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sexta-feira, 10 de julho de 2009

Para onde foi a reorganização?

Para onde foi a reorganização?

Avaliação do Grupo Além do Mito sobre o Congresso Nacional de Estudantes

Este é um documento síntese do debate interno do Grupo Além do Mito... sobre a reorganização do Movimento Estudantil e as consequências do Congresso Nacional de Estudantes para este processo, o qual, por decisão do Grupo, se faz público. Busca-se um entendimento preliminar e tão detalhado quanto o possível, tendo em vista o momento em que é produzido este texto (em torno de um mês após o congresso) de em que ponto se chega da reorganização e de como se chega até ele.

Como a luta de massas não mais se faz de forma direta (e este é um dos traços do momento contra-revolucionário que vivemos), mas através da mediação do burocratizado aparelho sindical e partidários (seja ele PT ou organizações menores, como PSTU, PCdoB, etc.), a luta por espaço no interior destes aparelhos substitui a militância dos revolucionários junto às massas”. - Sérgio Lessa em Crítica ao Praticismo “Revolucionário”.

O Movimento Estudantil (ME) brasileiro encontra-se frente a uma profunda necessidade de reorganização própria. Esta reorganização vem se dando em um processo que conta com avanços e recuos iniciado no princípio desta década. Em 2003, como expressão desta necessidade, ocorre o rompimento de vários setores do ME com a União Nacional dos Estudantes (UNE). Seis anos depois, tem lugar o Congresso Nacional de Estudantes (CNE), a maior iniciativa levada à frente na tentativa de sintetizar o acúmulo conseguido pelo Movimento durante este período. Tendo lugar na UFRJ, entre os dias 11 e 14 de Junho, o CNE e suas consequências, entre elas a fundação de uma nova entidade estudantil, a Assembléia Nacional dos Estudantes – Livre (ANEL), levam este processo a uma situação distinta de que tivemos até o momento.

Antes da tomada de novos passos, antes mesmo da formulação das próximas políticas conjuntas do ME, é imprescindível uma avaliação do que significam estes novos elementos e sua presença no cotidiano estudantil daqui para frente. É necessária uma avaliação da situação geral do Movimento Estudantil pós-CNE. Esta discussão não se poderá fazer de forma consequente descolada das implicações recíprocas que tem em relação ao período que a precede. Ou seja, de um resgate do que representou a ruptura com a UNE, as tentativas anteriores de aglutinação por fora desta entidade, as lutas que se deram neste contexto e uma série de diversos elementos que não poderão ser deixados de lado.

É certo que viveremos um período de consequências, após o Congresso, do qual podemos apenas vislumbrar seu início. Sem dúvidas, o devido recuar da história trará mais elementos e maiores recursos para a construção desta discussão, não podendo ela se pretender acabada aqui. Porém, é a dinâmica do movimento real que exige, hoje, uma explicitação, ainda que preliminar, do momento histórico pelo qual passarão os estudantes. O objetivo do Grupo Além do Mito e deste documento é contribuir com este debate, sem o medo de enfrentarmos-nos com o tribunal da auto-crítica futuramente, ou mesmo de pôr em prática as posturas que nossos possíveis acertos demonstrem necessárias.

De como chegamos até aqui ou do que significa a ruptura com a UNE.

A história do Movimento Estudantil é bastante documentada e, por este motivo, aqui tentaremos suprimir a discussão acerca dela em-si, mas ressaltar os pontos que se apresentam como mais relevantes para o debate em tela. Após os anos de chumbo da Ditadura Militar, durante os quais representou o espaço qualitativamente superior de aglutinação dos estudantes em luta contra o regime e pelo resgate de uma democracia constitucional, a União Nacional dos Estudantes é refundada em um congresso que, talvez por ironia histórica, deu-se exatos trinta anos antes do CNE, em 1979.

Como é bastante evidente, a discussão do papel desta entidade não se pode fazer separada de uma reflexão sobre o próprio caminhar da esquerda brasileira. O período da redemocratização traz, junto com ele, um impulso a uma institucionalização cada vez maior das maiores organizações populares deste período. Somado ao processo de refluxo e de repetidas derrotas às quais é submetida a classe trabalhadora, esta institucionalização faz a luta no interior da esfera parlamentar passar, cada vez mais, a figurar como principal preocupação destas organizações. Por outro lado, as que conseguem ultrapassar a barreira parlamentar, em sua grande parte continuam perdidas nas preocupações com o jogo político geral, deixando de lado a centralidade da estruturação estratégica do trabalho para um enfrentamento direto ao capital. As consequências para as entidades que, como a UNE, possuem o papel de sintetizar a resistência popular aos projetos postos em movimento pelo capital não poderiam ser menores. É desnecessário dizer que esta tática política, de viés geralmente reformista, não pode levar os trabalhadores a qualquer outro lugar senão à mais profunda vala da derrota. Ainda assim, ela vai se tornando sempre mais presente e é cada vez mais difícil de afastar seu legado para o movimento.

A inversão do papel da ação direta dos trabalhadores e estudantes em relação à atividade parlamentar, fruto de uma impossibilidade de um diálogo frutífero com as bases sociais destes movimentos devido ao momento histórico de crise geral de alternativas para a classe que se vive, vai abrir as portas para o desenvolvimento do processo de burocratização, mais ou menos consciente, que os atinge em praticamente todos os seus níveis. Esta realidade irá justificar a valorização, cada vez maior, da disputa da direção das entidades, especialmente as que, supostamente, possuiriam maior área de representatividade e, por isto, maior peso na política nacional. É o caso da própria UNE e da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Tratando especificamente do caso da entidade estudantil, embora os traços que serão citados sejam também, em partes, idênticos à central sindical, este processo se matura de maneira gradual durante as últimas décadas. As principais consequências são, justamente, a morte da democracia interna da entidade, levada à frente pela necessidade de suas direções em agarrar-se a seu aparelho, possibilitando a sua cristalização e, como não poderia ser diferente, o engessamento e o afastamento cada vez maior da UNE de suas bases e da luta estudantil.

Este processo vai se tornar inegável de tão explícito a partir da chegada do Partido dos Trabalhadores (PT) à presidência da república. Com a eleição de Lula em 2003 a UNE demonstra-se, de maneira clara, como uma mera correia de transmissão do governo frente ao movimento. Seu principal papel será o de, sob um discurso democrático, camuflar a verdadeira face cruel e neoliberal das políticas aplicadas pelo Governo Federal tanto na educação, quanto em diversas outras esferas.

Passando de mala e cuia para a defesa do projeto do capital a UNE, que apesar de sua inerente burocratização ainda esboçava sinais de resistência em períodos anteriores a Lula, deixa em um vazio organizacional o Movimento Estudantil combativo. Este contexto vai impulsionar a ruptura que se dá em 2003.

É necessário, contudo, precisar o real significado desta ruptura. Ela não se dá simplesmente pelo fato de que a UNE, hoje, não organiza a necessária oposição aos projetos do capital para a educação e a sociedade em geral. Muito mais profundo do que isto, a ruptura com a União Nacional de Estudantes não deve significar, apenas, o abandono do aparelho que ela representa. Não é um rompimento meramente político. É uma negação, não apenas das bandeiras atuais da entidade, mas das concepções que a dirigiram para isto e dos métodos de movimento que garantiram este processo mesmo sem sua aceitação real nas bases. É uma ruptura construtiva e em construção, posto que sua principal função é a de resgatar os princípios de um Movimento Estudantil classista, combativo e autônomo, capaz de tomar para si as bandeiras da classe operária e da superação da sociabilidade do capital, se não enquanto tarefa da ordem do dia, pelo menos enquanto estrutura estratégica de atuação. Somente assim, o processo de reorganização poderia ser consequente em seu todo e coerente com suas própria premissa, qual seja: a UNE está morta para a luta.

Dos caminhos e contradições da reorganização.

No momento de seu acontecimento o rompimento com a UNE não poderia ter sido mais polêmico. Em verdade, somando-se os setores organizados do ME que afirmaram a ruptura com a entidade obtinha-se uma minoria do que representava o todo do movimento. Por outro lado, se quantitativamente os setores dissidentes representavam pouco peso entre os estudantes, restou demonstrado, depois de um curto período que em termos qualitativos a realidade apresentava-se de maneira diversa.

Fundada em 2004, em um Encontro Contra a Reforma Universitária, na UFRJ, a Coordenação Nacional de Lutas dos Estudantes (CONLUTE), apresentou-se como o primeiro pólo de aglutinação nacional daqueles setores que passaram a negar a UNE. Enquanto esboço de organização a CONLUTE esteve presente nos principais focos de luta que se deram no período que seguiu sua fundação, com um destaque especial para as ocupações de Reitorias que ocorreram em 2005 e os Comandos de Greve que se organizaram nas IFES naquele ano.

Em oportunidades anteriores discutimos os limites e acertos que identificamos na experiência da Coordenação. Por isto, aqui queremos destacar apenas os pontos mais relevantes para o debate posto. A CONLUTE foi a primeira tentativa de articulação nacional do Movimento Estudantil construída completamente desvinculada da União Nacional dos Estudantes. Como não poderia deixar de ser, por esta própria realidade sofreu em sua trajetória dos mais diversos obstáculos estruturais, metodológicos e, em certa medida, políticos. Exemplos são a constante confusão de funcionamento de seus fóruns (não se tinha por certo quem estaria apto a convocar reuniões e como as convocaria, qual o peso real dos colegiados estaduais e regionais que chegaram a se formar, quem tinha legitimidade para falar em nome da Coordenação etc.), a ausência de um programa de princípios claro e rígido, a frouxidão de seus métodos etc. Até mesmo o relativo sectarismo de suas posturas iniciais pode compor este rol de deficiências.

Estas questões, no entanto, encontram sua causa na própria essência do que era a Coordenação Nacional. Ou melhor, no que ela não era. A CONLUTE não era, nem se pretendeu ser, uma entidade. Não chegou a possuir regimentos, princípios, estatuto, fóruns de deliberação de bases, real legitimidade etc. E não possuía, de fato, a função de suprir esta lacuna. Seu papel foi o de ser um espaço de síntese do ME que se organizava em torno daquele que seria o início consciente do processo de reorganização dos estudantes.

Nada disto impediu que ela alcançasse méritos em seu caminho. A experiência deste instrumento trouxe pelo menos dois ganhos ao Movimento que conseguimos facilmente identificar. O primeiro deles foi a experimentação de uma nova geração de estudantes disposta a construir a luta de uma maneira qualitativamente nova, com uma reflexão mais aprofundada sobre o que representa a burocratização no seio do Movimento e um ímpeto combativo que a fez, inclusive, prescindir de entidades para organizar sua resistência ao projeto neoliberal em curso (a exemplo da própria UNE, mas também de entidades de base que encontravam-se sob o domínio do aparato governista e, por isto, engessadas, como foi o caso e o papel do DCE-UFAL na ocupação de reitoria e greve de 2005).

O segundo ganho foi a materialização, pela primeira vez, de uma crítica consequente à experiência da UNE em conjunto com a apresentação de uma postura coerente à situação vivenciada pelo ME. Ou seja, a CONLUTE teve o mérito de, pela primeira vez, formular e construir uma tentativa de diálogo com a base estudantil no sentido de apresentar e bancar a proposta de uma radical ruptura com a entidade estudantil burocratizada e governista. Este debate conseguiu enraizar-se em alguns focos do país, estando mesmo entre alguns dos locais de maior articulação das lutas, chegando a constituir colegiados estaduais da Coordenação. Além disto, teve seus reflexos mesmo no movimento de área, em que, em diversas executivas de curso, formaram-se articulações de estudantes em torno da proposta de ruptura com a UNE( podemos citar como exemplo as executivas dos cursos de Educação Física, Letras, Comunicação, Medicina, Nutrição, Serviço Social, História, Biologia etc., e mesmo em cursos sem executivas organizadas como Ciências Sociais e outros).

Mesmo com todas as limitações citadas, e graças aos méritos que também devem ser reconhecidos, a CONLUTE conseguiu, então, demonstrar algo que, anos depois, não pode mais ser negado: a luta estudantil não encontra mais possibilidades de construção por dentro da UNE. Isto acabou fortalecendo a polarização, por vezes hipervalorizada por certos setores (de ambos os lados da corda), mas realmente existente entre a CONLUTE e a antiga entidade. Sem dúvidas o sectarismo inicial dos setores da Coordenação Nacional abriu margem para equívocos de leitura geral, mas por outro lado, não se pode cair do discurso vazio de que não existiu uma concorrência real e antagônica entre os dois instrumentos. Se por um lado a UNE representava, já àquele momento, o imobilismo e o governismo, a CONLUTE representou, se não de fato, pelo menos em potência, a construção das lutas e a autonomia frente aos projetos do capital.

A impossibilidade de construção consequente de lutas por dentro dos fóruns da União Nacional dos Estudantes demonstra-se de maneira definitiva a partir da construção, em 2006, da Frente de Luta Contra a Reforma Universitária. Pela primeira vez os setores que romperam com a UNE e os que nela permaneceram, mas que tinham posturas táticas comuns, dentro de um espectro geral de oposição de esquerda ao Governo Lula, reúnem-se em um instrumento no intuito de construir lutas conjuntas.

A Frente de Luta demonstra-se capaz de impulsionar com mais força as lutas dos estudantes, o que resulta no processo de ocupações levadas à frente no ano de 2007. No entanto, suas limitações eram ainda mais fortes do que seus méritos. A Frente, mais do que qualquer outra coisa, demonstrou-se como um pólo superestrutural de organização. Seu funcionamento através do método do consenso, na prática, abriu margem para os mais diversos acordos entre as direções do processo, engolindo as minorias e mesmo os militantes de base. A própria CONLUTE não serviu para nada além de um suporte tático para a política do PSTU em suas tentativas de aproximação tática ao PSOL. A situação chegou ao cúmulo de reuniões do Colegiado Nacional da Coordenação serem convocadas para depois de plenárias da Frente, o que demonstra que a CONLUTE não poderia agir enquanto articulação real nestes espaços de discussão, mas serviria apenas para legitimar as suas decisões, ou levar às bases as propostas recusadas de sua majoritária (belo exemplo foi Plebiscito Nacional Sobre o ReUni).

