobre os rumos e os passos que esse processo venha a dar. Isso precisa ser constantemente lembrado.

ANEL no Movimento Estudantil

É certo que a avaliação que fizemos sobre o CNE em 2009 não estava petrificada e que nossa posição, inclusive a respeito da ANEL, pode sofrer alterações durante o decorrer da história. Mas, para isso, a Entidade teria que lutar arduamente na tarefa de reverter determinações que sua gênese impõe em seu desenvolvimento. Avaliamos, já em 2009, que não era frutífero para o ME se arriscar nessa tarefa, pois a possibilidade de mais uma derrota histórica se faz tão presente e tão forte que acabaria por colocar em risco os poucos avanços já conseguidos até agora, inclusive com a importante colaboração do PSTU.

Nossa posição continua a mesma unicamente pelo motivo de que a ANEL está caminhando justamente por onde sua conturbada gênese determina. Isso significa que não tem conseguido reverter por completo essas determinações, nem nos mostra indicações de uma objetiva potencialidade para tal. Ou seja, continua afastada do que pretendemos para a reorganização.

Nos dois últimos anos, desde sua fundação, nenhuma grande luta foi travada pela entidade onde não tivesse o PSTU. Aliás, ela não existe onde não há o partido, a entidade é feita quase que exclusivamente pelo partido socialista dos trabalhadores unificado, ainda que não seja a maioria de fato. A construção recente da ANEL/Alagoas representa bem isto – a necessidade da construção de uma entidade nacional vem à tona quando o partido volta a se reestruturar no estado.

Isso está mais do que claro, quando, no começo do texto, afirmamos que a necessidade premente de responder sobre construir ou não a “Nova” Entidade, dentro de Alagoas, se faz exatamente no momento em que o PSTU aqui cresce. É espantosamente confusa como a extrema urgência dessa questão surge há, no máximo, cinco meses, apesar da sua criação datar de 2009? Para nós, não.

Cabe aqui relembrarmos um dos principais argumentos do PSTU – senão o maior deles - para se fundar uma nova entidade em 2009: precisamos de uma nova entidade para potencializar as lutas que estão decorrendo do ascenso do ME nacional. Ora, parece que esta tarefa (potencializar as lutas) não foi o que se pode verificar nestes dois últimos anos.

A ANEL configura uma entidade representativa dos estudantes, em nível nacional, que depois de concebida vem buscar sua legitimação na base. Como pode, então, uma entidade que não tem seu reconhecimento no seio estudantil ser representativa? O debate de seus militantes quase sempre forja uma conjuntura não existente. Não temos uma base que reclame uma entidade de porte nacional somente porque a União Nacional dos Estudantes não serve mais para fazer luta.

Uma vez afastada da base, o que segura a Entidade em pé são as táticas tiradas dentro do partido, que faz com que seus muitos militantes cerrem os dentes e saiam para a militância com o objetivo último de anunciar a ANEL a todo custo, propagandear suas bandeiras, agitá-las o máximo possível para que todos possam ver que uma nova alternativa de direção está posta, agora só falta segui-la para conquistar as vitórias estudantis. É por isso que de 2009 até o início de 2011 não estava na pauta do dia a sua construção, não havia esse questionamento, pois a base dos estudantes não sente essa necessidade, ou não acha possível dentro da atual conjuntura. E hoje, essa questão não é colocada pela base, mas sim pelos próprios militantes do partido que exauridos de esperar o reconhecimento da base, perguntam-se, eles próprios, o motivo pelo qual todos os demais estudantes não a constroem.

Como a ANEL não tem esses posicionamentos fundamentais reconfigurados e nasce em um contexto de intensa crise de consciência, por mais que eles anunciem, levantem e balancem a bandeira mais correta possível, aquela realidade não está para os estudantes. E nem pode estar sem uma cuidadosa e gradual elevação dessa consciência. Defendendo muitas das vezes a bandeira correta, os militantes que constroem a ANEL certamente se estranham no meio do caminho: com a bandeira acertada em mãos, digna do Novo, realizam ações “dignas” do Velho; fruto de uma leitura fragmentada da realidade, não conseguem compreender a ocorrência de tal fenômeno, buscando explicações aparentemente plausíveis para justificar tais práticas, na tentativa de acalmar suas próprias mentes e dar uma resposta aos militantes mais sérios diante dessas afirmações dicotômicas produzidas pela própria Entidade. Por exemplo, quando, não raramente, atribuem grande parte da culpa da necessidade dessas práticas indignas aos setores que não constroem a ANEL e por isso enfraquecem as pernas da mesma.

Uma vez criada a Entidade que defende as bandeiras mais acertadas possíveis, o PSTU acha que o que falta é divulgar a ANEL dentro de atos, através de listas de e-mails, em falas em público e no convite para seu congresso. Como se os estudantes estivessem todos plenamente conscientes do que devem fazer, maturado todo o debate pertinente a uma reorganização e só o que falta é que alguém chegue e apresente uma Entidade nova que balança as bandeiras corretas – e nesse momento, como em um passe de mágica, os estudantes se sentiriam tão identificados que o processo de lutas em pouco tempo começaria a eclodir.

Do Congresso Nacional da ANEL

O primeiro Congresso Nacional da Entidade foi realizado na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro nos dias de 23 a 26 de junho deste ano. O Congresso contou com a participação de meados 1700 estudantes, sendo 1200 deles delegados, além de professores e trabalhadores.

O Grupo “Além do Mito...”, por entender que se tratava de um espaço nacional importante da reorganização da nossa categoria, deliberou pelo enviou de observadores ao congresso. Essa deliberação também serviria para nos fornecer uma maior riqueza de detalhe e uma maior quantidade de elementos para aprimorar nossa avaliação.

Estava muito claro para nós, porém, antes do início do Congresso, que este seria um espaço em certo sentido privilegiado, diferenciado, receptáculo de debates, mesas, e pessoas disposta a discutir e elaborar políticas para o movimento estudantil sob uma perspectiva de esquerda e combativa. Foi de fato, um momento que certamente ficará guardado na memória dos militantes lá presentes, pois toda a estrutura do Congresso e as experiências lá ocorridas estão muito longe do que acontece no nosso cotidiano da militância estudantil. O contato com pessoas desconhecidas que, mesmo aparentemente, compartilham de um mesmo objetivo, ou a contribuição de pessoas que não eram estudantes, as falas e até as discussões ocorridas, certamente emocionaram, se não a todos, a esmagadora maioria dos congressistas. E tudo isso por certo contribui na identificação do militante para com a Entidade.

Pois bem, pousando-se o olhar sob o fato com uma maior riqueza de detalhes, percebemos que titulá-lo como positivo ou negativo não é tão simples assim. Na UFAL, se ampliarmos o campo de análise, esses mesmos militantes, inclusive os delegados tirados para o Congresso, fizeram parte de um processo muito conturbado no contato com o ME.

A tiragem de delegados não foge a essa regra e, como se não bastasse a insuficiência da discussão, na UFAL existiram tristes realidades como delegados sendo eleitos no último dia antes do Congresso – no curso de Geografia – e até mesmo a espantosa notícia de estudantes delegados que mal sabiam o que iriam fazer no Rio de Janeiro, ou, que iria sem ao menos saber que sua ida ao Congresso era como delegado.

Para se ter uma idéia, Em 2009, durantes as discussões que envolveram a eleição para delegados do Congresso Nacional de Estudantes, o Centro Acadêmico de História, reconhecendo a impossibilidade de se realizar um debate adequado com a base estudantil no espaço de tempo disponível à época, deliberou por não enviar delegados, mas observadores, pois, tal postura não coadunava com a concepção de novo movimento estudantil por eles praticada.

Além disso, pudemos perceber que os GT’s reservados aos debates fundamentais acerca da nova entidade, do processo de reorganização do ME, de seu histórico e de concepção de entidade não conseguiram aprofundar a leitura do processo como um todo, na qual pudéssemos construir a partir dela, expressando a completa incompreensão do papel que um novo instrumento deveria cumprir.

É desses fatos concretos que tiramos a afirmativa exposta anteriormente de que a ANEL não consegue romper totalmente com as práticas da UNE, ou seja, não consegue reverter a determinação histórica de sua conturbada gênese, apesar de terem programas rigorosamente diferentes entre si.

Diante disso, somos forçados a concluir, no que diz respeito ao processo de reorganização do movimento estudantil, que a ANEL em nada avançou na principal tarefa posta em face desse processo, a saber, a negação/superação dos métodos e concepções que balizam a teoria e a prática da União Nacional dos Estudantes.

UNE ou ANEL: não é esta a questão

Convivendo a ANEL com a base estudantil, conseguindo delegados para seu congresso na grande maioria das vezes sem dar chances para o conhecimento da totalidade do processo que envolve a Entidade e ocultando suas falhas, o PSTU tenta forjar a realidade: cria a falsa polêmica UNE x ANEL.

Tenta, dessa maneira, forjar a realidade com ideias “mortas”, pois, ao colocar a centralidade do problema da reorganização repousada sobre essa falsa questão, o partido cria uma compreensão aparente da realidade, existente apenas nas ideias. Uma vez consolidada a superação formal da UNE, já que a superação material é ainda tarefa da reorganização, o PSTU, ao colocar dessa forma, pressupõe a superação plena da UNE e, como se não bastasse, torna sinônimo ANEL e Reorganização. Tal postura do partido é passada aos militantes da ANEL que a reproduzem em grande escala, dando certo ar de veracidade e legitimidade, pois aparentemente afasta do PSTU a responsabilidade de ter criado tal polêmica, pintando tal falsidade como “o discurso dos próprios estudantes”.