Neste contexto, o debate que levava às bases a necessidade de ruptura com a UNE e de construção de um Movimento Estudantil renovado, foi engolido nos consensos politicistas da Frente. Isto acaba servindo para brecar, neste aspecto, o processo de reorganização que vinha tomando curso. Brecar, mas não interromper. Se algo ficou claro neste momento foi a contradição em que se meteram os setores da Frente de Oposição de Esquerda da UNE (FOE) ao continuarem legitimando a entidade, recusando um consequente rompimento com a mesma, ao mesmo tempo em que, pelas próprias implicações práticas da dinâmica do movimento, precisavam de um instrumento desvinculado de seu aparato para tocar suas bandeiras de luta.

A Frente se esgotou, consequência da própria limitação de seu método organizativo de curto prazo de validade. A contradição, porém, continuou. Durante os embates organizados no período de sua existência, em especial a luta contra o ReUni, a polarização entre Movimento e UNE demonstrou-se de maneira mais visível do que nunca. A UNE, durante todo o processo de mobilizações, jogou um papel de contra-movimento, boicotando e deslegitimando ocupações de reitoria, atos, manifestações e debates, chegando ao verdadeiro despautério de defender Reitorias e as mais diversas representações da burocracia estatal e universitária, contra os protestos organizados pelos próprios estudantes. Assim aconteceu em estados como Alagoas, Sergipe, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul etc., e nada foi mais eloquente do que o silêncio da entidade sobre a Ocupação da USP daquele momento.

Esta análise do que representa esta contradição, portanto, nos parece fundamental para uma avaliação do CNE, posto que alguns setores que o compuseram e construíram encontram-se imersos nesta situação. Por outro lado, seu peso relevante no processo de lutas faz com que o próprio Congresso Nacional de Estudantes tenha pendido para uma posição muito mais moderada em relação a esta questão do que o foi a Coordenação Nacional de Lutas dos Estudantes.

Da perplexidade geral: Rompimento com a UNE x construção da unidade?

É mais que evidente que o processo de reorganização não poderia se dar sem avanços e recuos em seu trajeto. Muito menos, poderia acontecer de forma absolutamente consensual entre as leituras e concepções que agem em seu contexto. É óbvio, também, que o novo sempre carregará traços da realidade antiga da qual “originou-se pelos flancos”. Uma das representações deste fenômeno, no contexto da reestruturação estudantil brasileira é a postura de setores que, apesar de carregar consigo uma leitura crítica acerca do papel da União Nacional dos Estudantes, não conseguem dar consequências a ela, mantendo-se dentro da entidade sob as mais diversas justificativas. Esta realidade é, até certo ponto, bastante previsível frente à perplexidade geral em que se encontram os movimentos sociais em seu todo, graças ao momento histórico de refluxo que se vive. Contudo, é preciso ter clareza suficiente para discutir os passos que se podem dar e os que não se podem dar neste contexto.

É necessário desmistificar o debate acerca da unidade do Movimento Estudantil. Para nós, este caminho se dá, unicamente pela discussão de qual unidade queremos e para quê ela deve servir. Assim, é importante que seja responsavelmente equacionado o debate sobre o que significa o divisionismo, hoje, no seio do ME e da reorganização do mesmo.

É certo e consenso geral de que os movimentos sociais existem para fazer a luta e organizar a resistência popular na defesa de seus direitos e na busca de maiores conquistas. Desta forma, o sentido próprio da organização política, seja em que nível ela se der, refere-se à necessidade de um posicionamento claro, dentro da luta política que se desenvolve em uma sociedade de classes. No caso de um ME que se pretende classista e combativo, este posicionamento encontra-se, obviamente, na trincheira da transformação desta sociedade. Assim sendo, fará sentido lutar a partir do momento que se luta por um objetivo claro: a superação do atual estágio de coisas. Por certo, as implicações concretas desta postura irão dar lugar aos mais diversos debates, sobre quais são os passos reais desta tal superação. No entanto, se há algo que deve ficar extremamente claro, é o nexo entre o discurso e a prática no âmbito de sua realização.

Assim, a unidade que se busca só se torna eficaz a partir do momento que está apta a oferecer um suporte concreto para as tarefas postas no caminho deste objetivo geral. A atual postura da UNE, de verdadeiro cão de guarda da política do capital para a educação, não permite nenhuma unidade possível com esta entidade. Em verdade, quando passa atuar do outro lado das trincheiras de luta é a União Nacional dos Estudantes, e não o movimento de reorganização, que inicia o processo de divisão do movimento. A unidade que se quer reconstruir, portanto, só pode se dar a partir de um programa que rompe, fundamentalmente, com aquele defendido pela antiga entidade dos estudantes. E, em consequência, através de uma ruptura com os métodos, concepções e fóruns que dão suporte a este programa: a partir da ruptura com a UNE no exato sentido que indicamos acima.

O processo de lutas de 2007 vem a tornar esta realidade ainda mais evidente do quê em 2003. Hoje, dificilmente os setores que rompem com a UNE são ainda acusados de divisionismo, a não ser pelas correntes mais fetichistas do Movimento. Esta postura deixou de ser vista como esquizofrênica e isolacionista por boa parte do ME para, em lugar disto, tornar-se tolerável e até discutível. Por sua vez, isto não significou o imediato convencimento destes mesmos setores de sua validade política.

Assim, é possível ver um debate de profunda crítica à estrutura atual da UNE ser construído sem ser seguido pelo rompimento com a mesma. A coisa toda vai tentar ser equacionada pelos mais diversos caminhos, dos quais o principal é o da disputa de concepções sem a disputa do aparelho no interior da entidade. Justificado por discursos que identificam “lutadores dentro e fora da UNE”, ou “estudantes com sincero ímpeto de luta que ainda se agregam em redor da UNE”, este debate vai procurando se manter aproveitando a confusão geral do Movimento.

Para tanto, claro, é preciso negar a visão global do contexto atual. Levantam-se frente a isto diversas questões. Afinal, qual o espaço privilegiado de disputa de concepções do Movimento Estudantil? Os espaços que se entendem burocratizados e fetichizados da União Nacional dos Estudantes, ou os fóruns criados no próprio processo de lutas, como ocupações de universidades, congressos e assembléias de entidades de base etc.? A importância desta disputa deve levar em conta se a energia gasta com a participação dos fóruns engessados da UNE vale a pena, na medida em que, apesar de contarem com a presença de milhares de estudantes que ouvirão sempre o discurso governista, eles não têm se revertido em força material no Movimento. Quer dizer, a UNE em geral, não tem conseguido mobilizar o corpo estudantil nem mesmo para a defesa de suas pautas, a não ser em casos excepcionais como em atos em seus próprios congressos e bienais, que contam com a reunião de pessoas de todo o país em um só local, trios-elétricos, muita animação e pouca pauta política. Ao invés disto, as salas de aula, os corredores e os pátios das universidades continuam tediosos e afligidos por um silêncio político mortal quase que perene.

No fim, nega-se a União Nacional dos Estudantes, mas não se dialoga esta negação com o único sujeito capaz de torná-la consequente e material: os estudantes. Se é preciso estar em todos os espaços, não é preciso (ou oportuno) romper com a UNE. E se não é oportuno romper com a UNE, qual o estágio da reorganização que se vê? O estágio anterior à própria negação do velho. Viver-se-ia então, um momento em que é necessário organizar a unidade do Movimento Estudantil, superar seus antigos obstáculos, resgatar suas verdadeiras bandeiras, negar a UNE, mas não o momento de oferecer alternativas para esta negação, que não necessariamente se sintetizam em uma agenda positiva para o ME. Ou seja, não necessariamente se resumem a fundação de novas entidades. Mas se realizam no processo de superação e abandono das atuais formas de movimento.

No fim, nega-se o debate de ruptura com a base do movimento, vendo-a como necessária, como vindoura, mas não a construindo no dia-a-dia estudantil. Ou seja, impossibilitando a tomada consciente, por parte dos estudantes, da negação do velho, e do despertar para a construção do novo. Agarrando-se a uma concepção vacilante do processo atual e, em últimas consequências, ignorando o peso político para a reorganização e para a própria UNE do que significaria a ruptura de mais estes setores com a entidade.

Por outro lado, e felizmente, não é a estes setores que se deve esperar. É à base estudantil que se devem explicações e respostas. E a necessidade de atendê-las exige um debate cada vez mais coerente e alinhado ao processo real. Construir a reorganização significa sim, portanto, construir a unidade do ME, mas apenas a partir de um programa que avance a consciência estudantil e impulsione sua luta. A UNE não pode acompanhar esta realidade e, por isto, deve, invariavelmente, ser deixada de lado. Discutir estas posturas, no entanto, como dissemos, é fundamental para discutir seu papel no CNE e na reorganização.

Do Congresso Nacional de Estudantes. Sua construção, suas cores políticas e seu decorrer.

Desde que se concretizou a ruptura com a UNE surge o debate de necessidade de construção de um novo instrumento de lutas, qualitativamente superior a ela, de uma nova entidade. Este debate, no entanto, é posto de maneira muito mais concreta a partir de 2007, como reflexo do processo de lutas que se dá naquele ano. A partir daí surge a necessidade de um fórum mais amplo do quê os que haviam sido construídos até o momento.

O CNE seria, desta forma, o primeiro espaço real de acúmulo construído no contexto da reorganização. Os Encontros Nacionais de Estudantes (ENE's) que aconteceram, apesar de terem servido como espaços de instrumentalização do movimento, não puderam, por seu próprio formato e duração, cumprir este papel. As tarefas postas para o Congresso envolviam, pois, o debate acerca de uma gama de temas que, muito além da necessidade de uma Nova Entidade, envolviam os princípios que norteavam a reorganização, seus métodos, bandeiras políticas, concepções de mundo, de educação e mesmo de ME. Avaliar este espaço, portanto, é julgar o atingimento destes objetivos.

Desde as premissas de sua construção, o Congresso Nacional de Estudantes buscou sempre demonstrar-se qualitativamente distinto do Congresso da UNE (CONUNE). Foi organizado a partir da convocação de plenárias abertas, nas quais qualquer estudante teria direito a voz e voto, podendo encaminhar proposta, fazer-se presente nas reuniões (ao menos em tese), e discutir os rumos estruturais e políticos que garantiriam o decorrer do Congresso. Em certa medida, inclusive, a CO do CNE serviu como esboço de aglutinação política, tomando posicionamentos, lançando documentos como moções de repúdio, boletins etc., e mesmo participando de atos e manifestações na tentativa de demonstrar uma alternativa de luta para o conjunto do ME.

Contudo, mesmo o caráter acessível da construção do CNE não o blindaria de equívocos. Evidente, também, que, apesar de sua postura aberta ou exatamente por isto, a CO não pode ser entendida como um espaço em que a construção conjunta tinha um papel maior do que a disputa de concepções que nela concorreram. Queremos dizer que, mesmo com seu caráter democrático, os equívocos que podem ser creditados às atitudes da CO não podem recair igualmente sob os ombros de todos os que tomaram parte em seus debates. Deve-se relacionar, fundamentalmente, a conformação política que a constituiu. Significa dizer, os erros cometidos nos fóruns da própria CO não deixam de ser erros de seus reais autores e passam à ser da Comissão de Organização do CNE, muito pelo contrário. Desta forma, há um aspecto que achamos de grande relevância. É necessário que se discuta em que termos se dá a clara hegemonia política do PSTU tanto nos espaços do CNE, quanto da própria Comissão que o organizou.

Como não pode ser negado, entre os setores que rompem com a UNE em 2003, o PSTU é aquele que, sem dúvidas possui o maior peso político deste processo. Não apenas por seu tamanho, e por ser talvez a única força, naquele momento, com proporções nacionais a fazer o debate da ruptura, mas também pela importância que teve como pólo de impulsionamento desta ruptura. É evidente que sem a participação de uma força política de tal porte o processo de reorganização encontrar-se-ia, ainda, em estado muito mais atrasado que o atual.

A hegemonia do PSTU foi, portanto, a representação de um aspecto natural da dinâmica que teve o processo de reorganização. Não há dúvidas, que o peso que esta força adquiriu neste contexto é qualitativamente diferente daquele mantido pelas forças políticas que se encastelam na direção da UNE, que, nem de longe, possuem uma sustentação real frente à base do Movimento. Ser maioria, contudo, não é apenas um êxito. Representa também uma responsabilidade redobrada com o processo que se desdobra sob sua formulação principalmente. E é neste sentido que afirmamos que os erros levados à frente pela CO do CNE têm um autor: sua majoritária, o PSTU.

Durante o decorrer do Congresso Nacional de Estudantes estes equívocos se demonstraram, como se pôde ver, reais e em sua face mais concreta. As reviravoltas na programação encerram o melhor exemplo do fato. Ainda nas reuniões de organização do CNE, a proposta apresentada pela majoritária foi criticada em seu conjunto, sendo pontuadas (inclusive por nós do Além do Mito...) a grande quantidade de mesas e painéis com que contava, restando pouco tempo para espaços de síntese real que eram os Grupos de Trabalho (GT's), ou mesmo de apresentação geral das teses que estariam inscritas para o Congresso. A única mudança essencial aceita pelo PSTU em sua proposta original foi a da retirada de um ato público que, em princípio, deveria acontecer na cidade do Rio de Janeiro durante duas horas, após a qual todos os ativistas nele presentes deveriam voltar imediatamente ao campus do Fundão e fazer parte de um GT de mais ou menos duas horas. O que simplesmente não aconteceria. Como era maioria nos espaços da CO, o PSTU consegue ter sua proposta aprovada.