Pensando dessa forma em relação às duas entidades, os estudantes incentivados pelos problemas do seu curso, da sua Universidade e da sociedade, e que acabaram de entrar na vida universitária, ou até mesmo militantes mais antigos do ME, que não tem claro a totalidade dos acontecimentos que compõem a Entidade,logicamente passam a construir a Entidade.

Ao acreditar na veracidade dessa polêmica, junto com a metade da verdade da história referente a UNE, esses estudantes se ligam a ANEL. Acreditando, dessa forma, estarem no pico da contribuição para a reorganização e com isso colocam-se à disposição de defender a ANEL com unhas e dentes – uma atitude louvável, se não fosse baseada num equívoco. O que termina por acontecer é a manifestação cada vez mais clara das práticas do Velho Movimento. Agora, mascarado de novo, consegue convencer os estudantes com a ajuda dessa falsa polêmica. Além disso, espalham essa notícia como questão de vida ou morte, agora ou nunca, UNE ou ANEL, de maneira mais ampliada a cada novo estudante que desliza e cai na sua armadilha, comprometendo, dessa forma, toda a reorganização e o próprio Movimento Estudantil.

Antes de pedir passagem, o NOVO precisa aprender a falar...

De tudo quanto foi exposto, gostaríamos de chamar atenção para alguns pontos finais. O primeiro deles é que estamos operando uma discussão de entidade fundada em bases distintas daquela levada a cabo pelo PSTU, setor hegemônico do ANEL. Essa distinção se evidencia quando percebemos que a partir do momento no qual o partido leva a frente um projeto de reorganização materializado na ANEL, indicando a radicalidade de suas bandeiras, sua autonomia financeira e a democracia interna enquanto elementos que a distingue da UNE, compreendemos que sua análise da reorganização fundamenta-se em parte da realidade e dos sujeitos que nela atuam.

Ou seja, há uma falha metodológica realizada pelo partido quando lê a conjuntura olhando apenas as entidades que nela habitam, quando enxergam, apenas, a expressão formal da imbricação real de aspectos subjetivos e objetivos, sem levar em conta a gama de elementos articulados que dão base a essa superestrutura. Nessa linha o PSTU continuará identificando as vitórias da entidade sempre que esta ocupar um espaço que antes estava “vazio”, sempre que ela for o vetor responsável por colocar algo onde antes não existia nada. Ou melhor, sua própria criação é enxergada enquanto vitória, pois, anteriormente, não havia uma entidade de caráter nacional que defendesse a luta contra a reforma universitária, por exemplo.

Interessante perceber que sob esta perspectiva o debate perde muito de sua riqueza e acaba se reduzindo a um mero procedimento de análise quantitativa, quando precisaríamos lutar, diuturnamente, pela conquista dos elementos qualitativos. Repetimos, é positivo que estudantes antes apáticos, hoje estejam olhando para o mundo de maneira mais crítica e tentando se organizar para praticar coletivamente essa crítica. Contudo, a questão que precisa ser respondida por todos os setores que fazem parte desse processo é: quanto a experiência dos dois anos da ANEL acumulou para o movimento de negação/superação, de rompimento, não apenas com a UNE, mas com tudo que ele representa?

Disto, extrai-se a ilação que, malgrado toda a propaganda operada pelo PSTU, o novo ainda não está pedindo passagem, na verdade, ele possui sérias dificuldades para aprender a falar, seu antigo idioma continua a lhe perturbar, suas palavras, na nova língua, precisam ser traduzidas a partir da velha, quando não ocorre de serem cognatas, ele permanece incapaz de formular frases autonomamente, sob a lógica da nova língua e, por isso, não consegue superar o velho....

Indo além da falsa questão...

Desde quando existe, já dentro do processo de reorganização e rompido com a UNE, o grupo vem consolidando sua concepção de movimento, sempre voltado para a base dos estudantes. A necessidade de uma entidade que supere a UNE está pressuposta desde o momento em que a mesma não pode mais ser a nossa representação. Nega-se, deste modo, suas práticas de movimento distanciadas da base, burocráticas, institucionalizadas e é feito o debate sobre o total desmantelamento do aparelho que um dia foi o comitê de estudantes organizados com o intuito de mudar as condições de educação, bem como a sociedade em que vivem.

Sendo o grupo "Além do Mito...", de forma sucinta, um grupo de estudantes que se organizam para estudar e atuar politicamente, na Universidade Federal de Alagoas, por uma universidade realmente pública, gratuita, laica, de qualidade e socialmente referendada, com o objetivo de trazer à tona as contradições da sociedade reproduzidas dentro das Universidades, lutar contra as diversas formas de opressões, utilizando-se do processo de tomada de consciência dos estudantes, numa perspectiva classista, a ANEL não corresponde à nossa concepção de ME.

O processo de reorganização, na nossa visão, impactado negativamente pela criação da nova entidade, não estanca aí. A ANEL não é o produto final da reorganização e sim um de seus frutos. Dirigem-se a nós como se a questão fosse construir a UNE ou construir a ANEL, mas a questão correta é construir a UNE ou estar comprometido com o processo de reorganização. Não nos sentimos forçados a construir a ANEL quando esta não atende às necessidades dos estudantes, que em nossa opinião é participar e reconhecer o ME, e, através da base, fazer movimento de práticas e condutas diferenciadas daquelas que todos nós queremos combater.

Que fique bem claro, contudo, que a Assembleia Nacional dos Estudantes Livre não é nossa inimiga. Isto não poderia ser quando se constrói a reorganização. Assim, nós construiremos taticamente junto com a ANEL, quando assim for necessário, mas não podemos nos abster da crítica à mesma, por mais dura que seja, muito menos construir algo que é paradoxal à concepção do próprio grupo.

Nossa tarefa ainda é de reestruturar as bases para um Novo Movimento Estudantil, estreitar o máximo possível nossas concepções, redefinir nosso posicionamento, clarear nosso objetivo, ou seja, elevar a consciência dos estudantes para que assim torne objetivamente possível uma entidade de representação dos estudantes em âmbito nacional. Dessa maneira, teremos ideias vivas e coerentes, pois possíveis de serem colocadas em prática.

Não estamos com isso, excluindo a necessidade de uma articulação de caráter nacional. Isso sempre foi e é o horizonte do grupo. Alias, cabe relembrar nossa proposta no CNE em 2009: Criar um mecanismo que pudesse reunir nacionalmente os setores comprometidos na defesa da universidade pública brasileira. Isso -- para que fique bem claro -- exclui obrigatoriamente a UNE, pois a mesma não passa de um braço do Estado no ME.

Portanto, reafirmamos a extrema urgência em unificarmos todos os setores comprometidos neste defesa para que possamos minimamente somarmos forças neste momento de descenso do ME, tanto nacionalmente quanto em cada estado do país. Este primeiro passo é importantíssimo para este momento defensivo que estamos vivenciando na esquerda como um todo.

Grupo Além do Mito...

Julho de 2011

terça-feira, 14 de junho de 2011

Além do Mito...

Nossa luta é pela educação
mais humana possível:


aquela que torne crível
dentro de cada indivíduo
o poder que existe na sua mão.


Essa consciência, ainda
que digam que não,
é o instrumento para
escrevermos nossa história.


Lutamos não por sermos
diferentes dos demais.
Pelo contrário, nos
sentimos tão iguais
que sentimos doer
forte a dor do mundo.


A única diferença
é não acreditarmos
no mito de que não podemos
ir além do que somos hoje


É por isso que vem
do fundo um grito
forte, firme e esperançoso:


revolução!




Poema feito por Rafael João para o grupo "Além do Mito..."

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

“NÃO HÁ VAGAS!”

Grupo “Além do Mito...”

Aqui, na Universidade Federal de Alagoas, estamos vivendo um problema que não vem recebendo merecida atenção muito devido à conjuntura defensiva em que os movimentos combativos se encontram, refletindo diretamente no movimento estudantil e deixando certas questões a mercê de um onda silenciosa...



Vivemos a realidade de um Restaurante Universitário (R.U) extremamente limitado, oferecendo apenas 1000 vagas para comensais dentro de uma comunidade estudantil que supera os 18 mil discentes e que tende a crescer a cada ano, principalmente depois da aprovação do pacote de projetos de desmonte da educação superior do governo Lula (REUni, Novo ENEM, etc.) pela gestão de nossa universidade.



Neste ano, houve uma grande entrada de turmas no segundo semestre, acrescentando mais de 1500 novos estudantes à UFAL, contudo foi publicizado que o R.U. abria uma quantia absurdamente pequena de apenas 112 vagas. Dentre esses novos estudantes, apenas 7,2% terão chance de serem comensais no Restaurante Universitário.



Diante desse quadro, se faz necessária uma pergunta: por que os estudantes estão coniventes ao brutal ferimento à assistência estudantil? Acontece que os estudantes estão tão acostumados a “não ter” que se contentam quando recebem o mínimo dentro dos direitos que merecem, desconhecendo também seu potencial de conquistas em consequência de mobilizações organizadas!