Como não podia deixar de ser, o CNE ficou vulnerável a todos os remendos de programação possíveis, e o atraso inicial dá margem a vários acontecimentos difíceis de explicar. O primeiro deles é a inclusão de uma mesa de debates específica sobre a conjuntura atual da USP, que se aprovou, em plenária inicial (hegemonizada da mesma forma), de acontecer logo em seguida à mesa de conjuntura geral. É preciso refletir que uma mudança de programação que sirva para incluir um processo de lutas que eclode muito próximo ao Congresso não é um erro, mas algo que serve para deixá-lo em dia com a dinâmica real do Movimento. Porém, o que aconteceu é que se aumentou o tempo de mesas e impossibilitou-se a intervenção do plenário nestes debates. A surpresa foi ainda maior ao se descobrir, neste mesmo dia, que não havia qualquer atividade no turno da noite.

Ou seja, passou-se por um debate durante a plenária inicial em que as alternativas de inclusão do debate sobre a USP se colocaram todas para o mesmo turno da manhã. Depois, pelo que ficou caracterizado como uma “diferença de interpretações” das resoluções da plenária inicial, conclui-se que não haveriam GT's durante a noite deste mesmo dia. Ora, então por que a mesa da USP não foi simplesmente para o turno da noite? Ou melhor, porque a relutância tão grande em incluir este tema na mesa de conjuntura geral, restando tempo livre para as intervenções da plenária e para a realização de mais um GT durante a noite? No fim, a discussão de conjuntura não foi plena, assim como não o foi a discussão sobre a USP. Ao mesmo tempo os GT's se apertaram de uma maneira injustificada, mesclando-se a discussão sobre conjuntura e educação em um mesmo horário da programação, quando poderiam ter acontecidos duas reuniões do grupo: uma à tarde e outra à noite.

Deixamos claro que não fazemos esta discussão por um mero preciosismo de formas. Antes disto, esta discussão deve ser feita pelo fato de que, em questões de democracia, é comum que os meios representem um peso maior do que os resultados. Assim, é preciso ter claro a importância de cada espaço que deve estar presente em um encontro como o CNE. Os momentos de discussão privilegiados são, sem dúvidas, os GT's, que com seu formato permitem uma maior participação do conjunto de estudantes presentes no Congresso. Para além deles, os espaços de apresentação geral das teses que são inscritas para o Congresso (e que representam a construção política do mesmo) demonstram-se de grande importância para os debates. Sem espaços como estes, teses que contem com poucos participantes jamais conseguirão alcançar o conjunto de participantes do encontro. É evidente que uma tese que tenha dez delegados vai estar em muito menos GT's que uma tese que possua cem delegados. E isto é uma discrepância que merece ser atenuada em nome de um debate qualitativamente superior nos fóruns de organização do ME, onde a quantidade não deve ser imediato sinônimo de acerto de leitura conjuntural e coerência de concepções.

Levando isto em consideração, o decorrer do CNE se afigurou ainda mais equivocado no que se refere à programação. Na manhã do terceiro dia estava programada uma segunda atividade de apresentação das teses inscritas no CNE. Desta vez, diferente do primeiro momento que tomou parte na plenária inicial, seria o momento de uma discussão específica sobre o que cada uma apresentava em relação ao ME. Esta divisão de dois momentos distintos de apresentação das teses é, por si só, complicada. Seria muito mais bem aproveitado a soma dos tempos de ambas atividades em uma única, onde as teses pudessem ficar a vontade para tocarem sua apresentação destacando os aspectos que elas próprias julgassem mais importantes. Outro benefício seria o aproveitamento de mais este espaço (a manhã de um outro dia) para a organização de outras atividades. Esta proposta se demonstraria ainda mais viável se a programação do CNE não fosse tão carregada por mesas de debates.

A despeito de tudo isto, aproveitar o segundo debate de teses era fundamental para esclarecer o plenário sobre as posições que construíam o Congresso naquele momento. Contudo, mais este espaço foi suprimido. Mesmo tendo sido aprovado na plenária inicial do CNE, o debate de teses sobre o ME acabou, na prática, sendo substituído por um painel de histórico do Movimento Estudantil, que havia sido retirado da programação na mesma plenária. Então, o debate geral sobre ME foi substituído por uma apresentação (com fotos!) da história do famoso CONUNE de Ibiúna, uma discussão fundamental para o Movimento sem dúvidas, mas muito distante de ser prioritária em um Congresso que conviveu com atrasos em uma programação que já era pesada.

Ao término da apresentação, que durou quase duas horas, já ao meio-dia, a majoritária do CNE, em uma questão de ordem, propõe a supressão do debate de teses que estava originalmente previsto. Uma medida que serviu unicamente para dar ares de aceitação ao que já tinha acontecido. Afinal, ninguém na plenária poderia realmente tomar a escolha de manter o debate, o que prejudicaria o espaço prioritário dos Grupos de Trabalho que o seguiriam. A majoritária tem sua proposta aprovada pelo plenário em uma votação da qual nos abstivemos por ela não ter absolutamente nenhuma legitimidade. De quebra, na tentativa de conferir consequência à proposta, tentou-se encaminhar os GT's imediatamente após à votação, quando era mais que evidente que aquilo seria impossível em pleno horário de almoço.

Por fim, a programação do CNE contou com: uma mesa de abertura, uma mesa de conjuntura, três painéis simultâneos de educação, uma mesa de histórico do ME, uma mesa sobre a luta na USP, um espaço de saudações internacionais à plenária, um espaço de saudação do mov. Vamos à Luta (que continua construindo a UNE); uma plenária inicial com determinado tempo para apresentação de teses; dois GT's; e a plenária final. Com o detalhe de que todas as mesas acabaram sendo executadas sem tempo para a intervenção do plenário.

Como, em uma estrutura política como esta, poderiam ser sintetizados os acúmulos que o ME adquiriu durante o rico processo de reorganização pelo qual vinha passando? Mais do que isso, como os estudantes poderiam dar conta das tarefas práticas, mas também profundamente teóricas, de consolidar concepções de mundo, conjuntura, educação, movimento, métodos, princípios, pautas, bandeiras etc., em tal espaço? O Congresso Nacional de Estudantes não cumpriu nem uma ínfima parte das tarefas que estavam colocadas para o mesmo. E isto decorre do fato de que sua democracia interna encontrou-se profundamente prejudicada, especialmente no que diz respeito ao debate realizado durante o encontro, por equívocos que simplesmente não se justificam e que, em seu todo, representaram um completo desafino com o próprio acúmulo da parcela do Movimento Estudantil que construiu aquele fórum.

Da plenária final e da Assembléia Nacional dos Estudantes – Livre (ANEL).

Todo o processo narrado veio a desembocar em uma plenária final que, contando com os atrasos, com a dispersão geral dos presentes, com o debate prejudicado durante todo o encontro, e mesmo com as polêmicas que deveria superar, terminou por tornar-se conturbada e bastante diferente do que se poderia esperar. Sua deliberação mais polêmica e que, não apenas por isto, mas pela própria forma como se deu, merece um profundo balanço por parte do ME, foi aprovação da Assembléia Nacional dos Estudantes – Livre.

A ANEL, proposta do PSTU, através da tese Outros Maios Virão, pretende-se uma nova entidade estudantil. Suas tarefas, evidentemente, seriam as de organizar a luta dos estudantes, armá-los teórico-ideologicamente para as mesmas, combater alienação presente nos meios discentes, representá-los e unificá-los em torno de um programa que baliza-se pela aliança operário-estudantil e pela autonomia de seus fóruns (não apenas a governos, mas a organizações políticas em geral), como passos à construção de uma outra sociedade. Isto, claro, se ela se pretende uma alternativa real às antigas formas de movimento com as quais rompe. Ser a antítese do velho, por sinal, seria mais que um objetivo, seria quase sua própria essência. Como se deu sua construção?

A plenária final do CNE iniciou-se com a votação dos pontos consensuais em relação às pautas que tinham sido discutidas durante os GT's e nas próprias teses inscritas ao Congresso. Importante destacar, que estas propostas foram encaminhadas para o conjunto de estudantes que se fazia presente ali, como um programa para a reorganização do ME como um todo, e não de uma entidade ou instrumento qualquer. Estas deliberações, sem dúvidas, guardaram profunda importância, mas por sua própria natureza consensual, não poderiam ser tidas como decisivas para o desfecho da plenária.

Após estas deliberações foi apresentada, pelo PSTU, uma questão de ordem que, pelo adiantar da hora da plenária, e o receio de que esta fosse gradualmente esvaziando-se por acontecer no último dia de encontro, propunha o adiantamento da votação acerca da fundação ou não de uma nova entidade, antecipando-se às pautas não consensuais sobre conjuntura, educação, gênero e cultura. Em uma deliberação conturbada, esta proposta é aceita pela plenária. Ela, no entanto, merece, ao menos, duas reflexões.

A primeira, o que faz da deliberação acerca de uma nova entidade mais importante do que a de todos os outros temas do Congresso, que, inclusive, dariam forma ao próprio programa de uma possível entidade aprovada, ao ponto de que ela não poderia, de forma alguma, ser tomada em um plenário esvaziado, enquanto todas as outras poderiam?

É evidente, que a própria colocação de tal proposta demonstra quais as prioridades de quem a formula. A questão de ordem, apesar de aceita pelos presentes (sendo proposta da majoritária), foi simbólica no seguinte sentido: ao PSTU, mais do que qualquer outra coisa, importava o debate da fundação da ANEL. Importava tanto ao ponto deste preceder os debates centrais acerca do programa e das concepções que norteariam a reorganização do ME. A relação entre forma e conteúdo foi, portanto, completamente invertida e tudo isto devido a uma desesperada tentativa de conferir legitimidade (talvez com fotos de vários crachás levantados) a algo que, por certo seria aprovado no CNE, mas não necessariamente será aceito pela base. O instrumento, a entidade, se demonstrou mais importante do que o seu papel, as suas tarefas e o seu significado para o conjunto do Movimento e para o processo de reorganização.

A segunda questão é: a partir do momento em que é aprovada a ANEL, em que congresso estamos, no Nacional de Estudantes, ou no da nova entidade? Do nada, todas as propostas formuladas durante meses de debates entre os militantes de base do ME, dirigidas ao processo de reorganização passaram automaticamente a serem dirigidas para o programa de uma entidade legitimada, naquele momento, por apenas uma das dezesseis teses inscritas no Congresso. Saímos, quase que misteriosamente, de um congresso da reorganização, para uma discussão sobre quais seriam os próximos passos da ANEL. É certo que esta polêmica seria apreciada e haveria uma deliberação acerca dela, mas o instrumento adequado à execução de determinado programa só pode ser pensado a partir do momento em que o programa está claro para seus sujeitos. Na prática o CNE tinha metade de um programa para uma entidade inteira.

Não foi surpresa o resultado que se deu na plenária. Grande parte das teses que haviam sido inscritas ao Congresso declararam seu rompimento imediato com aquele espaço. Dentre elas, havia tanto posições que se alinham claramente à construção do processo de reorganização, negando completamente a UNE, quanto aquelas que ainda constroem esta entidade. A fundação da ANEL, pela forma que se deu, serviu para impulsionar o processo de fragmentação do movimento de reorganização ao invés de impedi-lo. A forma de todo equivocada como se deliberou acerca do tema abriu margem para as mais diversas avaliações oportunistas que se farão acerca do processo de reestruturação do ME, tentando igualá-lo, do seu início ao fim, à falida União Nacional dos Estudantes.

Serão, justamente, as perspectivas que não confirmam o rompimento com a UNE que ganharão mais espaço neste contexto. Enquanto a antiga entidade visivelmente não representa os estudantes e não pode acompanhar de maneira alguma os processos de luta que se darão, a nova, tampouco, surge como uma alternativa clara de superação das velhas formas e métodos de movimento. O que a ANEL não pode suprir, ainda mais com a marca de nascença que carregará indubitavelmente, é uma resposta para a crise de perspectiva geral pela qual passa o ME. A forma como foi construída (antes as formas, depois o conteúdo) acaba demonstrando que sua única pretensão é a de ser um novo instrumento para o velho movimento. Na verdade, precisamos de um movimento renovado, e não apenas de uma nova direção.

O que esperar, afinal?

Em diversos documentos do Grupo Além do Mito... e mesmo na tese e na pré-tese que construímos e assinamos para o CNE fizemos a discussão acerca do significado de uma nova entidade para o Movimento Estudantil neste momento específico. Para discutir os rumos do ME, no entanto, isto precisa ser retomado, ainda que de forma sintética.

Frente ao momento de refluxo geral em que vivem os movimentos sociais, testemunhamos uma profunda crise de consciência da classe trabalhadora. Ela não consegue dar uma resposta, enquanto classe, para os problemas que enfrenta. Não consegue, portanto, construir um projeto de sociedade alternativa à que está posta atualmente. Esta crise terá seus reflexos em todas as categorias sociais que poderiam lhe dar apoio em um possível movimento de ascenso. Dentre elas, os estudantes. Alinhado a isto, temos a traição das antigas referências das lutas populares, que se transformam em novas personificações do capital. Este processo se deu com a própria União Nacional dos Estudantes no caso brasileiro. Há, então, uma caducidade geral das velhas formas de se construir o movimento e o diálogo com as massas. Estas se encontram imersas em uma intensa alienação provocada pela atual forma de hegemonia do capital. Este contexto geral dificulta uma atuação frutífera junto a elas por parte dos setores sociais que estão à frente das lutas que contestam a lógica da ordem vigente. Dificulta, mas não torna absolutamente impossível.

Frente a esta realidade, os movimentos sociais buscam uma reorganização geral, que em períodos recentes se tornou a tônica no contexto brasileiro, mas acontece em todo o mundo. São novos partidos, centrais sindicais, estudantis, movimentos populares, que buscam atuar em um contexto de grande perplexidade da esquerda. O processo de reorganização existe objetivamente, e assim sendo, é necessário discutir quais são suas tarefas. É preciso ter clareza das tarefas da reorganização em um momento de refluxo.

No que diz respeito ao caso específico do ME brasileiro, uma nova entidade se torna necessária desde o momento em que a UNE se demonstra incapaz de tocar as lutas. Mas, como dissemos anteriormente, ela se torna imprescindível apenas na medida em que representa não apenas uma troca entre aparelhos, mas uma renovação profunda do próprio movimento que organiza. Isto só pode ser provido de uma única maneira: com um processo de reorganização profundamente enraizado nas bases.