O “Além do Mito...” fez um apanhado dos R.U.s em instituições federais e estaduais do Brasil todo, comprovando a mediocridade do nosso restaurante. Tais dados podem ser encontrados espalhados por cartazes pela instituição e em nosso blog. Além disso, ao analisar essa denuncia mais a fundo, há uma questão assombrosa relativa à acordos jurídicos feitos pela reitoria pós ocupação de 2007, que não foram cumpridos, tais como o compromisso por amadurecer um projeto “RU PARA TODOS”. Cabe aqui o Importante destaque da compreensão do papel de grupos estudantis na cobrança dos frutos de tais acordos não levados ao fim!



Semestre passado a Reitoria anunciou um novo restaurante a ser construído em 2011, também restrito, mas desta vez pra 2.000 refeições. Mas ainda não se sabe o quão universitário será. Nós estudantes devemos nos organizar para garantir que este restaurante seja realmente universitário, para que toda a Comunidade Universitária possa usufruir do mesmo sem limitações!



É por essas razões que trazemos a cabo a denuncia do que vem sendo vivenciado no Restaurante Universitário, no dia-a-dia dos estudantes da Universidade Federal de Alagoas: “NÃO HÁ VAGAS!”.



Sim, nós sabemos que hoje “NÃO HÁ VAGAS”, contudo não aceitemos que nos privem de mais um direito básico estudantil! Vamos abrir a boca para garantir nossos direitos e continuaremos nossa luta mesmo quando estivermos de boca cheia!

Chamamos todos os estudantes a participarem dessa luta!

Primeira reunião da campanha nesta quinta-feira (23/09/10), às 17h, na praça ao lado do Restaurante Universitário!



POR UM R.U. PARA TODOS!!!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Balanço do grupo além do mito sobre a campanha do plebiscito popular pelo limite da propriedade de terra

A campanha nacional do plebiscito popular pelo limite da propriedade de terra, organizada pelo Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, que congrega importantes entidades como a CNBB (conferência nacional dos bispos do Brasil) e a OAB (ordem dos advogados do Brasil) dentre outras, terminou neste domingo dia 12 de setembro na maior parte dos Estados do País. Por entender a importância de tal campanha o Grupo Além do Mito se dedicou a construir a mesma em diversas localidades da cidade de Maceió e dentro da UFAL participando deste que foi sem sombra de dúvidas um momento importante na luta pela terra em nosso país.

Entendemos no debate do plebiscito a possibilidade de recolocar a discussão da reforma agrária em nosso país para a população, o tema há muito se encontrava perdido ou tratado de forma pejorativa pela mídia. A campanha consistiu em um plebiscito com duas perguntas e um abaixo assinado cuja intenção seria propor ao congresso nacional um inciso na constituição limitando o tamanho máximo da propriedade de terras para 35 módulos fiscais (valor que próximo as cidades equivaleria a 175 hectares e próximo da região amazônica a 3.500 hectares).


Avaliamos tal proposta como obviamente uma proposta limitada, haja visto que uma propriedade média equivaleria a 15 módulos fiscais, ficando a posse de grandes propriedades ainda plenamente assegurada, e principalmente por esbarrar nos claros limites do Estado democrático de Direito, não tendo um horizonte para além disso. No entanto, é perfeitamente razoável a proposta na atual conjuntura defensiva em que se encontram os movimentos sociais e pautas como a luta dos trabalhadores sem terra encontram-se totalmente distante das massas. O maior ganho da campanha foi levar para a juventude e para os trabalhadores do Brasil a necessidade de repararmos esse erro histórico de nosso país, reavivar esse importante debate no seio de nosso povo.


O PLEBISCITO EM MACEIÓ

Por ser a única cidade em que atuamos, o grupo além do mito concentrou seus esforços na cidade de Maceió, ficando , portanto impossibilitado da nossa parte fazer qualquer avaliação sobre a repercussão do plebiscito no interior do Estado. Apesar de nossas debilidades, fizemos o possível para garantir todas as urnas que nos predispusemos: estivemos presentes no centro da cidade, na missa da padroeira da cidade, no grito dos excluídos e dentro do Campus A.C Simões da UFAL, construindo ombro a ombro com os companheiros da CPT e do MST esta importante tarefa.


Reiteramos que apesar dos erros e das debilidades estruturais do grupo nos esforçamos ao máximo, entendemos que a desorganização de alguns movimentos que estavam construindo a campanha (do qual o além do mito é um exemplo) são reflexo desse momento defensivo que vivemos, difícil para todos aqueles que constroem movimentos de resistência e de enfrentamento contra a burguesia.


Não podemos deixar de lamentar, porém, a ausência que se fez notar da parte de muitos sindicatos e partidos que outrora estiveram presentes em lutas como esta que foi travada no estado: a burocracia sindical, como muitos dos sindicatos ligados a CUT, que em muito pouco ou nada contribuíram na construção do plebiscito, isolou completamente muitos setores do movimento, enquanto que alguns giraram todas as suas forças para as eleições e esqueceram que a organização popular tem que ser feita de baixo. O plebiscito popular provou concretamente que os trabalhadores da cidade de Maceió encontram-se praticamente sem organizações políticas a seu serviço, a exceção da já mencionada pastoral da terra, do MST e outros movimentos do campo e importantes companheiros como o grupo “resistência popular”.