É necessário que se precise o próprio significado disto, frente ao momento de refluxo pelo qual se passa. Ter um processo reconhecido na base estudantil não significará nunca que todos os estudantes do Brasil estarão, algum dia, sob a mesma bandeira. Isto jamais foi uma realidade, e pela própria natureza multifacetada da categoria estudantil, jamais será. No entanto, há a possibilidade real de que o processo de reorganização do ME se abra enquanto uma perspectiva a ser aceita ou recusada pelos estudantes. Isto é o que dá chão à discussão real com a base do movimento e à possibilidade de que esta venha constituir-se enquanto sujeito do processo, ou pelo menos seus setores mais avançados.

Esta não é a realidade atual do ME nacional. É evidente, que a UNE não se demonstra enquanto perspectiva para grande parte dos estudantes brasileiros. O setor do movimento que se aglutina em torno do processo de reorganização tampouco chega a representar isto. Antes, há uma apatia geral por parte do corpo estudantil, fruto da conjuntura geral de crise de alternativas pela qual se passa. A maioria não reconhece a UNE, mas, em verdade, sua grande parte não reconhece mesmo o Movimento Estudantil como um todo, sendo engolida pela reprodução cotidiana da forma de sociedade destrutiva em que vive.

Qualquer ato de construção do novo precisa, invariavelmente, passar pela consciência do sujeito desta construção. São os estudantes em sua atuação cotidiana, que podem pôr em movimento um processo de reorganização capaz de atingir seus objetivos essenciais e não a vanguarda do ME. Esta, contudo, terá a função imprescindível de tornar consciente cada passo dado pela sua base. E hoje, é importantíssimo tornar os estudantes conscientes do que significa, de todo, o não reconhecimento da União Nacional dos Estudantes que eles cultivam de forma quase que intuitiva.

Por isto, é precipitada a fundação de uma nova entidade enquanto tal. Pois a ausência da participação real e efetiva da base em seus direcionamentos, em um diálogo recíproco tanto com a vanguarda, quanto com a dinâmica dos processos de luta objetivos, joga um peso determinante no resultado final desta fundação. O momento em que se vive é, antes, o de cumprimento de tarefas negativas da reorganização. É necessário negar a União Nacional de Estudantes em seu conjunto completo e não apenas em seu aparato. Somente a partir daí é possível dar bases a uma discussão do que, realmente, representa o novo. Discussão esta que, exatamente por esta incapacidade de diálogo com as bases do Movimento se demonstra longe de ser vencida pela sua vanguarda.

Desta forma, a ANEL parece representar, e seria precipitado afirmar isto de forma conclusiva, um beco sem saída para a reorganização. Ela se demonstra superior à UNE apenas em seu programa geral. Em absolutamente nenhum outro aspecto, mesmo com toda a experimentação de métodos de organização que pretende levar a frente, ela se diferencia da velha entidade. A ausência da base real do movimento como uma sustentação indispensável para sua formação é que a joga neste isolamento histórico. É evidente que não se pode falar de impossibilidade absoluta de que esta entidade consiga superar este estado. Mas a que se reconhecer que as chances históricas disto acontecer não jogam a favor dela por tudo o que foi dito.

Isto se aprofunda com a análise dos marcos em que é fundada a ANEL. Na tentativa de aproximar os setores do PSOL que dialogam com a ruptura, e que já foram discutidos acima, o PSTU veio, ao longo do maturar de sua proposta, tornando cada vez mais tênue a diferença entre aqueles que rompem com a UNE e aqueles que não rompem. Mais uma vez, a discussão central volta a girar em torno, meramente, do programa do novo instrumento, e não de suas concepções fundamentais, a exemplo do que se passou com a Frente de Luta Contra a Reforma Universitária (ainda que de um patamar organizativo qualitativamente superior). Assim, é possível construir uma nova entidade alternativa à UNE, mas não profundamente antagônica a ela. Uma entidade de oposição de esquerda ao Governo Lula e à Reforma Universitária, mas que não rompe definitivamente com a perspectiva de movimento afirmada pelo velho e que, por isto mesmo, demonstra-se incapaz de dialogar este rompimento com os estudantes, torná-lo concreto e avançar a reorganização. E este é um limite fundamental para a ANEL.

Como dissemos no início, é evidente que qualquer conclusão, hoje, está ameaçada de mudanças por ser apenas preliminar e estar sendo construída no próprio calor da militância cotidiana. No entanto, frente às perspectivas apontadas, não se demonstra frutífero ao ME depositar suas esperanças na Assembléia Nacional dos Estudantes – Livre. Ela não demonstra ter condições objetivas de cumprir as reais tarefas postas para o processo de reorganização. Por esta razão, nós do Grupo Além do Mito... não construiremos a ANEL. Nem mesmo enquanto oposição interna, posto que a própria disputa do instrumento, quando feita da forma consequente, responsável e coerente que prezamos, é uma maneira de construção e maturação do próprio. Para nós, uma entidade tão afastada da base quanto é a ANEL não abre possibilidades para tal, ainda que as razões sejam qualitativamente distintas daquelas que imperam no interior da UNE. Continuamos fazendo a avaliação, que inclusive defendemos durante o CNE, de que atualmente é necessário para o ME um instrumento capaz de sintetizar os esforços da vanguarda estudantil em direção ao aprofundamento do processo de reorganização. Um instrumento que, não sendo uma entidade e arcando com os limites que isto traz, seja capaz de afirmar e dialogar com a base estudantil o cumprimento das tarefas negativas da reorganização. Ou seja, de aprofundar o rompimento com a UNE e tudo aquilo que ela representa para o ME, além de tocar as lutas estudantis do próximo período.

A resolução prática da tarefa de construção deste pólo de organização é algo que ainda precisará ser formulado frente ao contexto de fragmentação do qual se saiu do CNE com os rumos que tomou a plenária final do mesmo. Ao mesmo tempo, é necessário haver clareza no fato certo, e positivo, de que a ANEL irá organizar lutas importantes no momento em que se abre em nossa frente. Dialogar com esta realidade exigirá maturidade dos setores combativos que não a constroem. Será necessário reconhecê-la como uma possível aliança tática para os embates que virão. Isto não legitima seus fóruns, nem seus métodos, apenas reconhece o peso objetivo, no ME, dos setores que a compõem. Já construímos diversas lutas ao lado de setores que continuam reconhecendo a UNE, mesmo aqueles que sequer a criticam enquanto instrumento e perspectiva de Movimento. O mesmo acontecerá em relação à ANEL.

Estaremos dispostos a construir a luta com quem quer que seja a partir de uma unidade tática que tenha como suporte um programa que avance a resistência e a consciência estudantil. Estaremos ainda mais dispostos a nos incluirmos, dentro do alcance objetivo de nossas forças, na realização da hercúlea tarefa de reorganização do Movimento Estudantil. Mas isto se dará junto a uma intransigente convicção de que isto se faz pela base, nas lutas. E com a perspectiva de fundo de que reorganizar o Movimento Estudantil é, na verdade, organizar o desorganizado, não apenas oferecer algo pronto para quem não se encontra preparado para construí-lo. É dar corpo à afirmação do realmente novo e negar o velho, suas faces declaradas e todos os seus disfarces.

GRUPO ALÉM DO MITO...

Maceió, Julho de 2009.

sábado, 30 de maio de 2009

Tese assinada pelo Além do Mito para o CNE

Tese: Amar e Mudar as Coisas!

Lutar para estudar, estudar para lutar!”


Este documento é uma contribuição do grupo “Além do Mito...” e outros estudantes da UFAL ao Congresso Nacional dos Estudantes. Trata-se de parte de nossas discussões sobre os três principais eixos do congresso: conjuntura, educação e Movimento Estudantil. O debate mais aprofundado pode ser encontrado em nossa pré-tese, disponível no site do congresso e no blog grupoalemdomito.blogspot.com.


A Crise do Capital

Mais do que nunca, os tempos atuais testemunham as dificuldades às quais está submetida a humanidade. O caos da violência urbana, a degradação ambiental, o crescimento das desigualdades sociais, a política de guerra das grandes potências econômicas, são apenas mostras dos problemas que acontecem cotidianamente e afetam a todos. Para enfrentar os desafios históricos que estão postos hoje, é necessário discutir suas raízes profundas.

O capitalismo, atual modo de produção, é, em última instância, fundado na desigualdade. Está originado na diferença entre aqueles que possuem os meios de produção e aqueles que não possuem nada além de sua força de trabalho para garantir sua subsistência. Seu objetivo final é a sua própria valorização. Mais importam os lucros do que os homens.

Vivemos uma Crise Estrutural do Capital. Isto significa que ele não consegue mais driblar seus limites. O Capital, nos dias atuais, não possui mais a margem de manobra que, um dia, permitiu-lhe garantir direitos para a classe trabalhadora, como foi o caso do Estado de Bem-Estar Social. Por isto, é possível perceber cada vez mais os ataques a estes direitos e seu conseqüente recuo.

A Crise Estrutural, que se inicia na década de 1970, ocasionou uma significativa queda na taxa de lucros da classe dominante. A resposta para isto foi a política neoliberal que vem sendo implementada desde então. Desta forma, privatizações, sucateamento de serviços públicos e diversas outras formas de atuação fazem com que o Estado recue em diversos ramos econômicos em favor da iniciativa privada, que busca lucros onde, antes, encontravam-se direitos.

Os limites do Capital nos demonstram sua incontrolabilidade. Isto significa, que estão condenadas todas as tentativas de solucionar seus problemas que se dêem por dentro de sua própria lógica. Malfadadas serão, portanto, todas as tentativas de reforma deste sistema. A saída é uma ruptura radical com sua lógica e a fundação de uma nova sociedade. Nenhuma fé deve, então, ser depositada no processo eleitoral, que apenas muda os rostos do poder.

Não bastasse, o capitalismo vale-se dos preconceitos e opressões criados historicamente para justificar sua hiper-exploração a alguns setores. Por isto mais do que quaisquer outros sofrem as mulheres, os negros e os homossexuais, unicamente para que os lucros sejam melhor garantidos. Aos que sofrem as mazelas do Capital só uma solução é viável: o Socialismo.


A Crise de Alternativas e o Governo Lula

As constantes derrotas impostas pelo Capital aos trabalhadores e a traição das tradicionais organizações da esquerda mundial, que mais privilegiaram as disputas parlamentares do que a luta direta dos explorados, fez com que o “canto da sereia” capitalista fosse ouvido e convencesse a bilhões. Para tratar dos que não o engoliram foi intensificada a política de repressão e criminalização dos movimentos populares.

Vivemos a mais longa época de refluxo dos movimentos populares da história. Desde as mobilizações de 1968 e as rebeliões latino-americanas, como o movimento dos sandinistas, não testemunhamos contestações radicais à sociedade do Capital. Isto demonstra que os trabalhadores vivem uma verdadeira crise de alternativas, não tendo o Socialismo como seu norte, apesar de qualquer vitória desta classe ser impossível sem ele. O resgate da bandeira revolucionária se torna, então, indispensável.

Esta realidade, somada ao desgaste da direita tradicional, permitiu que o Capital escolhesse as suas novas personificações, que são representadas por antigos líderes da esquerda, eleitos pelas massas. Entre eles: Lula. Sua função primordial não é outra senão tornar dócil a reação das classes exploradas perante aos ataques cada vez mais frontais aos seus direitos e à sua dignidade levados à frente pelo capitalismo.

No Brasil, este ciclo se conclui em 2003, com a chegada do Partido dos Trabalhadores à presidência. Sua forte presença histórica nas organizações de luta do país, como a UNE e a CUT, fazem com que estas passem de “mala e cuia” para o lado do governo, sendo consumidas, burocraticamente, pelo processo de subordinação do braço social do movimento (sindicatos, entidades estudantis, mov. populares) a seu braço político (o partido). Tudo isto acarretou em grande perplexidade no seio dos movimentos sociais brasileiros, que se encontram divididos e desnorteados.

Lula, no entanto, nada mais faz do que aplicar, com uma ortodoxia maior que seus antecessores, os cânones do neoliberalismo. Sua política em nada se diferencia, na verdade até aprofunda a de FHC e Collor. Isto se estende das Reformas por ele aplicadas (previdenciária, universitária etc.) à corrupção de seu governo.

A saída para os trabalhadores, por tanto, é a re-organização de suas forças. Hoje, a conjuntura aponta para uma unificação dos pólos de luta que têm despontado no país. A mais importante movimentação que tem estado em curso é a unificação da Conlutas e da Intersindical em uma só Central Sindical. Este processo, no entanto, tem sido, ainda, extremamente marcado pela clássica divisão entre o braço social e o braço político do movimento. No entanto, ela só poderá ser efetivamente vitoriosa se for construída pela base e nas lutas cotidianas dos trabalhadores e da juventude.

As tarefas históricas postas para a atual geração são de um porte tão grande que este se compara apenas à sua dificuldade. No entanto, a Crise do Capital é a crise de toda a sociedade atual. Ou estas tarefas são postas na ordem do dia, ou poderá não haver futuro para a humanidade. Vivemos a mais simples, porém mais complexa alternativa dos tempos: devemos escolher entre o Socialismo ou a Barbárie.


Propostas:

Não à Criminalização da Pobreza e dos Movimentos Sociais!

Oposição ao Governo Lula! Contra suas Reformas Neoliberais!

Nenhuma fé no parlamento! Pela organização direta dos trabalhadores e da juventude.

Apoio à Unificação da Conlutas e da Intersindical construída a partir de um Encontro com real participação da Base!

Não à sangria bilionária às empresas e bancos em crise.

Contra as demissões.

Contra qualquer forma de opressão.

Pelo Socialismo como estratégia dos estudantes.

Pela Aliança Operário-Estudantil!