No que concerne ao movimento estudantil, lamentamos profundamente a ausência dos companheiros da ANEL na construção da campanha aqui no Estado, exceto por uma única urna na UNCISAL que mesmo assim ficou muito pouco tempo. Diferente do que aconteceu na UFAL, onde a unidade entre os grupos Além do Mito e Correnteza foi deveras importante e fortaleceu em muito a construção do movimento nesse ato. Nossa avaliação é que a nova configuração do DCE, através da proporcionalidade entre as correntes proporciona a possibilidade de que as forças atuem em conjunto e construam uma plataforma comum, diferente do que vinha acontecendo em que havia um isolamento claro das correntes do movimento, mesmo com determinadas concepções táticas muito semelhantes. Apesar de problemas ainda persistirem, principalmente em relação à falta de comunicação entre os próprios diretores da gestão, fica o exemplo de que a unidade de atuação pode ser construída e ser bem sucedida.


Por fim, fica a sensação de que muito ainda precisa ser reconstruído em Alagoas no que concerne a luta do povo. O além do mito espera contribuir com os importantes setores que estiveram a frente da campanha e se coloca a disposição para, na medida do possível ajudar a travar importantes batalhas como essa.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Nota sobre o aumento das passagens

Nota do grupo “Além do Mito...” sobre o aumento das passagens


O aumento do valor das passagens do transporte público na cidade de Maceió já se tornou algo tão corriqueiro que pode passar a ser incluído em nossos calendários. Toda primeira semana de janeiro somos presenteados por nossos governantes com aumentos abusivos que são, via de regra, muito mal combatidos pelos movimentos sociais do município.

No entanto, o início do ano de 2010 representou uma novidade, qual seja, o famigerado aumento anunciado para os primeiros dias do ano foi adiado pelo prefeito Cícero Almeida para o final do primeiro semestre. Adiamento este que representa interesses políticos, não preocupações com a sociedade alagoana.

Tão corriqueiro quanto os abusivos aumentos anuais são as ações perpetradas para se “combater” tais aumentos. É fato que as datas em que são marcados estes reajustes pegam desprevenidos os movimentos sociais e dificultam a resposta imediata de tais grupos perante os abusos da prefeitura. Contudo, por vezes, este argumento é colocado como causa mor, ocultando o que representa, ao nosso ver, uma das causas determinantes da esterilidade dos enfrentamentos passados: o praticismo em que está imerso o movimento, impossibilitando tanto uma articulação orgânica prévia aos aumentos quanto a manutenção de um debate posterior a estes. E como que fechando o círculo, esse praticismo acaba dificultando uma análise mais aprofundada e detida das copiosas derrotas sofridas em manifestações anteriores.

Junto a isso, enxergamos como dificuldade central o fato de que as mobilizações se dão sem uma necessária discussão com a base. Parte-se do ponto de que é necessário organizar um ato e então se viabilizam, minimamente, as condições para que o mesmo ocorra. Os comitês contra o aumento das passagens formados até então não discutem formas de como dialogar com a população, como discutir de forma efetiva com os trabalhadores a questão e como publicizar melhor o próprio comitê e sua pauta para que outras forças se somem e consolidem a manifestação como uma luta comum e em prol da sociedade. Então, de forma extremamente imediatista, forças políticas se aglomeram em torno de um comitê ineficiente após o aumento já ter ocorrido ou então às vésperas do mesmo ocorrer, na maior parte das vezes contando com a participação hegemônica de entidades estudantis e escassa participação de sindicatos e outras entidades representativas. Como conseqüência os espaços de atuação acabam se tornando locais privilegiados para a pura divulgação de partidos e organizações políticas que acabam por colocar seus interesses à frente dos interesses do movimento, esvaziando a preocupação com o transporte público de suas falas.

Nos últimos comitês que participamos constatamos todos esses problemas que, verdadeiramente, emperram qualquer processo de luta efetiva e nos propusemos a levar a discussão para a população e agir de forma mais conseqüente - proposta compartilhada inclusive com organizações minoritárias dentro do último comitê. Contudo, o que ocorreu foi um esvaziamento dos comitês por parte das forças políticas que os compunham.

Esse ano, como já mencionamos, contamos com o diferencial do adiamento da alteração do valor das passagens, o que - se não modifica em nada o caráter da administração pública e dos empresários de Maceió, preocupados unicamente com o lucro de suas empresas - dá ao mesmo tempo àqueles que se opõem aos abusos no transporte público uma grande oportunidade para uma organização mais concisa e mais possibilitada a frear os interesses da máfia dos transportes.