Pela abertura das Universidades para os Trabalhadores


Por uma Educação para além do Capital


A luta por uma educação pública, gratuita e de qualidade deve ser entendida pelos estudantes dentro de uma estrutura estratégica maior do que sua aparência imediata. Esta bandeira abrange, nos dias de hoje, uma dimensão muito mais profunda de contestação da forma de sociabilidade vigente graças à Crise Estrutural do Capital.

Desta forma, o “educação não é mercadoria”, repetido inúmeras vezes pelo movimento, não pode ser entendido fora de uma compreensão teórica de todo abrangente, que decifre as mais íntimas relações às quais está exposta a própria educação. Fazer isto, é tornar o movimento refém de slogans, não armando seus ativistas com uma postura ideológica capaz de compreender todas as tarefas historicamente postas para eles.

A incontrolabilidade do Capital, não permite que ele seja contido dentro das estratégias de reforma de seu sistema social, manifestando-se com uma força avassaladora. Este contexto força à elite econômica a utilizar diversas estratégias para recuperar a valorização de seu capital em crise. Para garantir suas taxas de lucro, que no passado encontravam-se em níveis de grande rentabilidade, a burguesia terá de encontrar novos nichos de valorização de seus investimentos. Estes novos ramos economicamente viáveis estarão, justamente, nas esferas anteriormente garantidas pelo Estado de Bem Estar Social, entre elas, a educação.

A política neoliberal tem no recuo do público em favor do privado a sua principal característica. O resultado disto é o constante descaso em relação aos serviços públicos, que deveriam garantir o acesso a condições mínimas de dignidade à população mais carente e à classe trabalhadora. Com isto, a iniciativa privada pode avançar, garantindo seus lucros com o fornecimento de serviços indispensáveis a todos. No Brasil, a educação é um exemplo claro disto. Desta maneira, está armado o palco para a transformação do que um dia foi entendido como um direito inalienável em mera mercadoria ao acesso unicamente daqueles que possam pagar por ela.

O rebaixamento sofrido pela esfera educacional é extremamente claro. Por um lado, o impedimento, a muitos, ao acesso a uma formação que realmente esteja submetida a critérios reais de qualidade. Por outro, a submissão completa da formação humana às necessidades do mercado passa a ser a regra. Combinada com o sempre presente discurso da limitação financeira para o ensino público faz, então, imperar o conhecido darwinismo acadêmico, onde o “publique ou pereça” vira a medida do verdadeiro compromisso com a produção de conhecimento. Produção que não atende às necessidades sociais, servindo, mais uma vez, à reprodução do Capital.

Diante disto, a bandeira do acesso irrestrito à educação apresenta-se estratégica para o Movimento dos Estudantes. O capitalismo, refém de seus limites objetivos, não pode garantir este direito a todos os seres humanos, embora seja claro que estes deveriam possuí-lo. A universalização de uma formação humana, capaz de fazer com que cada indivíduo possa apropriar-se do patrimônio cultural da humanidade, encontra aí sua força movente profunda. Capaz, então, de levar os estudantes a uma radical contestação da ordem vigente, chocando-se de maneira antagônica contra ela. Neste confronto, a juventude será obrigada a perceber o verdadeiro aliado com o qual pode contar: o proletariado. Sua bandeira pela universalização de uma formação humana de qualidade soma-se, portanto, à luta pela construção de uma nova sociedade efetivamente igualitária, livre, justa e fraterna.


Reforma Universitária e Expansão do Ensino Superior no Brasil

O neoliberalismo será a tônica da política de Estado na América Latina e, especialmente, no Brasil durante toda a década de 1990. Na educação isto não se dá de forma diversa. Os constantes cortes orçamentários em relação às Universidades Públicas, os projetos de governo lançados dia após dia com o objetivo de facilitar o crescimento da iniciativa privada no setor, são os melhores exemplos disto.

implementação da Reforma Universitária escolhida pelo Governo Federal irá dar continuidade a todas as políticas iniciadas por FHC (FIES, ENADE etc.). Estas não encontraram uma resistência fortemente organizada. O que vem a dificultar, ainda mais, as lutas. Lula passa a aprovar sua reforma por partes, desarmando o movimento e fazendo com que ele perca a necessária reflexão global das políticas que vêm sendo executadas.

O golpe mais profundo, desferido pelo neoliberalismo à Universidade Pública foi, sem dúvidas a sua política de expansão. Formada por diversas políticas, das quais o ReUni é uma das maiores expressões, a abertura de novas vagas no ensino superior do Brasil vale-se de uma redução de qualidade que equivale-se à expansão. Assim, sob a alcunha da “otimização” da estrutura das Instituições de Ensino Superior públicas, superlota-se as salas, sobrecarrega-se os professores e técnicos, e, por fim, reduz-se a qualidade da formação recebida pelos estudantes, deixando-se de lado a pesquisa e a extensão universitárias.

Por esta razão, a luta do Movimento Estudantil brasileiro, hoje, está profundamente marcada pela defesa da Universidade Pública. Para tanto, será necessária uma oposição convicta à Reforma Universitária imposta por Lula em seu conjunto.


Propostas:

Contra a Reforma Universitária do Governo Lula!

Boicote ao ENADE e ao SINAES! Por uma avaliação de verdade!

Pela revogação do ReUni!

Pela revogação do ProUni! Transferência de seus estudantes para a rede pública!

Verbas públicas para a educação pública! 10% do PIB para a educação!

Contra o Novo ENEM! Pelo fim do Vestibular!

Pela Universalização da Educação pública, gratuita, de qualidade e voltada para o atendimento das necessidades humanas.


Movimento Estudantil: possibilidades e limites



Entre as mais importantes tarefas postas, hoje, para o Congresso Nacional dos Estudantes está a discussão acerca de que concepção de Movimento Estudantil deverá ser levada à frente pelo setor que se organiza através dele. Para tanto, necessita-se de uma discussão que busque a real posição dos estudantes, enquanto categoria, na sociedade atual.

O ME encaixa-se no conceito comum de mov. social. Ou seja, reúne uma coletividade de pessoas com interesses e pautas semelhantes, na tentativa de conquistá-las através de uma movimentação política orientada para tal fim. No caso dos estudantes, no entanto, há diversas peculiaridades que devem ser levadas em conta.

A primeira, e mais importante delas, é o seu caráter pluriclassista. Formado por pessoas com as mais diversas origens sociais o ME, apesar de seu caráter de classe média preponderante, não possui uma classe social definida, diferente do movimento operário, ou camponês. Isto faz com que, diversas vezes, o ME perca-se em suas pautas políticas, não tendo um projeto de longo prazo definido.

Somado a isto, o movimento caracteriza-se por sua grande necessidade de renovação, já que o período de dedicação a ele, por parte de um estudante é, em geral, limitado. Assim, com a saída de antigos militantes e a entrada de novos, frequentemente o ME passa por períodos de confusão entre suas pautas, envolvendo-se até em problemas de memória do movimento.

O resultado destas condições é que o ME, por natureza, não é um movimento revolucionário, visto que ele encontra-se afastado da esfera economicamente produtiva da sociedade. Para ultrapassar, no entanto, suas dificuldades e conseguir suas pautas primordiais, ele terá de chocar-se contra a sociedade vigente. Assim, os estudantes devem fazer uma opção frente a sociedade que vivem: mantê-la ou transformá-la.

Daí vem o sentido da construção de um ME classista, profundamente ligado às pautas da classe trabalhadora, pois somente desta maneira ele poderá dar consequência real às suas lutas. Aliado a isto, a constante formação teórica e renovação de quadros do movimento, transforma-se em uma necessidade vital para ele. Assim, construir a luta estudantil ao lado dos trabalhadores demonstra-se como o mais eficiente caminho para a construção de um ME consequente e profundamente ligado às demandas populares.



A Reorganização do ME no Brasil



No Brasil, o ME passa por um chamado processo de reorganização. A chegada de Lula à presidência, possibilitada pelo próprio movimento do grande Capital, que vale-se de antigos líderes populares para garantir sua reprodução, faz maturar um processo que já vinha em curso há décadas. O processo da burocratização da União Nacional dos Estudantes.

A UNE, que por bastante tempo mobilizou-se em defesa dos interesses estudantis e populares, passa de “mala e cuia” para as asas do Governo, defendendo todas as suas políticas neoliberais. Somado a isto, o processo de afastamento da base pelo qual passava a entidade desde sua refundação em 1979, faz com que a democracia de seus fóruns seja destruída, impossibilitando-se a sua disputa interna e sua reconquista para as lutas.

Morta para a luta, a UNE não possui mais autonomia frente às organizações políticas que encastelaram-se em sua diretoria há quase vinte anos. Frente a isto, a partir de 2004 o ME combativo e autônomo vem construindo o debate de ruptura com a entidade, amadurecendo a discussão da construção de novos instrumentos, métodos e, principalmente, concepções para o movimento.

A primeira proposta neste sentido foi a CONLUTE. Pretendendo-se mais um espaço de articulação dos setores que rompiam com a UNE, esta coordenação cumpriu um papel importante, inciando o debate acerca da reorganização do ME. Em alguns locais, principalmente nas Universidades Públicas, chegou a conseguir bastante inserção na base do movimento.

A segunda construção da reorganização foi a Frente de Luta Contra a Reforma Universitária, que reunia setores de dentro e de fora da UNE. A frente, no entanto, demonstrou-se por demais estrutural, na prática sendo aprovada apenas as políticas consensuais entre seus setores majoritários, o PSTU e o PSOL. Como funcionava através de acordos entre os setores que a compunham, a Frente, apesar de ter impulsionado as lutas ocorridas em 2007, impediu que o debate da reorganização fosse levado até as suas últimas consequências, ficando a discussão de ruptura com a UNE deixada de lado.



Nova Entidade ou Novo Movimento?



Com o esgotamento dos instrumentos citados acima o debate de fundação de uma Nova Entidade, necessária frente à falência da UNE, ganha mais força. Para enfrentá-lo, é necessário dialogar com o momento geral de refluxo vivido pelos mov. sociais, apesar das lutas do último período. Sendo evidente que esta conjuntura pode mudar em um contexto de crise econômica mundial.

A construção de uma Nova Entidade, neste contexto, não atenderá às tarefas do ME, visto que estará afastada da compreensão da base, não sendo qualitativamente diferente do que existe hoje. No entanto, é necessário ter clareza de quais são as tarefas da reorganização em um momento de refluxo, não sendo permitido ao ME sair do CNE sem um instrumento capaz de articular minimante suas lutas e levar a cabo a construção do Novo Movimento Estudantil. O que não significa ter o apoio de todos os estudantes, mas tornar-se, de fato, uma alternativa de perspectiva para eles, o que não está posto.

Esta construção se dará nas lutas do próprio ME, em um constante debate com a base. Somente assim pode-se forma esta alternativa para os estudantes, que não representa apenas uma Nova Entidade ou direção. Representa uma outra perspectiva de movimento, que entende não valer a pena a construção de um Mov. Estudantil que não seja classista, autônomo, combativo, profundamente democrático e em radical oposição à ordem de coisas vigente.



Propostas:

Lançamento de uma carta de princípios da Reorganização do ME!

Fundação de um espaço de articulação nacional dos estudantes organizado por fora da UNE, que não se pretenda uma Nova Entidade.

Construção de Cursos de Formação Política e Estágios de Vivência com Mov. Sociais!


Assinam esta contribuição:

Dayane Diniz - Serviço Social/UFAL, CARL

Eli Magalhães – Direito/UFAL, DCE/UFAL

Guto Ferreira - Geografia/UFAL, CAGEO

Isabel Correia – Serviço Social/UFAL, CARL, DCE/UFAL

Jainara Oliveira – Ciências Sociais/UFAL, CAFF, DCE/UFAL

Jonatas Barbosa – História/UFAL, CAHIS, DCE/UFAL

Jorge Lucas – Biologia/UFAL, CABIO, DCE/UFAL

Klebson Porfírio – Filosofia/UFAL, DCE/UFAL

Marcus Vinicius – Ciências Sociais/UFAL, CAFF

Myzia Estevão – Estudante de Serviço Social, CARL

Shuellen Peixoto – Jornalismo/UFAL, DCE/UFAL

Túlio de Andrade– Direito/UFAL


GRUPO ALÉM DO MITO


terça-feira, 21 de abril de 2009

Piada de Salão: Falta professor depois da expansão!

PIADA DE SALÃO: FALTA PROFESSOR DEPOIS DA EXPANSÃO!


Na quinta feira, 16 de abril, os estudantes da Universidade Federal de Alagoas de diversos cursos, protagonizaram um ato em defesa da qualidade da educação pública. Organizada pelo Diretório Central dos Estudantes Quilombo dos Palmares, o DCE-UFAL, a manifestação teve início às 16h no Restaurante Universitário, fez uma volta pelo campus e encerrou-se no gabinete da reitora Ana Dayse. Os estudantes exigiram a presença da reitora recusando-se a se retirar da Reitoria sem que fosse entregue uma carta, elaborada pelo DCE e pelos CA’s e DA’s da UFAL, onde era relatada a situação caótica em que se encontra a Universidade.


Inicialmente, a reitora recusou-se a ir até os estudantes solicitando que fosse formada, pelo DCE, uma comissão de negociação com um número reduzido de alunos para dialogar com a administração da Universidade. Os manifestantes, inclusive os que fazem parte da coordenação do Diretório Central, recusaram a proposta e exigiram um diálogo direto com Ana Dayse, que se viu forçada a atender esta demanda, deixando de lado reunião na qual discutia a pauta do vestibular unificado com os diretores das Unidades Acadêmicas da UFAL.