Vemos então a necessidade urgente de se convocar um novo comitê, em marcos diferenciados do que os que vinham se dando anteriormente, chamando à luta todos aqueles que não agüentam mais os aumentos ultrajantes e os ataques dos monopolizadores do transporte público. Reconhecemos a flagrante necessidade dele se pautar pelo intenso debate entre os grupos que o comporá e destes com o restante da população, no sentido de um efetivo trabalho de base, para que, aí sim, a população possa se reconhecer nesse movimento e passar a construí-lo. Não podemos recair no erro de transmitir a aparência de um movimento unicamente estudantil. A luta contra as intempéries da administração pública deve ser travada por todos os setores populares, vítimas dos abusos e arbitrariedades do Estado. Vislumbramos, portanto, a necessidade de uma unidade dos movimentos estudantil e dos trabalhadores em geral, que possa excluir a vaidade das forças políticas que nela se aglutinem, com fins de viabilizar a formação de um conseqüente processo de lutas. Pugnamos um movimento de resistência e não meramente um movimento de exceção.

O adiamento da sanção por parte do chefe do executivo municipal fornece aos movimentos sociais um elemento objetivo de extrema importância. Agora temos meses para travar o diálogo e preparar as forças para barrar o aumento. Porém, ressaltamos, esse diálogo deverá responder às reais necessidades do momento histórico. Uma das grandes características do praticismo supra-referido é a incapacidade de leitura e compreensão da processualidade do real e a conseqüente falha na escolha dos instrumentos de luta. Por isso, entendemos que o desenvolvimento desse diálogo e desse trabalho de base é que devem sustentar um comitê, definindo sua organização e atuação. Os instrumentos de luta nascem a partir do efetivo movimento das massas, porque se assim não for, corre-se o risco de apoiar-se no vazio.

Consideramos algumas atividades como concretização necessária de nossas propostas, tais como: o permanente estudo sobre a realidade do transporte público em nossa capital, bem como a comparação com a realidade de outras cidades; a realização de espaços de discussão nas universidades, escolas, sindicatos, associação de bairro, tais como seminários, grupos de trabalho e exibição de documentários. Além de panfletagem nos coletivos e pontos de ônibus como forma de despertar o debate na população em geral, usuários desse meio de transporte.

Nesta linha, convocamos todas as organizações, forças políticas, grupos e indivíduos que estejam dispostos a firmar um compromisso com a luta conseqüente e determinada na defesa dos interesses das classes exploradas para estarem dia 9 de fevereiro, às 14h, na Residência Universitária Alagoana para realizarmos nossa primeira reunião enquanto frente de luta contra o aumento das passagens, debatendo quais passos daremos no caminho da resistência a tais abusos.

Grupo Além do Mito

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Avaliação do Congresso do DCE - UFAL

Avaliação do Grupo Além do Mito sobre o CONDCE


O movimento estudantil da Universidade Federal de Alagoas deu um passo importante no que concerne a sua reconstrução nos últimos dias 12 a 16 de novembro. Durante esta data, delegados de diversos cursos da universidade se reuniram no VI CONDCE e reformularam o problemático estatuto do Diretório Central dos Estudantes. Dando ao mesmo a configuração que acreditavam ser a mais interessante para o momento conturbado em que vive a militância estudantil da Ufal, bem como para a esquerda e os movimentos sociais como um todo.


É praticamente impossível falar em CONDCE sem antes rememorarmos o que foi nos dois últimos anos o movimento estudantil da Ufal. É praticamente incontestável o fato de que vivemos um refluxo do movimento como um todo, as forças políticas de esquerda se encontram hoje – sem exceção – completamente desmobilizadas, indo pouco além de organizar seminários, palestras ou eventos de pouca repercussão política efetiva.


Não vamos aqui procurar um elemento que defina e chegue à raiz desse problema, cabe apenas ressaltar que esse descenso vem sendo compartilhado por todos os grupos que intervém politicamente na universidade, reduz o número de militantes organicamente ativos e atuantes e traz problemas de renovação de quadros para o movimento o que, ás vezes, dificulta a viabilidade de atividades e tarefas candentes e necessárias para o cotidiano do movimento.


Essa desmobilização repercutiu de forma clara e exemplar no processo de tiragem de delegados para o congresso. Praticamente não houve Centro Acadêmico ou grupo de estudantes que conseguiu realizar seu processo eleitoral sem percalços em conseqüência desses problemas que geram na base estudantil uma inevitável apatia política. Lutou-se para atingir quórum nas assembléias ou votações, tentou se mobilizar membros nas comissões eleitorais para viabilizar da forma mais efetiva o processo, lutou-se contra o relógio para conseguir realizar aquilo que em outros tempos fora tão prático e corriqueiro.