A carta entregue pelos estudantes aborda uma gama vasta de questões. Todas elas, no entanto, estão centralmente ligadas às questões de estrutura da UFAL. Após a política de expansão que vem sendo implementada pela Reitoria e pelo Governo Lula, iniciada com a expansão da Universidade para o interior de Alagoas e, mais recentemente, com o ReUni, a qualidade da instituição tem sido severamente negligenciada. Os problemas estruturais históricos como a falta de salas de aulas e laboratórios devidamente equipados, a insuficiência do acervo das bibliotecas e a Assistência Estudantil defeituosa foram aprofundados com o ingresso de novos estudantes sem o devido acompanhamento estrutural da Universidade. O quadro que se forma hoje é a da falta de professores para a execução do mínimo da vida acadêmica: o oferecimento de aulas. Os que restam, encontram-se bastante sobrecarregados, dando conta de várias turmas de cursos distintos. Há casos de professores que orientam até 20 (vinte) Trabalhos de Conclusão de Curso, o que, obviamente, força para baixo a qualidade da produção científica da UFAL. Desta maneira, pesquisa e extensão são sonhos longínquos para os alunos da Universidade. Todos estes casos agravam-se no tocante ao campus Arapiraca e seus pólos.


A mobilização organizada pelo DCE não foi a primeira a ser realizada com esta pauta. Anteriormente, os estudantes de Comunicação Social e Geografia já haviam realizado atos em protesto com as condições de estudo de seus cursos. Os estudantes de História realizaram um abaixo-assinado no qual exigiam melhorias para a licenciatura e o bacharelado. Na Filosofia e nas Ciências Sociais vinham-se construindo assembléias freqüentes para a discussão do tema. Em Farmácia há tempos as aulas laboratoriais haviam sido paralisadas por falta de materiais e equipamentos. O ato puxado pelo DCE teve, então, a função de dar respostas a estas iniciativas e de unificar as lutas setorializadas que vinham acontecendo, chamando a atenção para o fato de que os problemas repetem-se pela Universidade como um todo.


A avaliação que o Grupo Além do Mito... faz do ato é a de que ele cumpriu sua função principal. O DCE conseguiu dialogar com os estudantes que tomaram parte da manifestação que os problemas concretos enfrentados por eles advêm da política de expansão sem qualidade à qual a UFAL tem sido submetida. No entanto, apesar deste aspecto positivo, a mobilização para a ação demonstrou-se defeituosa. Com uma pauta tão concreta e que afeta diretamente o cotidiano estudantil, esperou-se que mais pessoas agregassem-se ao movimento. O ato foi, contudo, reduzido, agregando, em sua maioria, membros de CA’s, DA’s e do próprio DCE.


Este não pode ser o último passo do movimento. Vivemos um momento em que a luta por qualidade na educação parece se mesclar diretamente com o cotidiano concreto da sala de aula. Os interesses imediatos dos estudantes estão sendo atacados num momento em que a Universidade é expandida sob um discurso democratizante falseador (proferido por Ana Dayse e Lula) que, ao mesmo tempo em que abre mais vagas na UFAL, o que é positivo, reduz pela metade a verba destinada à Assistência Estudantil por conta da crise econômica, deixando os alunos à própria sorte.


A Reitoria enviará uma explicação à carta entregue pelo Movimento Estudantil dentro de 15 (quinze) dias. A função do DCE, neste momento, deve ser a de organizar a resposta dos estudantes às razões apresentadas por Ana Dayse. Estas respostas devem partir, invariavelmente, daqueles que estão sofrendo na pele os problemas trazidos pela expansão irresponsável levada a cabo pelo Governo e pela Reitoria: o próprio corpo discente. Para tanto, é necessária a convocação de uma Assembléia Geral dos Estudantes na qual devem ser apresentadas as perspectivas da administração da UFAL e discutidos os próximos passos do Movimento.


Nossa resistência à precarização da Universidade deve estar plantada em cada sala de aula, em cada corredor, em cada pátio da UFAL. É necessário que os estudantes sejam os sujeitos desta luta. O DCE e os CA’s/DA’s são nossos pontos de apoio e organização privilegiados e indispensáveis, mas não os protagonistas deste enfrentamento. Para conquistarmos esta vitória precisaremos da formulação direta e organizada do corpo estudantil. Portanto, devemos ampliar os espaços de discussão destas mobilizações e não aceitar, de forma alguma, negociações feitas através de comissões ou quaisquer outros tipos de proposta que tornem enviesado este processo de luta direta.


Universidade: queremos de verdade!


Maceió, abril de 2009

Grupo Além do Mito...



sexta-feira, 27 de março de 2009

Pré-Tese para o Congresso Nacional de Estudantes

Pré-Tese do Grupo Além do Mito...

Contribuição ao debate do Congresso Nacional de Estudantes

“Amar e mudar as coisas me interessa mais...” – Belchior

Este documento visa apresentar os primeiros debates do grupo Além do Mito... acerca do Congresso Nacional de Estudantes, a ser realizado este ano na cidade do Rio de Janeiro. Nosso objetivo, aqui, é trazer à tona uma discussão de fundo, a ser mais concretizada em nossa Tese ao CNE, sobre o que consideramos serem as principais preocupações do Movimento Estudantil brasileiro no momento em que nos encontramos.

Os incessantes ataques à educação pública, gratuita e de qualidade, tornam explícita a lógica profunda que move o contexto atual. Uma lógica de privatizações, sucateamento do setor público, hipervalorização e crescimento do setor privado em detrimento do real atendimento das necessidades humanas. Esta dinâmica se apresenta ainda mais acentuada no contexto da crise econômica gestada nas entranhas do Capitalismo, da qual não podemos prever as conseqüências, nem, muito menos, receber passivos os ataques que serão levados à frente pela elite econômica em prejuízo dos direitos dos trabalhadores e da juventude.

Como espaço de aglutinação do setor mais avançado do movimento dos estudantes, o CNE não pode passar incólume por estas questões. Para nós, do grupo Além do Mito..., sua tarefa principal é discutir as concepções, os marcos e os princípios que devem nortear os próximos passos do Movimento Estudantil combativo na luta contra a crise, contra a mercantilização da educação e pela afirmação de um Novo Movimento Estudantil. No entanto, concretizar estes objetivos sem entender o papel social da educação e sem uma avaliação crítica dos últimos passos do ME brasileiro é uma impossibilidade. É por aí que iniciamos os debates do CNE.

A Crise e as tarefas da Juventude

Crise estrutural e Neoliberalismo

Toda análise de conjuntura no período em que nos encontramos deve partir obrigatoriamente da Crise Estrutural do Capital, iniciada há cerca de 35 anos, do movimento feito pelo capitalismo mundial neste espaço de tempo e da crise econômica atual, fruto das contradições criadas e acumuladas por este movimento.

A partir da década de 1970, chega ao fim o dinamismo produtivo e a expansão “sem limites” do capitalismo. O sistema passou a se deparar com barreiras intransponíveis dentro de sua lógica. De fato, não há uma infinidade de recursos naturais à explorar, não há uma demanda eterna a suprir as necessidades imperativas de produção e reprodução de capital e em contrapartida, o sistema que antes parecia não ter limites passa a ter a necessidade de forjar mecanismos que segurem a crescente perda da sua taxa de lucratividade.

Desde então, é fator nodal ao capital inovar nas suas formas de produção: “produzir mais e de forma mais barata” passa a ser a regra daqueles que querem sobreviver no sistema. Junto a isto, é necessário diminuir a vida útil das mercadorias no intuito de obrigar uma renovação crescente no consumo. Para viabilizar estes processos, o sistema carece de “revolucionar” os meios de produção através da inserção de ciência avançada nos processos produtivos – inovação tecnológica – e da combinação do antigo modelo fordista de produção associado ao recém criado toyotismo, que tem a produção por demanda como uma das principais características. Em conformidade com estas medidas, é necessário acabar com os postos de trabalho “saturados” e aumentar drasticamente a exploração daqueles trabalhadores que continuarem no processo de produção.

São nestas bases que a classe burguesa estabelece os marcos de sobrevivência de seu sistema de exploração. Com sucesso, no chão da fábrica, a burguesia implementa sua reestruturação produtiva e, como resposta político-ideológica, formula as bases do que será a busca pela “desregulamentação universal”, o neoliberalismo.

Hoje, não há nenhum âmbito social que não seja mediado pela lógica do capital, de modo que aqueles outrora tomados como responsabilidade do Estado, por meio dos embates empreendidos pela classe trabalhadora no conjunto da luta de classes, se encontram completamente deteriorados pelo sucateamento e privatização estabelecidos com vistas a responder à crise estrutural.

O pensamento neoliberal tomou conta não apenas das estruturas políticas da sociedade, até mesmo a chamada “elite acadêmica” acabou sendo engolida pela idéia de que não há alternativa ao capitalismo e de que quão mais o sistema se torne eficiente, melhor poderá tratar dos problemas sociais. A doença, agora tornada remédio, é propagada como necessária e condizente aos impulsos mais legítimos da sociedade. Se no mercado, ganham aqueles que conseguirem derrubar seus adversários, na vida social, ganha o indivíduo que estiver mais apto e que melhor se submeter aos ímpetos da lógica capitalista.

Após cerca de três décadas de neoliberalismo, deparamo-nos hoje com seus efeitos em todas as esferas da sociedade. A grande desregulamentação do trabalho e privatização impostas aniquilaram os mecanismos de defesa da classe trabalhadora e submeteram os países periféricos aos ditames das grandes potências. Nunca na história da humanidade se viu tal necessidade de dominação universal e permanente.

Para manter o sistema sem entraves, o grande capital, especialmente o estadunidense, teve de financiar dezenas de aventuras militares numa ofensiva imperialista contra qualquer povo ou país que não seguisse religiosamente os ditames da “grande nação americana”. A humanidade conta aos milhões o número de mortos, mutilados e atingidos pela escalada bélica da burguesia. É fato, se há algo que as últimas décadas do século XX nos mostraram é que o imperialismo está disposto a sacrificar a própria existência de vida no planeta para salvar o sistema capitalista de produção. Partimos das intervenções dos organismos de inteligência e dos boicotes políticos e econômicos para a mais deslavada chantagem através da ameaça nuclear. Não foram poucas as vezes que vimos a força bélica sendo utilizada como argumento.

A Crise Econômica e a saída para a classe trabalhadora

Se na política o sistema capitalista aprofundou sua natureza nociva, na esfera econômica, além do movimento de reestruturação produtiva, começa a se cristalizar rapidamente uma forma de acumulação de riqueza que mantém uma relativa dependência para com a esfera da produção.

O chamado capital financeiro se firma como um setor avançado do domínio burguês que, através da construção de uma série de mecanismos e do estimulo a uma completa financeirização da economia, em pouquíssimo tempo consegue impor seus interesses imediatos como pauta do dia nas agendas dos estados. Vale ressaltar que essa supremacia construída por esse setor da classe dominante não foi resultado apenas do aproveitamento de uma conjuntura favorável aos seus negócios; pelo contrário, os movimentos do capital em sua crise estrutural colocam como necessidade imperativa a constituição de um setor que possa literalmente sugar uma parcela da mais-valia universal e em contrapartida – através dos inúmeros mecanismos de oferta de crédito e dos diferentes ramos de especulação outrora forjados – estimular uma produção de mercadorias muito além das necessidades sociais. Como as grandes corporações possuem um enorme volume de capital “financeirizado”, esta produção irá estimular uma nova alavanca no mercado financeiro e este por sua vez fará com o que ciclo se reinicie. A enorme acumulação e a garantia de lucros fáceis fazem com que a especulação financeira vá de encontro à estratosfera.

É desta forma que vai se constituir um elevado padrão de consumo por parte da elite e dos setores medianos da sociedade, tanto nos países centrais quanto nas regiões mais avançadas da periferia do capital. A compra de artigos de luxo, de imóveis, de automóveis e a realização de viagens constantes – o que desenvolverá um setor de turismo em escala global – formam um status social a ser buscado por todos. Para além disso, manter este padrão é sinônimo de sucesso pessoal. A medida da felicidade de cada um está diretamente ligada à medida de seu consumo.

Considerando o grau de alienação e fetichismo existentes, os próprios setores menos abastados da sociedade são estimulados a seguir este padrão. E, à sua forma, seguem.

No entanto, como cada passo do capitalismo leva consigo uma nova contradição, tornou-se insustentável manter o elevado nível de consumo e, aliado a isto, uma crescente desregulamentação e precarização dos assalariados. O endividamento generalizou-se pela sociedade e os títulos de dívidas, tornados papéis negociáveis pelo mercado financeiro, começaram a ter sua liquidez questionada. Em alguns dias, bilhões de dólares literalmente sumiram do mercado. Empresas e bancos que há poucos meses eram sólidos, se “desmancharam no ar”.

Para salvar o sistema da total quebra, entra em cena o Estado. Se durante décadas ele era tratado como um entrave aos negócios, devendo ter sua função restrita o máximo possível, agora será aquele que garantirá a sobrevida necessária neste momento de queda vertical da economia capitalista. Toda a classe dominante está unida para defender as medidas intervencionistas do Estado e não têm o menor pudor em jogar fora todo o discurso neoliberal de outrora. Desde que tivemos as primeiras notícias da crise que o sistema adentrou, trilhões de dólares de recursos do Estado foram injetados na tentativa de “dar liquidez” ao mercado. Os arautos da economia burguesa fazem questão de propagandear que todos devemos dar nossa contribuição para superar este “período de turbulência”. Querem jogar nas costas de todos a responsabilidade pela crise.

Não tenhamos dúvidas, ainda há muita coisa por vir. A crise demonstra estar apenas em sua fase inicial e as medidas da burguesia sequer serviram para estipular um horizonte seguro, pelo contrário, quanto mais têm atuado, mais contradições têm colocado em cena.

No final das contas, sabemos que a classe dominante tentará jogar todos os custos da crise contra os trabalhadores e estes por sua vez precisam tomar consciência de que não há conciliação possível com aqueles que vivem da exploração do trabalho. É necessário organizar a classe e colocar seus mecanismos de luta em funcionamento, não para superar a crise, não apenas para garantir os empregos e direitos, precisamos construir uma ofensiva em vistas ao rompimento com o sistema do capital, e à construção do socialismo.

Os estudantes precisam tomar uma posição na luta de classes e esta posição deve ser em defesa daqueles que constroem toda a riqueza deste mundo e que são expropriados dos frutos de seu trabalho. Ou superamos a crise numa perspectiva de elevação da luta de classes, ou mais uma vez seremos tragados pela lógica nefasta do capital, que coloca tudo e todos em defesa dos interesses do próprio capital e não das necessidades humanas.

Crise, Educação e a Luta contra a Mercantilização

O Congresso Nacional de Estudantes terá como uma de suas principais tarefas a discussão de uma concepção profundamente fundamentada acerca da educação. Envolto no contexto da reorganização da categoria estudantil, o CNE não poderá se furtar a este debate, que deve servir para definir objetivos táticos e estratégicos dos estudantes. Não discutir, hoje, a concepção de educação que deve ser defendida pelo Movimento Estudantil combativo é, sem sombra de dúvidas, esvaziar de sentido o próprio processo de reorganização, já que é nesta esfera onde primordialmente se desenvolvem as lutas deste movimento.

A necessidade posta, portanto, em tempos de crise econômica e, mais ainda, de crise estrutural do Capital, é a do resgate do papel originário da educação. As armas a serem utilizadas pelo ME para combater a mercantilização que afeta o sistema educacional não devem ser outras senão a lucidez teórica, a sobriedade de leitura conjuntural e a prática militante intransigentemente orientada para a defesa de uma concepção de educação que revele a real função desta atividade como uma necessidade humana, e não um mero valor de troca.

Nós, membros do grupo Além do Mito, entendemos ser esta a postura que deve servir ao ME em sua luta diária. E isto se dá porque, a partir de uma concepção de fundo acerca da educação, pode-se pôr em evidência para os estudantes uma bandeira estratégica mais ampla: a da luta por uma educação voltada para os interesses sociais e, portanto, para a superação da forma de sociedade em que vivemos.

Educação: Uma necessidade humana.

Como toda atividade humana a educação estará dirigida a uma determinada finalidade social. Para entender o papel que ela cumpre é importante, logo, buscar este fim original ao qual ela atende. Este entendimento, no entanto, torna-se não apenas incompleto, mas impossível, sem uma prévia investigação acerca da própria condição humana.

Os seres humanos irão diferenciar-se de todas as outras coisas existentes por uma característica que lhes é peculiar: sua radical historicidade. Significa dizer que, ao contrário de todas as outras formas de existência, presentes na realidade, os homens têm a capacidade de construir sua própria história, seu próprio contexto. Através de sua atividade são capazes de moldar o mundo ao seu redor, bem como sua própria forma de organização social, concretizada em diversos estágios de complexidade que de maneira mais ou menos direta determinarão a forma como se relacionam entre si.

Com isto, não é exagero dizer que a humanidade significa uma revolução na existência. Ao contrário da natureza, os homens são capazes de tomar conscientemente em suas mãos o seu próprio destino. Basta perceber que enquanto uma colméia de abelhas organiza-se de forma igual há milhares de anos pelo menos, o mesmo não acontece com as sociedades humanas, que neste mesmo período atravessarão as mais diversas formas de organização. A atividade humana, no entanto, que lhe lega esta qualidade é o trabalho.

Trabalhar é transformar a natureza de acordo com determinados objetivos, na busca pela satisfação das necessidades humanas. Os homens vêm transformando a natureza desde sua origem. Sejam as primeiras ferramentas pré-históricas, ou os variados utensílios modernos, toda a riqueza humana advém do trabalho. Esta atividade é a responsável pela construção do novo. Sem ela, o homem jamais teria deixado sua condição a-histórica. É, então, o trabalho, o ato fundante da humanidade.

Acontece que, ao construir o novo, a humanidade cria, junto com ele, novas necessidades que não poderia prever de início. Desta maneira, o trabalho impulsiona os seres humanos a diversas outras atividades que não se resumem a ele. Com o ato de trabalhar, nascerá, por exemplo, a necessidade do conhecimento.

A questão do conhecimento é de importância capital para o debate acerca da educação. Ora, se trabalhar é transformar a natureza para atender a determinadas necessidades dos homens, quanto maior for o conhecimento acerca das coisas, maior será a chance de os objetivos do ato de transformá-las serem atingidos. Ou seja, quanto mais conhecimento possui a humanidade, maior é a possibilidade de suas necessidades serem atendidas. É evidente que, com o impulso proporcionado pelo trabalho, o aumento da complexidade da sociedade humana fará com que o conhecimento deixe de resumir-se à natureza e passe a voltar-se, inclusive, para a própria humanidade.

A educação surge neste contexto como uma forma de perpetuar e expandir este conhecimento. É, então, uma condição fundamental para a elevação da consciência do gênero humano, cada vez mais ciente de si-mesmo. É a atividade que permite ao indivíduo apropriar-se do patrimônio cultural da humanidade, tornando-se consciente de sua participação no gênero e, a partir daí, forçar positivamente sua evolução social.

Não restrita a apenas o seu sentido formal, o complexo educacional é, desta forma, condição indispensável para a reprodução social da humanidade. É através dele que o indivíduo que se apropria da experiência genérica humana pode responder às novas necessidades postas pela história. Sua função é, assim, conservadora. Não necessariamente em um sentido político, mas em um sentido ontológico. Ou seja, é indispensável para a conservação da humanidade enquanto tal, já que, a reprodução social humana é uma incessante construção do novo.

Apesar de seu papel essencial descrito acima, a educação cumprirá uma função diversa em cada uma das formações sociais diferentes pelas quais passem os homens. Com o advento da propriedade privada, da divisão social do trabalho e da divisão da sociedade em classes sociais, a educação tomará uma postura mais complexa e que acabará por excluir deste processo grandes contingentes da própria humanidade.

Conhecimento e Capital: Educação não é mercadoria!

Nas sociedades anteriores ao capitalismo, a educação mais completa que poderia ser oferecida era restringida às classes com maior poder político. Enquanto aos senhores feudais, por exemplo, era dada a oportunidade de estudar nas Universidades medievais, aos servos, por sua vez, bastavam-lhes as instruções básicas de como executar seu rústico trabalho.

Com a sociedade do Capital, no entanto, a situação é posta de uma maneira diferente. O advento da industrialização passa a exigir uma classe trabalhadora muito mais qualificada que os antigos servos. A própria necessidade do mercado, criada pelo novo modo de produção, acaba por abrir as portas das escolas à classe operária nos meados do séc. XIX. No capitalismo, a educação formal é, então, massificada. Por óbvio este processo não se dá de maneira instantânea, nem em todas as suas esferas. Além disso, será um processo alvo de inúmeros avanços e recuos que, em essência, nunca chegará à sua universalização para todos os seres humanos.

Acontece que o fundamento da forma de sociabilidade em que vivemos é o trabalho assalariado. Este é, essencialmente, produtor de mercadorias. A mercadoria é a categoria que permite a troca de valores no mercado. Ou seja, sem ela, a própria existência do capitalismo seria uma impossibilidade.

A produção de valores de uso, por sua vez, passa a ser subjugada à produção de valores-de-troca. Isto é, pouco importa, para a atual forma de sociedade, o quanto possam atender às necessidades humanas as coisas produzidas, importante é, na verdade, sua capacidade de circulação mercantil. Com isto, o mercado passa a ser a forma predominante de apropriação da riqueza socialmente produzida por parte dos indivíduos. Não poder participar do mercado significa, então, ter em risco sua própria sobrevivência.

É assim que todo aquele que puder oferecer algo ao “deus” mercado o fará. Conseqüentemente, a forma mercantil atingirá a diversas outras áreas da vida humana que não somente àquelas envolvidas com o processo de produção. O mercado oferecerá a oportunidade, para aquele que possa pagar, de comprar arte, diversão, saúde, sexo, e, entre outros, educação. Para os que não possam pagar o mercado não encontrará soluções satisfatórias.

Assim, o capitalismo submete a tudo e a todos à sua lógica de mercado. Transforma em coisas, por tanto, a maior parte, se não a totalidade, das dimensões da vida humana. Perder de vista este processo de coisificação significa reduzir ao vazio a luta do Movimento Estudantil. Reduz a mero slogan (“educação não é mercadoria”), quase sem sentido de tantas vezes repetido, o embate central no campo da educação atualmente: a recusa de que ela seja submetida à lógica do Capital.

Educação e Crise: O avanço da privatização.

Com a grande depressão econômica de 1929 o Capital será forçado a buscar soluções para suas contradições internas. É após a Segunda Guerra Mundial e, em grande medida, graças a toda a destruição por ela causada, que será encontrada a sua alternativa. O Estado de Bem Estar Social irá basear-se no pacto entre Capital e Trabalho, com significativa intervenção estatal na economia.

Durante este período, foi possível notar um reaquecimento da economia capitalista baseado em uma gama de fatores que envolviam a regulação econômica pelo Estado, a reconstrução do que havia sido devastado pela Guerra, o pleno emprego etc. Entre estes estaria, com importância significativa, o fornecimento, por parte do Estado, de serviços públicos que chegariam a elevar o nível de vida da classe trabalhadora.

A educação passa a ser entendida como um direito, figurando na maior parte das legislações modernas. O Estado Social, no entanto, não dura mais do que três décadas de existência, entre 1940 e 1970. Além disto, não pode deixar de ser notado o fato de que sua extensão espacial restringiu-se aos países desenvolvidos do norte. O “bem estar social” ficaria, portanto, apenas no papel das Constituições para os países não-desenvolvidos na maioria das vezes. Ainda assim, sua ilusão foi o suficiente para realimentar o sonho reformista de superação do capitalismo por dentro de sua própria lógica.

Entre o fim da década de 1960 e o início da de 1970 o Capital entra novamente em crise. Desta vez, de maneira tão avassaladora que impulsiona a classe dominante a encontrar saídas para a crise em uma completa reestruturação do campo produtivo. A queda da taxa de lucros do empresariado e a saturação dos mercados farão então com que a burguesia pressione o Estado a deixar de lado os serviços antes fornecidos à população. Com isto, seria possível à iniciativa privada a busca por novos ramos econômicos, suficientemente lucrativos, para a valorização de seu capital. A educação, por óbvio, estará entre eles. É o início da era neoliberal, impulsionada pela crise estrutural do Capital.

O neoliberalismo é a reposta da elite à crise do Capital. Desta maneira, ele será constituído de ataques cada vez mais frontais aos direitos da classe trabalhadora. No tocante à educação, será arquitetada toda uma política consciente de sucateamento do fornecimento público deste serviço. Por óbvio, a iniciativa privada passa a exercer um papel primordial no fornecimento de serviços educacionais. Estes, no entanto, como já dito antes, ficarão restritos àqueles que puderem pagar, enquanto os menos abastados serão condenados à precária rede educacional oferecida pelo poder público.

No Brasil, os primeiros ataques serão dirigidos aos ensinos fundamental e médio. Atualmente, a política liderada pelos organismos internacionais que buscam salvar o Capital e posta em prática pelo Governo Lula volta-se contra a Universidade Pública. A Reforma Universitária que vem sendo implementada pelo PT desde 2003 é a melhor das expressões da estratégia neoliberal para a educação. Com uma escancarada política de privatização branca o Governo Petista vai, aos poucos, minando o sistema de ensino superior gratuito e, ao mesmo tempo, incentivando o setor privado com programas como o ProUni e o Fies.

A tática utilizada para driblar o movimento de defesa da educação pelo governo foi a da fragmentação da Reforma. Não bastasse, vale-se também da propaganda e da cooptação de diversos setores dos Movimentos Sociais, como a própria União Nacional dos Estudantes (UNE). Foi assim que Lula conseguiu fazer com que o movimento, como um todo, engolisse sua pauta. Na prática, o fracionamento da Reforma Universitária fez com que, por mais de uma vez, os que resistem à privatização da Universidade Pública corressem, de um ponto a outro da reforma, como que desorientados para a defesa de tantos ataques. No fim, o movimento acabou por perder a globalidade do debate acerca da destruição da educação superior, organizando-se a cada medida governamental e, sucessivamente, sendo derrotado. É sintomático, por exemplo, como o Movimento Estudantil costuma organizar-se para o boicote ao ENADE apenas próximo ao período da prova, ou como, com o advento do REUNI o movimento resumiu-se a repudiá-lo isoladamente em suas reivindicações deixando de lado toda uma construção permanente da luta pela Universidade Pública e uma crítica global à reforma neoliberal.

O retorno ao debate global sobre a Reforma Universitária se põe, portanto, na ordem do dia. Principalmente pelo fato de que a UNE, em seu CONEB realizado no último Janeiro, retomou esta discussão. Isto vem a significar, então, que o Governo possui engatilhada uma nova seqüência de ataques à educação superior, já que a UNE nada mais faz do que antecipar a política governista na tentativa de amenizar os choques em direção a ela.

Com a atual crise econômica, deflagrada no segundo semestre de 2008, o Governo Federal tem destinado bilhões de reais aos banqueiros na tentativa de salvar as empresas da total falência. A ajuda governamental, contudo, não tem servido para impedir que os patrões ponham para a rua um grande número de trabalhadores. Mais de meio milhão de postos de trabalho foram fechados o que era uma marolinha no fim de dezembro tornou-se um furacão irrefreável.

Todo o dinheiro destinado ao salvamento das empresas, sem dúvidas, sairá do orçamento das áreas sociais. Com mais de R$ 1 bi já cortados, a educação, claro, não passaria ilesa. Os cortes atingirão, provavelmente, as áreas consideradas “secundárias” pela política neoliberal. Quer dizer, no caso educacional, que os primeiros contingenciamentos de verbas atingirão, exatamente, a Assistência Estudantil.

As bandeiras imediatas do Movimento Estudantil estarão centradas, então: a) na luta contra a Reforma Universitária privatista; b) na luta por democracia efetiva nas Universidades e Escolas; c) na luta pela revogação do REUNI e por uma expansão de qualidade; d) na luta por mais verbas públicas para a Educação Pública; e) na luta pela manutenção do tripé universitário ensino-pesquisa-extensão; f) na luta pela universalização da assistência estudantil; e g) na luta contra a restrição à meia-entrada e quaisquer outros direitos dos estudantes.