No final das contas tivemos um número de delegados inscritos aquém do esperado, se levarmos em conta o número de estudantes que temos nos diversos campi da universidade, e um número menor ainda de delegados participando ativamente da construção do congresso. Muito disto,creditamos a falta de debate político de algumas chapas para com suas respectivas bases. Lógico que não foi um número de delegados que em si fosse capaz de deslegitimar o próprio congresso e o que nele fora aprovado, mas óbvio que, para quem constrói lutas é sempre esperado o número mais elevado possível de participantes.


Apesar destes problemas, não deixamos de avaliar o congresso como um espaço que cumpriu com seu papel e conseguiu indicar um caminho pelo qual vai seguir agora a reconstrução da luta na Ufal, nos colocamos para reformular o estatuto e conseguimos realizar esta tarefa de suma importância. A partir deste momento, então, faz-se necessário nos determos especificamente no papel que desempenhamos no congresso enquanto força política coerente e que vem mantendo em todos esses anos sua coerência e segurança no que diz respeito ao seu projeto político.


Há anos o coletivo de bases Além do Mito vem pautando a atualização do estatuto e a construção de um congresso estatuinte. Este tema trazido a tona pelos militantes do grupo nos diversos espaços em que se fizeram presentes, particularmente nos últimos meses dentro da gestão do DCE e nos últimos CEBs ocorridos. E não é desrespeitar os demais lutadores nem tampouco pura soberba afirmar que o mérito da construção desse congresso cabe em grande parte ao coletivo Além do Mito, única força política que esteve presente integralmente em todo o processo de construção do CONDCE.


Frente a isso, também não podemos deixar de lembrar que houveram forças políticas que colocaram a construção do mesmo em segundo plano, de forma extremamente oportunista, alegando que era necessário realizarmos novas eleições e postergarmos a reformulação do estatuto para um momento indefinido. Felizmente proposta tão danosa aos estudantes da Ufal não foi levada adiante e as forças que a colocaram – a saber, correnteza e Ujs - voltaram as bases para realizar o debate da tiragem de delegados.


Já mencionamos que o número de delegados presentes nas discussões não era condizente com o número de delegados inscritos, mas não podemos deixar de ressaltar que os presentes nas discussões foram estudantes que demonstraram um genuíno interesse pelo debate da reorganização tanto a nível local quanto nacional, participando de GD’s que iam até altas horas e propondo debates em todos os espaços. Foram esses estudantes que reafirmaram o rompimento do DCE frente a reacionária UNE, marcando seu compromisso com a reorganização do movimento em outros marcos mais avançados do que os que geralmente vem sendo colocados. Foram esses estudantes que optaram por um DCE a favor da fusão entre a CONLUTAS e a INTERSINDICAL, a favor da formação de uma nova central sindical, reconhecendo a importância da reorganização do movimento dos trabalhadores. E principalmente, foram esses os estudantes que optaram por um DCE construído através do regime da proporcionalidade para pautar as lutas dentro do movimento, para articular todos os campi da universidade na tentativa de sepultar a letargia que há anos nos assola.


Sem admitir mais nenhuma postergação e optando por decidir naquele precioso momento o que necessitava urgentemente ser feito, os estudantes ali reunidos deram a resposta que julgavam mais interessante para responder a desarticulação que existe entre os estudantes, apostaram em um DCE proporcional para gerir a imensa universidade que a Ufal se tornou com a criação de mais um campus no sertão do estado. Cabendo fazer aqui a ressalva de que embora os estudantes do interior não tenham estado presentes no congresso não se deixou de pensar neles e em se formularem propostas que visassem sanar os problemas que temos conhecimento.


O Além do mito, como grupo autor dessa proposta e como principal força empenhada na viabilização do congresso em seus aspectos estruturais e físicos reconhece o peso que exerceu nessa mudança e não deixa de reconhecer também que foi através dos debates dentro da gestão “amanhã vai ser outro dia” que se construiu o que viria a ser essa proposta formulada pelo grupo, como uma experiência que o DCE merece passar para tentar sanar os problemas que há anos vem vivenciando.


Reafirmamos nosso compromisso com os estudantes da Universidade e garantimos que faremos a autocrítica quando ela se fizer necessária, porém, não nos furtaremos a reconhecer que prosseguimos o debate que nos colocamos desde 2007 e construímos esse congresso com o ardor de quem via nele uma necessidade impossível de ser adiada por mais tempo.


Chamamos novamente a luta a esquerda da Ufal como um todo, para prosseguirmos na luta e no debate das diferenças, criar um movimento estudantil que dê respostas concretas aos estudantes e a educação pública, um chamado inclusive aos grupos que já estiveram ao nosso lado em outros momentos e agora estão afastados da base e da luta concreta, um chamado a um movimento estudantil democrático, orgânico, autônomo e combativo. E socialista.

GRUPO ALÉM DO MITO...