Educação e Emancipação

A luta contra a privatização é voltada, como vimos, contra uma lógica profunda do Capital. A lógica da transformação de todas as dimensões da vida humana em mercadoria. Acontece que lutar contra a dominação do mercado sem ter em vista que sua superação só se dará com a superação do próprio capitalismo levará o Movimento Estudantil ao imediatismo e aos becos do reformismo. Para tanto, é necessário que os estudantes portem uma concepção ideológica acerca da educação que resgate o sua qualidade original de necessidade humana e não de mercadoria.

Esta concepção ideológica de fundo levará o ME a reconhecer seus aliados principais: os trabalhadores. À classe trabalhadora interessa a superação da sociedade do Capital e o fim da exploração do homem pelo homem. A ela interessa, também, uma educação livre das amarras da alienação e do mercado, posto que, principalmente, aos oprimidos e explorados que é negada a apropriação do patrimônio cultural humano.

O Movimento Estudantil classista deve, portanto, lutar pela emancipação humana total. Apenas a partir daí será possível uma educação emancipada, voltada para o atendimento das necessidades humanas. Por óbvio, não serão os estudantes que iram liderar este combate, mas os trabalhadores. É nesta condição que reside o fundamento da aliança operário-estudantil, que deve ser levantada novamente pela juventude.

O Congresso Nacional de Estudantes como primeiro espaço de aprofundamento de debates e acúmulos a ser realizado no contexto da reorganização estudantil deve voltar-se cuidadosamente a todos estes aspectos. Devem os estudantes em luta perceberem que seus objetivos se dirigem à universalização da educação como necessidade humana. Para tanto, é necessária a percepção de que este objetivo não pode estar dissociado da luta, mais abrangente, pelo fim da exploração do homem pelo homem.

Construir o Novo Movimento Estudantil e defender a Educação em aliança com os Trabalhadores

O Congresso Nacional de Estudantes será o primeiro espaço de acúmulo real de debates a ser realizado no contexto da Reorganização Estudantil. Neste sentido, não é permitido ao Movimento Estudantil combativo perder a oportunidade de construir uma avaliação sóbria sobre seus passos ao mesmo tempo em que concretiza novos rumos frente à realidade posta.

Para nós, a tarefa primeira do CNE é discutir as concepções, os marcos e os princípios que devem nortear o processo de reorganização. Será necessário o enfrentamento das questões concretamente postas, como a polêmica acerca da Nova Entidade Estudantil. Esta pauta, contudo, não se apresenta como a principal. Este será um encaminhamento a ser dado ou não durante o congresso. Mais importante, é discutir os avanços e retrocessos deste processo em curso, aprofundá-lo e dar-lhe conseqüência. Para tanto, o resgate das bandeiras de um ME classista, combativo, autônomo e radicalmente democrático é fundamental.

A necessidade e os passos da Reorganização do Movimento Estudantil

A chegada de Lula à presidência em 2002 significa o fim de um ciclo na história da esquerda brasileira. Com efeito, a completa transição do Partido dos Trabalhadores para a trincheira da defesa e manutenção da ordem posta, com sua sistemática aplicação da política neoliberal, acaba acarretando na perda de uma das maiores referências da militância que lutava em defesa dos direitos da classe trabalhadora. Com isto, as entidades que, em outro contexto, encampavam esta luta passam a defender as mesmas políticas aplicadas pelo governo. Nesta situação encontram-se a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), que acentuam o processo de burocratização e afastamento de suas bases que já vinha em curso, culminando com a completa traição aos interesses dos oprimidos e explorados, passando a servir como verdadeiras correias de transmissão do governo frente aos movimentos sindical e estudantil. No caso da UNE, é emblemática sua defesa ao projeto de Reforma Universitária privatista apresentado por Lula. É a partir daí que a esquerda nacional sente a necessidade de iniciar um processo de reorganização.

No campo da educação os ataques foram brutais. Com a Reforma sendo aprovada “a conta gotas” houve bastante dificuldade na organização de grandes mobilizações. Para dar respostas a este momento, o Movimento Estudantil convoca um encontro nacional contra a Reforma Universitária, onde é fundada a Coordenação Nacional de Lutas dos Estudantes, em 2004. A CONLUTE serviria como pólo de aglutinação dos setores combativos do ME que decidiram por romper com a falida UNE, articulando-os minimamente para a resistência ao projeto neoliberal para a educação. Neste sentido, ela consegue relativo avanço, afirmando-se no combate diário dos estudantes e organizando um real embate frente às políticas petistas, enquanto algumas correntes da luta contra a Reforma faziam, ainda, o debate do “governo em disputa”.

No entanto, por sua opção política de rompimento com a UNE, a CONLUTE não poderia abarcar todos os setores que se dispunham a resistir à Reforma. Neste sentido, em 2006, surge a Frente de Luta Contra a Reforma Universitária. Majoritariamente construída pelo PSTU e pelo PSOL, a Frente logo demonstraria suas limitações, porém, por outro lado, viria a deixar claro que qualquer embate verdadeiro à política neoliberal só poderia ser feito por fora da UNE.

A partir daí, não se pode negar o papel cumprido pela Frente, que protagonizou as maiores lutas do país, sendo um instrumento presente nas diversas ocupações de reitorias do ano de 2007. As mobilizações deste momento foram, sem dúvidas, de grande importância para o Movimento Estudantil. No primeiro semestre do ano em questão, várias ocupações foram organizadas em torno da pauta da Assistência Estudantil e da Autonomia Universitária. Após o meio do ano, a luta se deu principalmente contra o decreto do REUNI.

Apesar da fragmentação geral em que se encontraram estas mobilizações, não conseguindo definir uma pauta unitária a nível nacional, é inegável que não poderiam ter acontecido fora do contexto de reorganização estudantil que se alastrava por todo o país. A volta à cena dos estudantes faz com que o governo e as reitorias, ávidos pela aprovação do REUNI, respondessem com o aumento da truculência e da repressão sobre o movimento. Com a aprovação do decreto em todas as IFES em Conselhos Universitários ilegais e com forte aparato policial, o saldo que nos restou foi a perseguição a muitos de nossos companheiros, processados administrativa e judicialmente pelas reitorias.

Mesmo neste contexto de repressão, o movimento arrefece no ano de 2008, não conseguindo se armar como necessário para barrar estes processos. As mobilizações que acontecem neste ano (ocupações da UNB e da UNISANTOS) surgem já em um contexto de descenso e, nem de longe, se comparam ao 2007 estudantil que contou com um entorno de 20 ocupações de reitorias. Nem mesmo os calendários de lutas tirados nos espaços da reorganização, como o Encontro Nacional de Estudantes no fim do primeiro semestre de 2008, foram levados às suas conseqüências necessárias, não sendo concretizados satisfatoriamente. Esta prática foi reiterada tanto no que diz respeito à CONLUTE quanto à Frente de Luta Contra a Reforma Universitária, o que demonstra o caráter de frouxidão em que ambos foram estabelecidos.

As limitações da Frente atingiram, de maneira muito mais intensa, a própria dinâmica da CONLUTE. Esta última, na prática, deixou de funcionar sendo abandonada, principalmente, por seu setor majoritário em nome da aliança tática com os setores que ainda disputam a UNE. A “unidade artificial” que dava bases à Frente terminou por inviabilizar o debate de aprofundamento da reorganização estudantil que era levado pela CONLUTE em seu início. De fato, esta passou a funcionar apenas quando a Frente se recusava a realizar determinadas lutas, como foi o caso do Plebiscito Nacional Contra o REUNI.

Como os espaços da Frente de Luta Contra a Reforma Universitária só funcionavam a partir do consenso, o debate de ruptura com a UNE teve de ser deixado de lado em nome da garantia do diálogo entre os setores que a compunham. Assim, maquiou-se de forma tosca o fato que não poderia ser escanteado: o de que todo o processo de lutas ocorrido nos últimos anos se deu no interior do curso da reorganização estudantil, que, por sua vez, põe em xeque o papel da União Nacional dos Estudantes. Era notório o caráter imediatista da Frente e que, apesar de nascida no seio da reorganização do ME e, como já foi dito, em conseqüência do mesmo, não oferecia alternativas ao momento. Já a CONLUTE, continua existindo, embora somente com a finalidade dos militantes do PSTU falarem em seu nome nos espaços do movimento (é válido questionar como foram designados nomes para tal função dentro da Coordenação).

As tarefas organizativas do Congresso Nacional de Estudantes

Mesmo com a força que os estudantes demonstraram em 2007, com tantas lutas sendo postas em movimento simultaneamente com pautas semelhantes, não se conseguiu construir uma unificação das mesmas. O motivo maior disso é que, apesar do ascenso das lutas nesse momento, e da percepção da necessidade do novo, já que o velho não dava mais conta, tal percepção não foi desenvolvida na consciência dos estudantes. Não se debateu com a base estudantil esta necessidade de unificação nacional das lutas, de forma que cada ocupação teve seu fim em si mesmo.

Vivemos agora um momento sem grandes mobilizações, e de repressão cada vez maior. Entendemos que, apesar da necessidade urgente do ME de esquerda dar uma resposta à altura de suas necessidades, criar uma nova entidade é algo que precisa ser levado a discussão com a base. Não adianta criar algo novo sem que a base estudantil tenha a menor noção da necessidade do mesmo. O Congresso Nacional de Estudantes precisa ser discutido com o conjunto dos estudantes, precisa estar no seio das lutas estudantis, já que servirá para, principalmente, além da discussão da criação ou não de uma nova entidade, discutir os rumos da educação pública e de qualidade em um momento de crise econômica, mostrar qual a resposta que o movimento deve dar a este momento pelo qual passa e unificá-lo nacionalmente dentro de marcos que permitam avançar o processo de reorganização. Para tanto, será também fundamental a discussão acerca dos princípios e concepções que devem nortear este processo.

Porém, é claro que, considerando experiências anteriores, não podemos sair deste congresso com apenas um calendário de lutas, deixando a construção do mesmo sem nenhuma garantia. Entendemos que não é deste congresso que deve sair a Nova Entidade Estudantil, já que uma entidade que se proponha a ser combativa e representativa precisa nascer das lutas dos estudantes. Faz-se necessário que os estudantes conheçam qual o objetivo da criação de uma nova entidade, e que aqueles se sintam correspondidos por ela e componentes da mesma. Porém, também nos é notório que não podemos sair do CNE sem respostas ao contexto em que nos encontramos. Nós, do grupo Além do Mito..., entendemos necessário que deste espaço seja efetivada uma articulação nacional, que sirva para aglutinar os estudantes em torno das lutas e que dê conseqüência ao calendário a ser discutido no CNE. Em contrapartida, é preciso que fique claro que esta articulação não deve ser uma reedição da CONLUTE, tão pouco da Frente. É preciso delimitar seus marcos, métodos e princípios, possibilitando que esta se torne algo mais orgânico e se construa no combate estudantil cotidiano. Além disso, construída por fora da UNE, é necessário que mantenha sua autonomia para debater a construção do novo, por fora de “unidades artificiais”, e oferecendo aos estudantes as reais condições de suprir as necessidades deste momento de luta. É a partir desta articulação que se deve impulsionar a construção combativa das pautas decididas no CNE, trazendo de volta à luta o Movimento Estudantil, pois é das lutas dos estudantes que o Novo Movimento Estudantil e a Nova Entidade Estudantil podem ser erguidos de fato.

Grupo Além do Mito...

Maceió, Março de 2009.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Moção do DCE-UFAL de solidariedade a Claudionor Brandão

Claudionor Brandão é dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo e operário de manutenção desta Universidade há vinte anos. Recentemente, foi demitido por justa causa pela reitoria da USP. Na alegação, faltas graves do tipo: direção de greves e piquetes na Universidade. O Diretório Central dos Estudantes da Quilombo dos Palmares lançou uma moção de solidariedade a Claudionor Brandão que segue abaixo.



MOÇÃO DE SOLIDARIEDADE DO

DIRETÓRIO CENTRAL DOS ESTUDANTES

QUILOMBO DOS PALMARES


O Diretório Central dos Estudantes Quilombo dos Palmares, entidade representativa do corpo discente da Universidade Federal de Alagoas, vem, por meio deste, expressar sua solidariedade à luta do camarada Claudionor Brandão frente às medidas arbitrárias tomadas pela Reitoria da USP.

O ataque a Brandão tem contornos claramente políticos representando uma evidente tentativa de desarticulação dos trabalhadores da USP. O SINTUSP demonstrou-se enquanto entidade disposta a construir a luta por uma Universidade pública, gratuita e de qualidade, bem como contra a precarização de suas condições de trabalho. Isto o colocou, e colocará, por diversas vezes em choques diretos contra a Reitoria da USP e os governos neoliberais que tentam submeter a Universidade a uma lógica de mercado, privatizante e destrutiva.

Claudionor Brandão é, desta forma, apenas mais uma vítima das perseguições políticas que têm sido deflagradas nos últimos tempos. Uma demissão por justa causa que alega piquetes e greves como faltas graves é um ataque não apenas ao trabalhador em questão, mas à liberdade e autonomia sindical. É um ataque ao direito de resistência, fundamental à Classe Trabalhadora.

Nestes momentos, a solidariedade de classe, que deve existir entre os que se encontram na mesma trincheira de luta, é a nossa maior arma. Nós, estudantes do DCE UFAL, dedicados à construção de um movimento estudantil classista, intimamente ligado às necessidades e perspectivas dos trabalhadores, nos servimos deste para declarar nossa solidariedade ao companheiro perseguido.

Também desejamos expressar nosso veemente repúdio aos atos arbitrários tomados pela Reitoria da USP, respaldados por seu Conselho Universitário. Para nós, situações como estas apenas somam-se àquelas que servem para provar o quanto a burocracia universitária é capaz de articular-se em defesa de seus privilégios. Demonstra, também, a falta de democracia real não apenas nos conselhos, mas em todas as instâncias das universidades brasileiras.

A luta de um de nós é a luta de todos nós!

Pela readmissão imediata de Claudionor Brandão!

Por democracia real nas Universidades!

Em defesa das liberdades democráticas!

Diretório Central dos Estudantes Quilombo dos Palmares – UFAL